
O papel da SUDENE no desenvolvimento regional no século XXI
O Nordeste atual
Postado em 24/07/2025 12:04

Os avanços ocorridos na região Nordeste nas últimas décadas são perceptíveis a olho nu, entretanto, ainda há um descompasso formidável entre o Nordeste Oriental, litorâneo e onde se localizam as capitais dos estados, à exceção de Teresina, e o Nordeste Ocidente, constituído do Semiárido e do Cerrado.
Há dois grupos distintos entre as capitais. Aquelas consideradas como o eixo tradicional constituído por Salvador, Recife e Fortaleza e as demais cidades que até quatro décadas eram cidades de porte médio sem maior influência no diagrama político regional e muito menos no nacional. No primeiro grupo, a partir dos anos setenta do século passado, houve um descolamento da região metropolitana de Salvador a partir de investimentos maciços no Complexo Camaçari, passando abruptamente de um passado modorrento e preso ao passado para uma região dinâmica com taxas de crescimento acelerado de demografia, infraestrutura urbana, turismo e serviços. A segunda região metropolitana a reagir foi Fortaleza, que desde o primeiro mandato do Governador Tasso Jereissati desencadeou um processo de modernização, tornando-se um dos polos turísticos mais cobiçados e uma região metropolitana que cresceu além do esperado. Fortaleza ultrapassou Recife em população e atração de investimentos, um feito quase inconcebível para uma cidade localizada em uma região que não contava até então com um polo industrial ou, como é o caso de Pernambuco, uma agroindústria tradicional como a da cana-de-açúcar.
A reação pernambucana depois de três décadas de paralisia se deu a partir da virada do século com a decisão da instalação em Pernambuco da Reginaria Abreu e Lima e com ela dezenas de indústrias de médio e grande porte de setores tradicionais e novos como a metal mecânica, a indústria de biocombustíveis, a logística, considerando um grande estaleiro; as indústrias de energia renovável diretamente ligadas ao setor eólico e com isto, a demanda por habitações, saúde, escolas, creches, segurança e tudo que demanda um agrupamento urbano em rápido processo de crescimento. Um outro fator de impacto foi a decisão do grupo Stellantis de se instalar em Goiana, com um rebatimento forte sobre João Pessoa, uma vez que parte da mão de obra qualificada desta empresa automobilística prefere morar e viver em João Pessoa, capital da Paraíba.
Sinais de avanços consistentes.
Em relação ao segundo grupo de capitais, constituído por Aracaju, Maceió, Natal, Teresina e São Luiz, é de se destacar as mudanças ocorridas nas capitais de Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, que em pouco tempo deixaram de ser polos urbanos com trezentos a quatrocentos mil habitantes para metrópoles com população próxima de um milhão de pessoas. Não é à toa que João Pessoa, no momento, se constituiu em uma das cidades mais atrativas para se viver no país.
Aracaju, São Luís e Teresina têm características próprias. Enquanto a primeira começa a tomar corpo como um centro turístico, as capitais do Maranhão e do Piauí desfrutaram de um mecanismo de crescimento puxado pela mineração no primeiro caso e pelo agronegócio, no segundo, que trouxe mudanças relevantes no perfil dessas cidades.
O Semiárido e o Cerrado.
A força motriz que sustenta o desenvolvimento do interior nordestino é representada por alguns vetores distintos. O primeiro é o agronegócio. A mudança foi iniciada no Oeste da Bahia e expandida para o Sul do Maranhão e Sul do Piauí, mudando definitivamente a face urbanística e o modo de vida dessas cidades. Destaca-se ainda como parte deste movimento o desenvolvimento das áreas de fruticultura irrigada no Submédio São Francisco, o que diretamente tornou Petrolina/Juazeiro em um dos conglomerados urbanos mais dinâmicos no Brasil.
Observando-se o mapa da região, há de se perceber que o cerrado e as áreas ribeirinhas dos Rios São Francisco e Parnaíba representam um espaço relativamente pequeno de todo o Semiárido. A pergunta que se faz é: como esses municípios reagiram? Primeiro há de se considerar que três eixos têm definido o desenvolvimento do Sertão profundo: as atividades comerciais, de saúde e de educação. Algumas cidades se consolidaram como polos de desenvolvimento, que aceleram independentemente do que estaria ocorrendo no litoral ou no cerrado e criaram uma dinâmica própria nem sempre levada em consideração pelo planejamento formal.
Desafios que se superam.
Com este esforço considerado titânico, as taxas de crescimento da região mostraram-se pouco superiores à média nacional. Entretanto, é importante que se deixe claro que, ao se considerar com o restante do país, o Nordeste continua como sendo a região mais dependente de recursos públicos, seja no formato de auxílio às famílias carentes ou em infraestrutura básica.
Encaram-se de forma nítida uma realidade diferente daquela que suscitou a criação da Sudene e o relevante trabalho de pensadores como Celso Furtado e políticos da envergadura de Juscelino Kubitschek e é neste contexto que durante a 77ª. Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, ocorrida em Recife na semana passada, em que uma mesa redonda foi destaque ao tratar do planejamento regional e o que se espera de uma Agência como a Sudene.
O debate coordenado pelo Professor Romilson Cabral, do Departamento de Economia da UFRPE, contando com o Superintendente da Sudene, Danilo Cabral, permitiu avaliar o papel estratégico que uma instituição que cuide do planejamento regional pode ainda ter em pleno século XXI. De certo modo, é comum a percepção do processo de negação ao planejamento adotado pelo Brasil, mas que se faz necessário contar com um ente que pense a região e auxilie no diálogo entre as partes, isto é, entre os governantes dos nove estados da região, somando-se Minas Gerais e o Espírito Santo.
Os desafios e os riscos persistem.
Convencer os governadores dos estados da região Nordeste sobre a importância de uma entidade que pense e planeje a região não tem sido uma tarefa fácil para a diretoria da Sudene, mas fica claro entre os formuladores de políticas que ainda há muito o que ser feito e, não havendo este centro catalisador, a discussão sobre a região tende a ser considerada um detalhe e não uma meta estratégica. Redesenhar este papel quando seus espaços foram vorazmente ocupados não é fácil, mas deve ser objeto de uma ação que congregue os interesses dos atores privados e públicos.