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Pernambuco, 20 de fevereiro de 2024

Agronegócios

Gestão de recursos hídricos no Agreste e Sertão

Uma questão ainda não foi resolvida diz respeito ao uso adequado da água da chuva. Em um número razoável de beneficiários do programa, a calha não funciona, foi retirada ou até destruída e este fundamento deixou de ser observado. Mesmo assim, o fato de se contar com um local limpo em que possa acumular entre quinze e vinte mil litros de água potável, já se configura em um grande ganho.

Postado em 17/02/2023 2023 03:19 , Agronegócios. Atualizado em 17/02/2023 03:22

Colunista

Jornal do Sertão

O efeito cisterna

Há quem subestime o efeito do programa de Cisternas quanto aos impactos na vida do nordestino que continua morando em comunidades do interior, distritos ou dispersos sertões afora. Somente quem já viveu neste ambiente e viu a dificuldade que é de ver a mãe ter que se deslocar grandes distâncias com um pote ou uma vasilha qualquer na cabeça para conseguir um pouco de água para beber, ou ver o pai sair com o carro-de-boi por quilômetros para conseguir alguma água salobra a ser usada na lavagem da roupa, no banho e nos outros afazeres domésticos pode emitir alguma opinião realista.

A aceitação pela sociedade brasileira ao programa foi relevante durante algumas gestões do governo federal e o número de cisternas instaladas excedeu um milhão de residências, porém há espaço para uma outra quantidade a ser construída de modo mais fácil, visto que muitas famílias moram no campo estão cadastradas nos programas sociais públicos.

Uma questão ainda não foi resolvida diz respeito ao uso adequado da água da chuva. Em um número razoável de beneficiários do programa, a calha não funciona, foi retirada ou até destruída e este fundamento deixou de ser observado. Mesmo assim, o fato de se contar com um local limpo em que possa acumular entre quinze e vinte mil litros de água potável, já se configura em um grande ganho.

A transposição, e seus aspectos positivos

Atualmente os ânimos já se acomodaram e quase ninguém questiona os efeitos positivos das obras de transposição do Rio São Francisco. O ciclo de seca entre 2012 e 2018 deixou claro que não há como se conviver no século XXI com cidades de médio e grande porte sendo abastecidas com carros pipas, como foi o caso em todos estados do Semiárido. O Rio São Francisco é uma dádiva divina para o Brasil e o Semiárido. Faz parte da história, da cultura e do imaginário nordestino. Desde há quase cem anos seu uso na geração de energia, também questionado, resultou em uma mudança radical de seu impacto na economia no bem-estar e na atração de investimentos para a região.

Além disto, após a conclusão das Barragens de Sobradinho e Itaparica a opção de uso dessas reservas visando abastecer as comunidades e o rebanho no Sertão e Agreste seria inquestionável. Do ponto de vista ambiental é extremamente relevante se contar com a água doce chegando a Piaçabuçu, na foz entre Alagoas e Sergipe, entretanto quando a demanda de abastecimento para centenas de cidades próximas do leito do rio é posta à mesa, as obras de repartição desse bem coletivo é mais do que justificável.

 

Há água para todos?

Esta é uma pergunta que não se cala, mas que não pode deixar de ser abordada. Em uma região que conta com dois grandes rios perenes, o São Francisco e o Parnaíba, dezenas de grandes barragens, milhares de açudes de pequeno e médio porte, outros tantos milhares de poços superficiais ou profundos, mais de um milhão de cisternas instaladas e milhares de quilômetros de canais e adutoras, não dá para crer que não haja água suficiente para as necessidades básicas desta população.

Vale lembrar os avanços alcançados pelo estado do Ceará ao longo das últimas três décadas. É inegável que o Ceará conta com o sistema moderno de gestão e constituiu um aparato legal visando o uso das águas superficiais ou profundas, que prioriza o uso nas atividades humanas e econômicas é reconhecido no Brasil e no exterior.

O estado não parou com a construção do açude do Castanhão, mas continua tendo o tema de gestão na ordem do dia, como deveria ser o caso de todos os outros nove estados do Nordeste, de Minas Gerais e do Espírito Santo.

O que se vê, no início de mandato presidencial é a apresentação de uma enxurrada de propostas com as prioridades para cada estado e município. São várias as demandas justas da região Nordeste, mas há de se convir que a conclusão das obras de infraestrutura e a governança da gestão dos recursos hídricos para o Semiárido brasileiro não pode estar ausente entre as três demandas mais importantes na relação a ser negociada pelos governantes dos estados citados.

Tecnologias e uso eficiente da água

Por falar nisto, em uma iniciativa que trata de uso eficiente dos recursos hídricos, que se conheça uma delas, liderada pelo setor empresarial cearense com o apoio de instituições públicas. O seminário Acqua Innovation 2023, em sua sexta edição, que se realiza em Fortaleza entre 22 e 23 de março próximo contando com a participação dos usuários, gestores e especialistas do Brasil e do exterior a discutir o melhor aproveitamento das águas, o futuro das atividades agrícolas, uma agenda de bioeconomia e de agricultura de precisão conectadas ao mercado brasileiro e internacional.

Os ganhos de eficiência no uso da água são constantes em todas as áreas irrigadas do Nordeste. Em Petrolina há empresas usando um terço da água utilizada há 30 anos para se obter a mesma produtividade da uva; na área irrigada da Bacia do Moxotó, em Ibimirim, PE, a produção de melão tem passado por uma experiência exitosa de ajustes em seus sistemas de fertirrigação com redução de até 50% da água anteriormente utilizada.

O retorno da Codevasf ao orçamento geral da União

Por último não poderia de comentar o que se espera da Codevasf, antiga Companhia do Desenvolvimento do Vale do São Francisco, que nos últimos anos foi totalmente desfigurada passando a atuar em todo o Norte e Nordeste, seja no ambiente rural ou urbano. Seu foco foi totalmente alterado e, tal qual um ministério paralelo, passou a financiar de calçamento a trator, mas pouco se ouviu falar da preocupação com a gestão e expansão da área irrigada e da adoção de sistemas modernos de uso e controle da água nas bacias dos rios São Francisco e Parnaíba. De uma entidade fomentadora do desenvolvimento se transformou na gestora preferencial de um orçamento secreto cujas aplicações se davam às sombras, tal qual a origem de seu orçamento.

Chegou o momento de recolocar a instituição no seu devido lugar e trazê-la de volta a seus objetivos. Há muito o que ser feito em termos do uso difuso das águas disponíveis na região. Sem objetivos claros a instituição não pode continuar e sua ação será comprometida pela baixa eficiência e comprometimento político. É esperar e ver o que será apresentado como proposta para essa casa de importância estratégica para o Semiárido do Nordeste.

Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 16 de fevereiro de 2023