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Pernambuco, 18 de maio de 2024

Agronegócios

Desertificação no Semiárido. Como detê-la?

Não é fácil replantar espécies nativas em um ambiente que se conta com chuvas esparsas entre três e quatro meses.

Postado em 26/10/2023 2023 20:17 , Agronegócios. Atualizado em 26/10/2023 20:17

Colunista

O desmatamento da caatinga

​A primeira grande ameaça ao meio ambiente é a supressão de sua cobertura vegetal. Vemos que no caso da Mata Atlântica, o que resta são resíduos e em alguns estágios uma área ínfima. Pernambuco e Alagoas se enquadram neste grupo, uma vez que a região da Mata se tornou em extensas áreas de cana-de-açúcar ao longo de séculos.

​No caso da caatinga, formação vegetal que compreende ao redor de 75% do semiárido, os mais recentes diretórios florestais informam que ao redor de 50% foram desmatados. Este é um dado que merece uma melhor leitura uma vez que, em algumas áreas este valor certamente é muito superior.

​Atividades como a calcinação do gesso para construção civil, as cerâmicas, as panificadoras e outros setores industriais usam, como principal componente de sua matriz energética, a lenha. Ainda persiste, mesmo de forma reduzida, a prática de se usar na cozinha a lenha e o carvão vegetal, mesmo com o programa governamental que apoia as famílias carentes com o financiamento do gás de cozinha, o bolsa gás. Esta é a dura realidade que persiste em uma grande quantidade de lares do semiárido brasileiro.

Desertificação, o passo seguinte

​Seguindo-se ao desmatamento, que significa a eliminação da cobertura vegetal, o que resta é um solo raso, exposto a erosão eólica, solar e pluvial e, conforme citado em uma coluna anterior, em estudos realizados pelo Professor Fernando Freire, do Departamento de Solos, da UFRPE-Recife, a recomposição do Carbono em uma área desmatada da caatinga pode durar mais de cinquenta anos, é de se considerar que o solo desnudo é um mal presságio ambiental e um sinal de que a desertificação total ou parcial pode estar próxima.

​É importante lembrar que algumas áreas do Nordeste se encontram em processo de desertificação há dezenas ou centenas de anos, tendo como base as ocorrências geofísicas. Entretanto, nas últimas décadas, devido ao desmatamento acelerado surgiram manchas com risco mais acentuado, objeto de vários estudos por grupos especializados que descrevem desde a extinção de espécies da flora e da fauna, até a própria cobertura vegetal ao longo do tempo.

Atividades mitigadoras

​Dentre as iniciativas que devem ser objeto de maior cuidado é a aceleração da disponibilidade de água e gestão hídricas nas comunidades e nas habitações individuais. Fazer com que as famílias contem com água não é o suficiente, há a necessidade de um programa permanente de educação e acompanhamento do uso quer seja no ambiente industrial, agrícola, doméstico e recreativo.

​No caso da agricultura, por exemplo, tem-se o maior consumo de água entre todos os segmentos, logo não há como se abdicar de uma ação específica em otimizar a quantidade de água usada por cultura e desta feita investir no uso de sensores, sistemas de irrigação menos eficientes, fertirrigação, acompanhamento da demanda hídrica das plantas e o uso sistemático de espécies adaptadas ao semiárido.

​Neste aspecto, considerando que a principal atividade econômica do semiárido dependente de chuvas é a pecuária, seja ela bovina, ou de caprinos e ovinos, o fomento ao cultivo de espécies de palma forrageira resistentes às principais pragas, a exemplo das cochonilhas do carmim e de escama é uma condição indiscutível.  O exemplo do que ocorreu durante o ciclo de seca que se estendeu entre 2012 e 2018 é marcante. Uma rápida intervenção por parte de alguns governos estaduais e municipais na adoção da variedade de palma forrageira Orelha de elefante mexicana foi determinante na sustentação dos rebanhos e na retomada da produção de leite em todo o Nordeste.

​A transposição do São Francisco encontra-se em fase final de conclusão e é importante se testemunhar os canais e adutoras sendo mantidos permanente utilizados, devendo ser complementada pela exploração racional dos pequenos e médios aquíferos bem como no uso apropriados das áreas mais nobres em cada propriedade, os baixios.

​A recuperação da vegetação deve ser objeto de apoio financeiro aos proprietários que se disponham a manter áreas de pousio por médio e longos prazos, podendo ser bonificados a partir de uma aferição da cobertura vegetal do imóvel nos períodos entre chuvas. Em se constatando uma evolução crescente no verde que recobre a área. Esta sistemática de acompanhamento realizada a partir de geoprocessamento e imagens de satélites ou drones. Nada de auto declaratório, é importante que se deixe claro.

​O reflorestamento pode ser parte de uma política em situações específicas. Não é fácil replantar espécies nativas em um ambiente que se conta com chuvas esparsas entre três e quatro meses. A tendência em  insistir nisto é criar incentivar a custos elevados a produção de mudas de espécies nativas, sabendo que o percentual de sobrevivência é mínimo à exceção das margens e leito de rios, riachos ou em comunidades que estejam cientes da necessidade de preservar as árvores plantadas.

​Uma outra opção que a cada dia se torna mais importante em regiões que disponham de  rochas de pequeno e médio porte é a tecnologia Base Zero, desenvolvida pelo Engenheiro Mecânico José Arthur Padilha, em sua fazenda no município de Afogados da Ingazeira, PE, que consta da instalação de barragens de pedra em um arco voltado à montante dos córregos e riachos que tem como principais atividades a captação e armazenamento de água bem como à retenção de solos erodidos, criando ambientes próprios para o cultivo de forrageiras ou espécies alimentares em qualquer pequena e média propriedade que contar com algumas dessas barragens.

Bioeconomia, a mais eficiente estratégia contra a desertificação

​O mais estratégico entre todas as opções está na genômica das espécies de plantas, animais e microrganismos que compõe a caatinga. É neste tesouro que se encontra o código genético que permitirá a humanidade continuar com crescentes produções de alimentos em tempos de mudanças climáticas. As regiões áridas e semiáridas se tornam menos recomendadas ao cultivo de espécies de sequeiro a cada ano. Uma aposta no melhoramento genético utilizando-se dos recursos mais atuais que permitam a transposição de genes para as espécies alimentares será determinante e essencial. Abiodiversidade da caatinga tem um valor inestimável e vale uma atenção especial por parte das instituições líderes e pesquisa no país ficarem atentas. Um programa contando com a devida conectividade entre os institutos de pesquisa, as universidades e a iniciativa privada será uma das mais importantes conquistas da política científica nacional. O semiárido aguarda com carinho.

​É importante notar que entre os dias 07 e 09 de novembro de 2023, a Sociedade Brasileira de Recursos Genéticos, através da Rede de Recursos Genéticos Vegetais do Nordeste, promoverá, nas instalações do IPA em Recife, o 6º. Simpósio Regional de Recursos Genéticos Vegetais, evento em que traz uma série de temasimportantes ao debate. Se façam presentes.

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 25 de outubro de 2023