


Reposicionamento estratégico do Semiárido
Quase sempre o mais do mesmo.
Postado em 28/08/2025 18:45

Predominantemente, as discussões em torno do semiárido nordestino giram em torno das secas, do clima quente, da baixa aptidão agrícola para a maioria das culturas e dos elevados níveis de analfabetismo, pobreza e baixo IDH. Na realidade, este tipo de leitura não é apenas relacionado ao Nordeste seco, mas contaminou a discussão em estados que aparentemente não poderiam estar envolvidos com este tipo de argumento, a exemplo do Maranhão.
Me faz lembrar de uma visita de trabalho a São Luís há alguns anos, em conversa com um secretário de governo e sua equipe. Provavelmente, a frase mais pronunciada pelo grupo se referia ao baixo IDH registrado para a maioria dos municípios e para o estado em especial. A situação se tornou tão desconfortável que, em algum momento, argumentei que, em um estado com tamanho potencial, sem secas, rios abundantes, solos agricultáveis, um litoral invejável, uma capital linda, o que talvez devêssemos estar atentos era a um outro indicador, um índice que aferisse a taxa de prosperidade das nações e regiões e não um que, apesar de ser o índice de desenvolvimento humano, o que de fato representa é um índice de miserabilidade, na maioria dos casos.
O semiárido nordestino localizado nos outros oito estados padeceu desta maldição e, apesar de exceções louváveis a exemplo da agricultura irrigada no submédio São Francisco, da agricultura industrial estabelecida no Oeste da região representado por áreas da Bahia, Maranhão e Piauí; da avicultura na região agreste, pouco mais se tinha a comemorar, uma vez que mesmo a secular indústria sucroenergética baseada no cultivo e processamento da cana-de-açúcar nunca foi um grande exemplo para se medir bem-estar e desenvolvimento social nos municípios cuja principal atividade econômica é a cana-de-açúcar.
As mudanças em curso.
Para esta área de um milhão e cem mil quilômetros quadrados, há de se considerar dois momentos que representam pontos de viragem nesta aula de química humana e social. O primeiro dele se deu com a democratização da eletrificação rural, chegando à porta de cada família que mora nos distritos e rincões do mundo rural. O programa Luz para Todos, instituído pelo governador de Pernambuco, Miguel Arraes, em seu segundo mandato entre 1987 e 1990, teve um impacto tão marcante que foi adotado integralmente pelo presidente Lula em seu primeiro mandato, entre 2002 e 2005, quando a energia passou a fazer parte do direito dos que habitam o campo também ter acesso à televisão, ao alimento conservado, à água gelada, à forrageira e à iluminação saudável que aposentou o candeeiro e sua fuligem.
Uma política que não deixou de ser criticada por alguns, alegando que um mundo em que o moderno seria o computador, como se perdia tempo e dinheiro levando uma eletrificação monofásica aos miseráveis do interior nordestino e de outras regiões quando o programa nacionalizou-se. O fato é que, sem que a energia elétrica houvesse chegado a todos, nenhum outro avanço seria obtido, incluindo a universalização da internet e, posteriormente, a presença da inteligência artificial ao alcance de todos.
Vinte anos após esta iniciativa, isto é, no início do século e mais exatamente em 2005, o programa de expansão do ensino público de ensino médio e superior para os municípios do interior do Brasil, em Pernambuco, foi instalado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, a UFRPE, o primeiro campus universitário do PROUNI, em Garanhuns, hoje Universidade Federal do Agreste de Pernambuco. A seguir, o que se viu foram dezenas de campi do Instituto Federal de Pernambuco e do Instituto Federal do Sertão sendo colocados a funcionar e vários outros campi da UFRPE, UFPE e da UPE, tendo como última conquista a instalação de três novos institutos federais, dois no Sertão, Águas Belas e Araripina, e um campi da UFPE em Sertânia.
Não se pode deixar de considerar a importância estratégica de tantas outras políticas públicas que têm mudado a face do interior brasileiro, a exemplo do PRONAF – Programa Nacional de Agricultura Familiar, do Bolsa Família, do Saúde para Todos, mas como elemento transformador de uma realidade, a energia e o conhecimento ultrapassam qualquer outro como vetor estratégico de mudança e prosperidade.
As instituições começam a notar a diferença.
Neste momento, se testemunha a tomada de responsabilidade pelo Conselho Regional de Engenharia, Agronomia e Geociências – CREA-PE, através de seu Comitê Técnico Permanente – CTP, em programar para o dia 04 de setembro de 2025, no município de Serra Talhada, um seminário denominado Desenvolvimento do Semiárido Pernambucano: áreas estratégicas. O evento abordará quatro eixos temáticos: 1. Logística, quando trata do impacto econômico que resultará da duplicação da rodovia BR 232 e uma eventual conclusão da ferrovia Transnordestina, fazendo com que os trilhos se estendam de Suape a Eliseu Martins, no Piauí, atravessando Pernambuco em sua extensão Leste-Oeste; 2. Energias renováveis, tratando dos avanços ocorridos com a instalação de parques eólicos e energia fotovoltaica, avaliando o que tem tido de positivo e os riscos que ainda persistem; 3. O aproveitamento do semiárido do estado tendo como base o uso eficiente da água em perímetros irrigados de pequeno e médio porte e a exploração de uma região fronteiriça com os estados do Piauí e do Ceará, a Chapada do Araripe e; 4. A presença das escolas de Engenharia, Agronomia e Geociências no Semiárido expressa de modo nítido a mudança que ocorreu na disponibilidade de um corpo técnico qualificado, autóctone, capaz de enfrentar qualquer desafio que o desenvolvimento regional requeira nas próximas décadas.