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Pernambuco, 29 de fevereiro de 2024

Agronegócios

Aproveitamento de águas interioranas

Durante a semana passada, para facilitar a comunicação entre a coluna de Agronegócio, do Jornal do Sertão e os leitores e interessados no tema foi formatado um grupo no WhatsApp visando uma imersão em temas referentes a agropecuária, o meio ambiente e atividades correlatas no Semiárido. Para surpresa um dos primeiros a reagir foi o amigo Roberto Morais, amigo de algumas caminhadas, chamando a atenção para o açude público de seu município natal, Ingazeira.

Postado em 17/08/2023 2023 18:11 , Agronegócios. Atualizado em 18/08/2023 11:11

Colunista

Aquicultura, uma tendência mundial

Produzir em ambientes aquáticos é um modelo que se consolidou mundialmente. Os países da Ásia foram pioneiros nesta tendência e lideram a produção de espécies de peixes e crustáceos nos deltas e nos espelhos de água no interior. O termômetro desta conquista é a visita a uma central de abastecimento ou feira de frutos do mar, seja na China, Vietnã, Malásia ou qualquer outro país da região.

No caso específico da Índia, o trabalho intenso de desenvolver um sistema de produção aquícola dirigido para mini e pequenos produtores fez do Dr. Modadugu Vijay Gupta, um biólogo especializado em espécies aquícolas, o ganhador do World Food Prize, em 2005, prêmio também conhecido como Nobel da Agricultura e Alimentação.O Dr. Vijay Gupta foi o pioneiro no que se conhece como Revolução Azul, aquela que visa a produção seja nos oceanos, deltas, córregos, barragens, açudes, poços, tanques ou qualquer local onde haja acúmulo de água.

Os açudes e barragens do Sertão

Durante a semana passada, para facilitar a comunicação entre a coluna de Agronegócio, do Jornal do Sertão e os leitores e interessados no tema foi formatado um grupo no WhatsApp visando uma imersão em temas referentes a agropecuária, o meio ambiente e atividades correlatas no Semiárido. Para surpresa um dos primeiros a reagir foi o amigo Roberto Morais, amigo de algumas caminhadas, chamando a atenção para o açude público de seu município natal, Ingazeira. Uma obra que demorou 76 anos para ser concluída foi projetada no governo do Presidente Vargas com o objetivo de aproveitar a água na irrigação e na produção de peixes para o benefício da população local.

O fato é que o açude não tem sido usado para o que foi planejado e pelo que foi relatado nada ou quase nada se produz em suas margens ou na água acumulada. A questão posta foi sobre qual o ente que gera não apenas o açude de Ingazeira, mas os demais açudes e barragens da região semiárida.

Ao que parece, apesar de ter sido construído com recursos públicos foi deixado à deriva e, aparentemente, ninguém ou todos mandam ao mesmo tempo. Uma situação quase que inconcebível para o que representa a água em qualquer local no sertão.

Aqui em Serra Talhada, há uma grande barragem para os padrões locais, Serrinha, com um uso bem aquém do que poderia ter e isto se repete com outros sistemas de armazenamento à exceção daqueles que foram concebidos visando o abastecimento de cidades e comunidades.

A recriação do Ministério da Pesca e o que dele se pode esperar

Em janeiro último, o governo federal recriou o Ministério da Pesca, coincidentemente liderado por um pernambucano, o Ministro André de Paula. Em uma leitura superficial não foram poucos os que consideravam o ministério como algo menor e que visava tão somente retornar com um órgão que havia sido desativado. Ledo engano. André com toda certeza deve ter notado que a ele coube uma das pastas com maior potencial econômico, social e ambiental, principalmente devido as inúmeras demandas acumuladas pelo setor, seja no que se refere ao mar ou aos ambientes do interior do país, em todos os estados, é bom ressaltar.

Tomando o caso do açude de Ingazeira que, conforme informado pelo Roberto, houve uma visita de um técnico do Ministério da Pesca, recentemente. Espera-se que no relatório encaminhado ao Ministro, seu assessor ou gerente haja enfatizado a necessidade de catalogação e análise de todos os açores de médio e grande porte de modo que se possa planejar tornar mais fácil o monitoramento de cada uma área de acúmulo de água, também ficando claro que algo desta magnitude não dá para ser feito sem a participação dos governos estaduais, municipais e das comunidades localizadas à margem dessas obras.

 Um programa de produção aquícola é esperado

Conhecendo-se o terreno, ou melhor, as lâminas de água, espera-se que esteja sendo formalizado um programa de caráter nacional e com ênfase no semiárido em apoio à aquicultura. O potencial da atividade não pode ficar sendo tocado no automático à espera de quem possa ou seja levado a procurar um agente financeiro para construir uma infraestrutura de produção.

Cabe ao governo federal se antecipar, apresentar a proposta, discutir a nível local e implementar de imediato. A otimização da renda dos produtores envolvidos em atividades de aquicultura complementares à produção agrícola ou pecuária não se questiona. Os exemplos observados não apenas na Ásia, mas mesmo em alguns estados do Brasil são mais do que suficientes para se levar a tomada de decisão de um programa com esta magnitude.

Em Serra Talhada, na UFRPE-UAST, engenharia de pesca foi um dos cursos implementados desde a fundação do campus. São dezenas de professores, centenas de jovens formados ou estudando as diversas atividades de produção, processamento e comercialização de pescado e crustáceos. Uma iniciativa tomada pela universidade que a cada dia comprova o acerto da decisão inicial e que se constitui em um aliado formidável a um programa desta natureza.O tempo é astucioso e nem sempre está a disposição para quem se atrasa. Aproveitando a boa provocação do amigo Roberto Morais que se aprenda com o mundo e sem delongas se tome uma iniciativa que mude o perfil das comunidades e produtores que contam com qualquer que seja o volume de água acumulado.

Além do mais será uma forma louvável de aproveitar os jovens que estão concluindo seus cursos e ansiosos por uma oportunidade, seja como produtor, consultor, extensionista, professor, agente bancário, empresário ou que se veja inserido em algum elo desta cadeia produtiva.

 

Geraldo Eugênio

Professor Titular da UFRPE-UAST