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Pernambuco, 20 de janeiro de 2026

Agronegócios

Pernambuco respira ciência, a SBPC chegou

Uma voz em defesa da ciência e da justiça

Postado em 11/06/2025 18:42

Colunista

 

Para quem nunca ouviu falar da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, é bom saber que, durante os anos em que imperou o regime ditatorial no país, entre e 1964 e 1985, esta entidade foi uma das vozes mais autênticas em defesa da democracia e do estado de direito. Em vários momentos, as reuniões anuais da SBPC foram objeto de ameaça por parte dos governantes, uma vez que nas universidades e no meio acadêmico se encontrava um importante foco de resistência contra o arbítrio e o obscurantismo.

O golpe militar havia ceifado centenas de cérebros, fazendo-os migrar ou perecer, a exemplo de Paulo Freire, Naíde Teodósio, Celso Furtado, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, Mário Schenberg, Anísio Teixeira, Josué de Castro, José Leite Lopes, entre tantos outros. Neste período de trevas, um dos dias mais negros da história da ciência no Brasil ficou conhecido como o Massacre de Manguinhos. No dia 1º de abril de 1970, o diretor Rocha Lagoa afastou do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, em uma decisão típica de regimes autoritários, dez dos mais importantes pesquisadores da instituição: Haity Moussatché, Herman Lent, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Augusto Cid Mello Perissé, Sebastião José de Oliveira, Fernando Braga Ubatuba, Tito Cavalcanti, Masao Goto e Domingos Arthur Machado Filho, impedidos de trabalhar nas esferas federal, estadual e municipal.

Foi neste período de violência que a SBPC encampou a luta pela normalidade e pela necessidade de o país contar com uma ciência livre, soberana e à altura do papel do país como uma nação relevante interna e externamente. As ameaças persistem. Para muitos, as universidades, ao invés de serem consideradas como um patrimônio de valor cultural e humanístico, são vistas como antros de subversão e maus costumes, e deixam claro que as despesas com o ensino superior no Brasil são uma aberração. O correto era privatizar tudo e deixar a academia para os que podem pagar, como era antes. Importante chamar a atenção que há pouco tempo se chegou a duvidar da esfericidade da Terra e se colocar em questionamento, mesmo por associações médicas de amplitude nacional, o caráter preventivo e curativo das vacinas.

Um retorno após doze anos.

A reunião da SBPC ocorre anualmente de forma itinerante. A última edição em Pernambuco se deu em 2013. Naquele ano, optou-se por investir na presença da ciência no interior, havendo ocorrido eventos em seis cidades além de Recife. Algo importante, particularmente devido às dificuldades dos estudantes e professores do interior, se faz presente.

Neste ínterim, a pandemia Covid-19 deixou sua marca, levando a óbito milhões de pessoas em todo o mundo e aproximadamente 750 mil brasileiros. A ciência respondeu com uma rapidez impressionante e, em muito pouco tempo, várias vacinas, em diferentes países, foram desenvolvidas por empresas privadas e instituições públicas. O isolamento ao qual a população foi imposta trouxe modificações profundas no dia a dia das pessoas, destacando-se o uso sistemático e intensivo da internet, atualmente traduzido de forma mais eloquente como inteligência artificial. Um outro fator relevante foi o impulso para a educação a distância. São fatos incontestáveis e que merecem ser incorporados à gestão de empresas, escolas e instituições de pesquisa. Não há retorno. O importante é aprender a conviver com essas novas tendências. Na reunião em conferências, mesas redondas, colóquios, tudo isto estará em discussão.

A consolidação da pesquisa científica no interior.

