
Chuvas intensas e perspectivas de safra
Não dá para adivinhar, mas uma coisa é certa: o Sertão vive, desde 2018 um longo período de chuvas em quantidade superior ao normal
Postado em 01/12/2022 19:30

Foto Jornal do Sertão
A última semana de novembro foi pródiga em chuvas no Sertão
As chuvas, na região do Pajeú, se iniciaram na última semana de outubro, seguindo-se de um veranico de duas semanas. Retornaram no meio do mês de novembro, seguindo-se de um segundo veranico. Nestes últimos dois dias, entre 28 e 30 de novembro foram chuvas que acumuladas excederam cem milímetros. Algo não muito comum em nossa região. Um pouco mais ao leste, em Arcoverde, somente as precipitações ocorridas nos dois últimos dias, chegaram a 160 milímetros. Chuvas copiosas para o período e uma dádiva para a caatinga que durante este intervalo não chegou a secar. Tão logo ia se aproximando do ponto de murcha permanente, a água chegava e tudo a nossa floresta voltava ao seu verde característico.
Talvez o Senhor Odon esteja certo
Precipitações precoces são sinônimos de períodos chuvosos extensos? Nem sempre. Aqui entra a discussão com o do Senhor Odon, assessor de Francisco Mourato para agricultura e projetos afins. Ele deixou claro para o chefe que gostaria de haver plantado o milho desde as chuvas de outubro. Ponderei que deveria esperar um pouco e que a quadra chuvosa ainda não havia se estabelecido. Talvez tenha que admitir que o Senhor Odon era quem estava certo. Os veranicos ocorridos com certeza danificariam de modo irreversível a cultura do milho e haveria redução na produtividade da roça, por outro lado havendo feito o plantio como gostaria, o milho estaria com 40 dias e próximo a pendoar.
Este é o jogo que o agricultor do semiárido se defronta, estação após estação. Não dá para adivinhar, mas uma coisa é certa o Sertão vive, desde 2018 um longo período de chuvas em quantidade superior ao normal e com uma distribuição invejável. As surpresas sempre existirão. No primeiro semestre de 2022, por exemplo, os meses de abril e maio foram atipicamente secos e os plantios que coincidiram a floração neste intervalo sofreram perdas severas.
O que se prever para os próximos meses
Além das rezas e dos adivinhos, vamos ver o que a ciência nos diz. Hoje recebi um comunicado do pesquisador Sérvulo Mercier, do IPA – Arcoverde, com dados mostrando que o fenômeno La Niña perde força até março de 2023, iniciando-se um período em que o El Niño se expressa em maior intensidade. Não significa que a quadro chuvosa se encerre em março de 2022, entretanto é plausível se esperar algo similar a 2022, com um forte veranico ocorrendo entre os meses de abril e maio.
As regiões Agreste e Sertão de Pernambuco estão envolvidas em um experimento em que se procura entender o papel das tecnologias modernas no cultivo do milho em áreas sob risco de estresses hídricos. Não poderia haver melhor oportunidade de se continuar com o programa, desde que o semeio ocorra quando há maior probabilidade de se colher uma boa safra.
Os resultados obtidos em 2022 foram animadores o que comprovam que há espaço para se exercitar uma agricultura diferente do que se via há décadas e incorporar as mais modernas tecnologias disponíveis no mercado. Não se demonstra uma hipótese que se constitui em uma mudança de paradigma radical em dois ou três anos de ensaio, mas a certeza é de que a responsabilidade pelo programa já extrapolou os limites acadêmicos e se estendem à iniciativa privada, quer no âmbito de empresas representativas do agronegócio brasileiro, quer em relação aos empresários locais.
Que as matracas e plantadeiras tenham sido revisadas
O que o diagrama elaborado pelo Sr. Merinaldo Bezerra, que nos enviou o colega Sérvulo, tendo como base os dados do NOAA/IRI diz é que por precaução é recomendável que aqui no Sertão do Pajeú se engraxe as matracas e plantadeiras e se prepare para semear o milho entre o final de dezembro e a primeira quinzena de janeiro de 2022.
Obviamente que nem Merinaldo nem nenhum de nós pode garantir que o cenário apresentado se cumpra à risca, entretanto, enquanto não contarmos com sistemas de previsão e alerta mais precisos que assegure uma leitura precisa em um horizonte mais amplo do que dois meses, é melhor crer no que os dados de um laboratório como o NOAA, um dos mais renomados instituições mundiais sobre clima, apontem para o que poderá ocorrer, reduzindo os riscos de perdas.
Há uma visível tendência de antecipação das chuvas no Sertão nos últimos cinquenta anos. Os plantios que se davam entre os meses de fevereiro e março já não podem ser feitos sem um elevado grau de risco e, a cada ano, ao menos é o que demonstram os dados meteorológicos na última década o plantio do milho deve se ocorrer entre a primeira e a segunda quinzena de janeiro. Ao menos no que se refere à Serra Talhada. A precocidade do cultivo não é o passaporte para o sucesso e há de ocorrer anos em que veranicos entre os meses de fevereiro e abril perturbem a expectativa de um bom período chuvoso. Uma coisa é certa, não dá para se aguardar o dia de São José. Dezenove de março já é uma data por demais tardia para se apostar, logo. Que fiquemos atentos e confiemos nos dados apresentados por instituições científicas quando o assunto é clima.
1Professor Titular da UFRPE-UAST
Recife 01 de dezembro de 2022