
Especialista fala sobre a Síndrome de Gaiola, no pós-pandemia
A Psicóloga Camila Helena Brito dos Santos fala sobre a síndrome que atinge uma em cada sete crianças no mundo, com idade entre 10 e 19 anos
Postado em 07/04/2022 14:00

Camila Helena Brito dos Santos, Psicóloga – Foto: Arquivo Pessoal
A pandemia causou muitos problemas, além das mortes e sequelas causadas pela doença em si. Ela mudou rotinas, relacionamentos e fez com que os mais jovens, precisassem abrir mão dos encontros com amigos, a rotina da escola, as festas e as viagens, devido ao isolamento social imposto pelo novo coronavírus. As consequências desses dois anos de isolamento são crianças e adolescentes ansiosos com a ideia, por exemplo, de voltarem às aulas presenciais por medo de se contaminarem.
Esse comportamento foi nomeado por especialistas como “síndrome da gaiola”, fazendo uma associação às aves que crescem em cativeiros e, quando a gaiola é aberta, vêem a oportunidade de voar, mas continuam presas. Para falar sobre esse tema que tem tirado o sono de muitos pais, o Jornal do Sertão conversou com a psicóloga Camila Helena Brito dos Santos que reafirmou que a “síndrome da gaiola” é uma das consequências do isolamento social, imposto pela pandemia.
De acordo com a psicóloga a pandemia da Covid-19 causou muitos impactos duradouros na saúde mental de crianças e adolescentes e isso tem gerado bastante transtorno para a família, uma vez que existe uma extrema recusa em realizar ações simples do dia-a-dia, como ir à escola, supermercado, casa de parentes entre outras atividades cotidianas,
Sintomas e tratamento
Os principais sintomas que podem ser identificados quando uma criança está passando por essa situação inicialmente são sutis, mas podem se desenvolver para intensas crises de ansiedade diante da possibilidade de sair de casa e retomar suas ações corriqueiras.
“Dentre esses sintomas pode aparecer falta de ar, aceleração cardíaca, sudorese”, pontuou a psicóloga Camila Helena, acrescentando ainda que “os prejuízos podem ser observados nas habilidades sociais, já que os sintomas de ansiedade são intensos, chegando até mesmo a prejuízos acadêmicos, uma vez que existe muita vezes uma forte recusa em frequentar a escola”.
A especialista chama a atenção da família que a “síndrome da gaiola” não é uma indicação de depressão devido à pandemia. “Na verdade a síndrome não é considerada uma doença ou um transtorno mental, ela é um estresse adaptativo, devido ao isolamento vivido durante a pandemia”, explicou.
Sobre como se trata a “síndrome da gaiola” Camila Helena expôs que o tratamento ocorre por meio de sessões de psicoterapia com psicólogo e algumas vezes é associado o uso de medicação, que, neste caso, deve ser receitada pelo médico psiquiatra. Camila acrescenta que, com o acompanhamento necessário, o paciente aos poucos retoma sua confiança, reduzindo seu grau de ansiedade. “E, futuramente conseguirá levar uma vida normal”, avaliou.
Reconhecer e pedir ajuda
Saber reconhecer os sinais que levam a “síndrome da gaiola” e procurar ajuda de um especialista é sem dúvida o caminho para evitar complicações. A mãe de inicial C, que pediu para não ser identificada, moradora do Vale do São Francisco é um exemplo disso. Segundo C, sua filha de 11 anos começou a apresentar sinais de estresse adaptativo no final do ano de 2021, quando a pandemia deu uma trégua e as escolas anunciaram o retorno gradativo das aulas presenciais.
“Quando a pandemia começou ela tinha apenas 9 anos e seguimos à risca todos os protocolos de segurança, inclusive o isolamento social. Ela ficou em casa o tempo todo, as aulas eram online, e não tinha contato com mais ninguém, além dos de casa”, explicou. Entretanto, relata a mãe, logo nas primeiras semanas sua filha agora com 11 anos não conseguiu se adaptar ao retorno às aulas presenciais, o que prejudicou seu rendimento escolar, e o convívio com os colegas não fluiu como deveria.
“Sempre que o assunto era a escola ela apresentava uma sensação de formigamento no corpo, falta de ar, ânsia de vômito, sensação de desmaio, e chegou ao extremo de não conseguir sair de dentro do carro. As crises eram intensas”, disse.
Ao perceber que não seria possível cuidar da filha e protegê-la sozinha, “C” procurou ajuda psicológica, e depois de algumas sessões a criança começou a apresentar alívio, mas, ainda está em fase de adaptação, aprendendo novamente a conviver com essa nova rotina. “Sei que tem muito caminho pela frente e vamos viver um dia de cada vez, até ela se sentir segura novamente”, desabafou.

A escola
O caso da filha de C. não é um caso isolado, o Jornal do Sertão entrou em contato com a gestora do Colégio Estadual no sertão baiano e ela explicou que na instituição também teve um caso de “síndrome da gaiola” com um aluno do 7° ano, matutino. A gestora explicou que tomaram conhecimento do problema, através da própria mãe do aluno. Ela procurou a direção do colégio e comunicou que o filho não queria ir para a escola por medo, pois não se sentia seguro saindo de casa.
A princípio, a orientação foi mantê-lo nas aulas remotas, até sentir-se seguro para a aula presencial. O próximo passo para vencer essa batalha invisível foi uma conversa franca e acolhedora entre a diretoria e o aluno. Na conversa a gestora explicou que aquele sentimento de insegurança seria pelo tempo do isolamento, mas que ele deveria tentar aos poucos conversar com alguns colegas e que no dia que não conseguisse permanecer na escola poderia voltar para casa.
A diretoria também orientou à família a procurar um profissional, um especialista para ajudar. “Aos poucos e com ajuda da família, da escola e acompanhamento do profissional o estudante foi se readaptando à nova realidade”, declarou acrescentando que o fator mais importante nessa retomada foi a chegada da vacina para sua faixa etária. Hoje o aluno em questão já está vacinado e aos poucos se ajustando nesse novo normal.