E em Pernambuco, o que ocorreu de mais relevante nos últimos doze anos? Em primeiro lugar, a consolidação do ensino superior é liderada pela instalação de novos campi das universidades públicas e dos institutos federais. Atualmente, centenas de cursos são ofertados, o que permitiu uma mudança definitiva no perfil técnico, gerencial e intelectual das cidades da Zona da Mata, Agreste e Sertão. Como segundo ponto, vale ressaltar a consolidação da pesquisa científica entre os campi universitários, nas mais diversas áreas e especialidades, desde as ciências sociais à saúde, passando pelas engenharias e as ciências agrárias. Este processo ainda se encontra em evolução e os ganhos a serem advindos pela expansão universitária, uma das políticas públicas mais bem-sucedidas no Brasil, em todos os tempos, têm muito que prover em termos de desenvolvimento regional e distribuição de riquezas.

Grandes desafios nacionais.

Apesar dos avanços, persistem desafios a serem objeto de atenção especial por parte da nação. A falta de um sistema de posicionamento global próprio se torna uma grande ameaça à segurança e ao desenvolvimento científico. A dependência atual no GPS – Global Positioning System, americano, ou que seja de qualquer outro país – torna o Brasil refém das circunstâncias que não estão sob seu domínio. Um exemplo relevante foi o que ocorreu com o mundo das comunicações após os atentados de 11 de setembro de 2001, quando os Estados Unidos suspenderam o acesso ao seu sistema por quarenta e oito horas e, com isto, levaram o mundo de negócios e defesa ao caos e à conclusão de que não se poderia contar com um único cliente fornecedor deste tipo de serviço. E aí, a Europa, a Rússia, a China e a Índia aceleraram o desenvolvimento de sistemas próprios.

Demanda-se uma investida mais bem estruturada em defesa de uma agricultura sustentável e menos dependente de tecnologias estrangeiras. No momento, o agronegócio nacional produz ganhos para as empresas multinacionais do setor em proporção superior à que auferem os produtores e contrapartes nacionais. Somente a ciência pode contribuir para uma reversão neste cenário. Alguns passos estão sendo dados, mas quase sempre de modo tímido e sem a coragem de enfrentar o sistema de dependência existente, deixando claro o que se pretende. A fixação biológica de nitrogênio e o controle biológico das pragas da cana-de-açúcar são absolutamente fantásticos e devem ser vistos como bases para uma política nacional. Recentemente, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático – Zarc, desenvolvido pela Embrapa e parceiros, é outro exemplo de criatividade e inteligência aplicada à agropecuária.

Uma terceira abordagem, à luz das mudanças climáticas em curso, é um investimento planejado, sistemático e consistente em genômica de espécies da caatinga visando a identificação, caracterização, catalogação, e uso de genes responsáveis pela tolerância a estresses hídricos e temperaturas elevadas. A tendência mundial pela aridização de grandes áreas é uma realidade e, a cada momento, genótipos mais adaptados das espécies em cultivo ou em domesticação serão demandados. Essa informação genética, traduzida em bioeconomia, é uma fonte de riqueza sem precedentes para o país.

A UFRPE se consolida como uma grande universidade nacional.

Pernambuco ganha com a presença da 77ª. Reunião Anual da SBPC, mas de modo específico, a Universidade Federal Rural de Pernambuco tem a chance de se destacar como instituição anfitriã e demonstrar para o país seu crescimento e maturidade no ambiente acadêmico e científico. Destaque-se o esforço de várias gestões em ampliar as ações de uma universidade inicialmente agrária e metropolitana que abraçou as ciências humanas, as engenharias e a computação, além da presença geográfica de seus campi em Recife, Cabo do Santo Agostinho, Belo Jardim e Serra Talhada e suas bases experimentais em todo o estado. Desta feita, é salutar parabenizar o esforço da atual dirigente, a Reitora Maria José de Sena, e o corpo de gestores da entidade. Que outros eventos deste porte possam vir ao estado e que a UFRPE sempre se faça presente.

Por último, é relevante prestar uma homenagem durante este evento a duas pesquisadoras que têm enaltecido a ciência brasileira, a Dra. Tânia Bacelar, na área da economia e planejamento regional, e a Dra. Mariângela Hungria, da Embrapa Soja, agraciada por seus relevantes trabalhos em microbiologia do solo com o World Food Prize 2025.

 

Professor titular da UFRPE-UAST.