
As eleições e o semiárido: vamos aprender com o passado, mas é hora de se concentrar no futuro
Por Geraldo Eugênio
Postado em 27/10/2022 17:57

Venho insistindo em ver a agenda do semiárido de modo prioritário no próximo mandato presidencial por algumas razões. Primeiro porque o Nordeste na maioria das vezes, incluindo as lideranças locais, foi considerado um problema para a nação. Em segundo lugar, questões que se perpetuam nem sempre são objetos de atenção. Quanto mais se puder esconder embaixo do tapete, melhor. Esta é a razão pela qual a região seca recebe muito pouca atenção durante os programas de governo. Conforme havia comentado em vários textos das semanas anteriores, que os formuladores de políticas não venham aqui apenas pelo chapéu de vaqueiro e a buchada, o semiárido é uma nave que decolou e não há justificativa para cancelar seu arremesso.
Que a região não espere as propostas do governo federal, mas sim que saia daqui propostas do que tem de ser feito de modo integrado entre os estados do semiárido na próxima década. E que se elabore um plano robusto incluindo os nove estados da região Nordeste, e os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo.
As mudanças estão a olhos vistos
Há um consenso de que, por mais que alguém seja descolado da realidade, o acúmulo de trabalho e esforços nas últimas décadas, em especial nos últimos vinte e cinco anos, mudou o ambiente e a visão do mundo sertanejo. Além da tradição, de seu clima, de suas potencialidades e sua cultura diferenciada o semiárido brasileiro se tornou uma região em que o desenvolvimento sustentável e a prosperidade de seu povo foram postos à luz.
Que se veja o comércio nas cidades do interior, os serviços médicos e educacionais, a disponibilidade de energia, de internet e comunicação com o mundo. Polos agrícolas sofisticados surgiram no norte de Minas Gerais (Janaúba), no submédio São Francisco (Petrolina-Juazeiro), em Pernambuco (Sertão do Moxotó), no oeste do Rio Grande do Norte (Mossoró), no Ceará (Ibiapaba), além de alguns outros de menor dimensão.
No que se refere à educação, as dezenas de campi povoando o semiárido, cobrindo todas as áreas do conhecimento como as ciências humanas, as engenharias, a saúde, a computação, as agrárias, a economia, a arquitetura estão se consolidando e se tornando forte a cada ano que passa. Vale esclarecer que o que foi conquistado em duas décadas levou-se um prazo muito mais longo em estados mais desenvolvidos do país.
Merece um especial destaque os serviços de saúde. Os hospitais públicos, unidades de pronto atendimento, laboratórios, clínicas de fisioterapia, nutrição, programas de reabilitação são inúmeros e de primeira qualidade. O padrão das clínicas e dos serviços ofertados pela iniciativa privada merece o reconhecimento e a certeza de que a saúde é uma área em que a boa gestão e a interação entre o público e o particular farão a diferença. O número e a qualidade dos profissionais que se estabeleceram no interior é algo impensável há muito pouco tempo. A escassez de profissionais em algumas especialidades foi reduzida significativamente.
Muito à aprender. Conosco e com outros povos e países
Logo, há de se admitir que o governo que iniciará seu mandato a partir de janeiro encontrará o ambiente para poder dar continuidade a políticas em andamento sem deixar de proceder mudanças que visem a aceleração do movimento em curso. O conhecimento acumulado no Brasil e outras nações que contam com áreas expressivas de clima seco semiárido e árido é um patrimônio à disposição. A retomada do diálogo e a aceleração de programas de pesquisa que visem a permuta de conhecimento, a incorporação de tecnologias, a cooperação internacional, a educação continuada, a previsão climática, o uso eficiente de água e expansão dos serviços de internet e comunicação serão fundamentais.
O futuro que nos espera
Quase sempre a região ficou à espera do que se decide em Brasília, o que não deixa de ser algo normal para um país com um sistema presidencialista e que carrega um certo vício de centralismo e dependência. O momento exigirá uma outra postura. As opções para o futuro da região são nítidas. Uma delas é o reconhecimento de suas forças e uso de suas potencialidades naturais, humanas, estratégicas. A outra que quase sempre foi a nossa opção é de se vender o semiárido como um cliente de benesses, inventando tudo que é desculpas para o programa assistencial, a síndrome da miséria crônica e a insaciável sede por gratuidades e comiseração.
Existe uma outra trilha, um tanto diferente, mais árdua e espinhosa, mas aquela que não permitirá a vontade de crescer suplante a atitude de comodidade e que injeta o sentido de prosperar entre as pessoas e comunidades. Que não se questione o fato de que a primeira, em muitos momentos necessária, levará à dependência e aos ganhos incrementais, enquanto a segunda por mais dura que seja será o caminho do despertar e da mudança que o nordestino do semiárido merece. Seja qual for o período de seca, de pandemia, de sacrifício que tenha que enfrentar esta região, o valor de sua gente e potencialidades infindável, que o ânimo coletivo não se acomode em um sistema que perdurou por séculos.
Mais uma eleição está à porta, mas o fundamental é saber o que se quer do futuro para o semiárido e a certeza de que a base deste projeto deverá ser processada aqui, no Agreste, no Cariri, no Sertão, nas Serras.