
Novo governo brasileiro e as ameaças ao agronegócio nacional
A agricultura, como atividade estratégica para o país, é uma das que merece mais atenção, muita precaução e os devidos cuidados.
Postado em 08/12/2022 18:00
Uma realidade ou um factoide?
Em três semanas o Brasil contará com um novo time de comando em todas as áreas da gestão pública federal. A agricultura, como atividade estratégica para o país, é uma das que merece mais atenção, muita precaução e os devidos cuidados.
De modo direto ou com uma certa camuflagem alguns mecanismos de imprensa se adiantam a vender algumas dificuldades à frente, entre elas uma que diz respeito aos riscos de insegurança jurídica, começar por uma massiva ocupação de terras produtivas, uma hipótese completamente infundada em considerando o que foi o campo nos últimos vinte anos. Os recursos destinados à desapropriação de imóveis têm decrescido desde 2009. Por duas razões simples: a primeira a elevação exponencial nos preços de terra e a segunda devido ao estoque de imóveis desapropriados e áreas carentes de regularização fundiária que estão à espera de uma solução adequada do ponto de vista de consolidação e produção.
Há uma segunda questão que vem sendo posta na mídia nos últimos dias, que interessa diretamente ao Semiárido, que é o boicote à agricultura brasileira e a tentativa de aniquilá-la ou prejudicar o país ao máximo. Uma outra teoria conspiratória que deve ser vista com cautela. A agropecuária brasileira é uma conquista respeitada no mundo inteiro, em todo o espectro e países e instituições. O país é reconhecido como um dos suportes à segurança alimentar mundial e uma das nações que têm demonstrado a capacidade dos ambientes tropicais no suprimento alimentar mundial. Algo impensável há seis décadas.
A Europa como inimiga preferencial
Seguindo a linha de raciocínio de que todos estão contras, vamos há alguns fatos. Os Estados Unidos não nos molestam uma vez que apesar de ainda ser o principal ator no negócio mundial de commodities não conta com áreas para expansão e têm consciência de que muito das conquistas obtidas aqui foi fruto da opção pela capacitação de milhares de jovens cientistas e professores brasileiros em universidades americanas desde o início da década de setenta do século XX. Sabem ainda que parte substancial do agronegócio nacional está diretamente conectado às suas corporações e empresas.
Que se veja a Europa. Quanto à competividade com os nossos produtos no mercado internacional é difícil imaginar que os europeus se vejam como grandes supridores de soja, farelo de soja, milho, frango, carne bovina, açúcar, suco de laranja, entre outros. Vejam que são produtos produzidos em escala inferior aos números apresentados pelo Brasil. O milho produzido na Espanha, Itália, Portugal e nos Balcãs não é suficiente para o consumo interno. A soja também não faz parte das grandes opções de cultivo do continente nem tampouco a cana-de-açúcar, a laranja de suco ou as pastagens tropicais.
No caso da Ásia, em particular a China, sempre haverá de ser um dos mais importantes parceiros comerciais e cliente dos produtos brasileiros. Apesar de ter aumentado muito a produção de milho, frango, carne de frango, ovos, tanto este país quanto a Índia e o continente asiático de modo geral reconhecem no Brasil um parceiro estratégico no mercado internacional de alimentos.
A África, apesar dos esforços de vários países que contam com áreas de Savana, semelhantes ao Cerrado brasileiro, tem acelerado a capacitação de seus jovens e o uso de tecnologias continuará por algum tempo como compradora de carboidratos e proteínas produzidas no Brasil.
Os vendedores de soluções
Tem um outro produto que vale a pena chamar atenção que volta e meia faz notícias que é a produção de trigo e sua relação com o preço do pão. Aí surgem alguns que questionam por que o Brasil não é autossuficiente na produção de trigo, o que impede de crescermos, o que está havendo, quais os entraves?
Esses mesmos sabem que não há limitação do ponto de vista agronômico que impeça o aumento da produção desse cereal, mas também sabem muito bem que ao lado há um país que é o principal consumidor dos produtos automotivos e eletrodomésticos que necessita vender algo para o Brasil e um de seus produtos envolvidos nesta negociação é o trigo, o que não é demérito algum.
Portanto, se arquiteta uma solução que está pronta e não tem sido utilizada por conveniência geopolítica e comercial. Não há conflitos ou conspirações envolvidas neste nesta relação com a Argentina e o Mercosul, de modo específico.
O Brasil é respeitado no mundo dos negócios de alimentos e matérias-primas
Apesar da simulação de um ambiente caótico, repito, completamente infundado, o agronegócio nacional continuará sendo um dos pilares da economia e tem todas as condições de em 2030, o Brasil produzir 400 milhões de toneladas de grãos. Há uma demanda tecnológica gigante a ser atendida, o que mostrou a Covid 19 e a guerra na Ucrânia. A total dependência da agricultura e da pecuária brasileira por insumos externos.
Dito isto, haverá a necessidade de se redefinir o modelo de pesquisa, desenvolvimento e inovação adotado. Reconhecer que houve falhas nos estudos de prospecção e cenários e que caberão à academia, aos agricultores e pecuaristas, às empresas nacionais e ao governo estarem unidos de modo que ao final da década atual não seja necessário importar 85% dos fertilizantes químicos ou fração equivalente de defensivos agrícolas.
O Brasil conta com um aparato de pesquisa que, em funcionando, dará conta do recado e, para tanto, a retomada de investimento em suas instituições de ensino e os institutos de ciência e tecnologia serão fundamentais ao avanço de nosso posicionamento do xadrez da agricultura mundial.
Portanto, no caso de Pernambuco, quer o setor sucroalcooleiro, na Zona da Mata, exportador de açúcar ou a fruticultura irrigada no Sertão do Moxotó e no Vale do São Francisco não enfrenta risco de ruptura alguma ou ameaça ao seu desempenho e à sua posição no mercado interno e externo.
1Professor Titular da UFRPE-UAST
Serra Talhada, 08 de dezembro de 2022