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Pernambuco, 19 de janeiro de 2026

Agronegócios

Semiárido, cooperativismo e internacionalização

Os semiáridos do mundo

Postado em 31/07/2025 16:00

Colunista

O termo semiárido normalmente se associa à escassez hídrica, secas, pobreza e agricultura de subsistência. Durante séculos, a situação foi esta e não é à toa que, na maioria dos países em que a área semiárida é prevalente, são múltiplos os relatos de fome, desespero, miséria, migração. No Brasil, dentre os vários livros que relatam esta situação, podemos citar: os Sertões, de Euclides da Cunha; o Quinze, de Raquel de Queiroz; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Leitura obrigatória a todos que pretendem saber um pouco sobre os agrestes e os sertões do Nordeste.

A literatura é farta em outros países, tal qual a Índia, China, México e Estados Unidos, para não se deter a um continente específico que é a nossa África. Dentre as ações que mudaram a percepção sobre as zonas áridas, destaca-se a Lei Morrill, em homenagem ao congressista americano Justin S. Morrill, também conhecida como Lei de Concessão de Terras às Universidades, sancionada pelo presidente Abraham Lincoln em 1862. Despertando de forma inequívoca o valor das engenharias e ciências agrárias para o desenvolvimento do oeste dos Estados Unidos.

Outros países seguiram a iniciativa e investiram fortemente na implementação de universidades, institutos de tecnologia e de pesquisa e programas de apoio à irrigação nas áreas semiáridas.

Uma forte base tecnológica

No caso brasileiro, a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária foi um marco e, com ela, a instalação logo a seguir de instituições como a Embrapa Semiárido, em Petrolina, a Embrapa Caprinos e Ovinos, em Sobral; a Embrapa Meio Norte, em Teresina; a Embrapa Fruticultura Tropical, em Cruz das Almas; e a Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza, todos esses centros avançados de tecnologia com mandatos voltados ao desenvolvimento do Semiárido. Importante notar que a primeira escola de Agronomia do Brasil foi fundada na Bahia, no município de São Bento das Lajes, em 1875, e o estado de Pernambuco já contava com o IPA – Instituto Agronômico de Pernambuco, com várias estações experimentais no agreste e no sertão desde 1935.

Em se tratando de outros países, além dos Estados Unidos, destaca-se o aparato de inovação existente na Índia, sob a liderança do Conselho Índia de Ciências Agrícolas – ICAR, contando com um pouco mais de cem institutos e unidades, e a China, que além de sua Academia Chinesa de Ciências Agrárias – CAAS, conta ainda com uma Academia Chinesa de Ciências para o Semiárido. Não há como deixar de mencionar o que tem sido feito em países como a África do Sul, México, Paquistão, Zimbábue, Quênia, Egito e vários outros. O que não deixa de ser um alento ao se avaliar o que foi obtido de avanço científico e econômico nas últimas cinco décadas. Não é em vão que a pecuária brasileira se alicerça nos recursos genéticos da Índia, o gado, e da África, a pastagem de capins.

O papel do cooperativismo

Durante esta semana se realiza em Juazeiro, BA, o International Coop Semi-arid – ICS 2025, um evento liderado pelas representações de Pernambuco e da Bahia da Organização das Cooperativas do Brasil – OCB que visa demonstrar a importância do cooperativismo para o desenvolvimento regional, tendo como principais eixos a educação, os efeitos das mudanças climáticas globais e o desenvolvimento tecnológico.

Trata-se de uma iniciativa ousada em várias interfaces, a primeira é a de colocar o sistema de cooperativas e empresarial na liderança de uma discussão tão relevante; o segundo é de puxar para a discussão a importância da internacionalização do que é de problemas e soluções para o Semiárido e o terceiro é o de deixar bem claro que não havendo mitigação dos efeitos provocados pelo sistema de desenvolvimento que se optou, todos pagarão uma fatura elevada pelo que já se testemunha em vários continentes.

Neste aspecto, vale a pena reconhecer o papel de, entre vários outros líderes, o de Malaquias Anselmo, líder do Sistema Cooperativista no estado de Pernambuco. Conforme suas palavras, esta foi uma discussão iniciada em um restaurante em Lisboa quando vários dirigentes do cooperativismo abraçaram a causa e resolveram promover o primeiro ICS. Do evento relevante em todos os aspectos, pretende-se sair com um documento, intitulado de manifesto, de modo a contribuir para uma discussão nacional e que se possa chegar à COP 30, o evento mundial de mudanças climáticas que está sendo realizado em Belém, no Pará, em outubro de 2025.

Os estados da Bahia e Pernambuco se irmanaram neste propósito e não é à toa que o local escolhido foi a Universidade Federal do São Francisco, em Juazeiro, BA. Parabéns a todos e à empresa Wex, responsável pela organização com a decisiva participação da Embrapa Semiárido e vários patrocinadores.

A inserção dos jovens

E o que os jovens podem esperar desse encontro? O mais importante é a chama que se acende quanto ao aproveitamento de milhares de ex-alunos de cursos superiores e técnicos que estão se dirigindo ao mercado todos os anos desde o programa de expansão do sistema de ensino posto em prática a partir de 2005. Com as dezenas de campi instalados no Semiárido, acabou-se a desculpa de que o desenvolvimento do Semiárido não se dava por não contar com pessoas qualificadas. Hoje o Semiárido conta com uma juventude preparada e uma massa de inteligência louvável. Aproveitar os egressos em atividades que levem à prosperidade da região é uma condição sine qua non e ver o sistema cooperativo está aberto a se engajar neste propósito é um ativo de alto valor. Sai ganhando a região Semiárida e seus habitantes e, havendo uma condução eficiente sobre este esforço inicial, ganharão todos que constituem os Semiáridos do planeta Terra.

  1. Professor titular da UFRPE-UAST