


Uma aposta na pequena e microirrigação
O São Francisco consolidado.
Postado em 04/09/2025 10:45

Em vários momentos foi comentado o sucesso da opção pela fruticultura irrigada no Submédio São Francisco em Pernambuco e na Bahia. No caso pernambucano, entre os municípios de Petrolina e Jatobá, estima-se que se deve contar com cinquenta mil hectares irrigados. Uma irrigação que varia dos mais sofisticados sistemas de fertirrigação nas culturas da uva e da manga até a irrigação por sulco ou inundação nas situações mais rústicas. No caso da agricultura empresarial, a cultura da uva de mesa pode ser considerada como a principal fonte de negócios e de renda, seguindo-se do cultivo da manga, que tem um papel destacado no suprimento dessas duas culturas no Brasil e em vários países do exterior.
Em se tratando de mercado, muito embora um sinônimo de sucesso, não deixa de enfrentar as ameaças, a exemplo do tarifaço trumpiano. O mercado internacional é importante, porém não deixa de ser importante chamar a atenção que, de fato, o mercado interno é aquele que sustentou a expansão da agricultura irrigada mesmo nos momentos difíceis da pandemia Covid-19. Aos poucos, se vê que o negócio voltará ao normal e não será necessário deixar a cultura apodrecer no campo, o que cogitaram algumas lideranças. Primeiro, porque é uma medida extrema e pueril do ponto de vista técnico, e segundo, pelo fato de liquidar com o mercado europeu, uma vez que nenhum país receberá frutas de uma região infestada por mosca das frutas e outros insetos. O fato é que, com idas e vindas, não é à toa que mais de noventa por cento das exportações dessas duas espécies saem dos pomares de Pernambuco e da Bahia.
Há águas além do grande rio?
A outra região em que a agricultura irrigada se consolidou foi o vale do Moxotó. Apesar de a região ser denominada em homenagem ao rio, a água que alimenta as áreas de melão e melancia é proveniente do aquífero que, nos últimos vinte anos, tem suprido o sistema, mas que começa a dar sinais de exaustão em alguns pontos, com as bombas descendo vários metros a cada estação de cultivo. Algo esperado, uma vez que a região não conta com precipitação suficiente para a recarga do que se extrai dos poços. Os órgãos de gestão começam a se preocupar, dificultando a licença para instalação de novos empreendimentos, entretanto não se vê quais as medidas efetivas estão sendo tomadas em termos de corrigir o que se encontra em curso.
A microirrigação, os pequenos e médios projetos.
Além dessas duas regiões, o estado conta com um aquífero no semiárido que se estende de Flores, passando por Betânia, Serra Talhada, Floresta, Carnaubeira da Penha, Mirandiba e São José do Belmonte, ainda muito pouco explorado. Na realidade, a área irrigável de São José do Belmonte tem se transformado em um mar de painéis solares. Havendo, entretanto, uma área de goiaba e um pouco de caju irrigado no município de Mirandiba. Registra-se aqui um pomar atípico nesse município, ao lado da BR 232, a plantação de pitaia de D. Mariquinha. Um empreendimento instalado com esmero e exemplo de busca por outras alternativas.
Mas o uso da água não se extingue nessa reserva. Pode-se usar de modo mais eficiente as águas de poços menos salinos encontrados no cristalino, o aproveitamento das águas pluviais, os poços nos leitos de rios e riachos temporários e os pequenos e médios açudes. Neste sentido, o que se propõe é o fomento de microáreas, até dois hectares, a serem irrigadas por gotejamento, contando-se com as tecnologias atuais em termos de acompanhamento da umidade, da fertilidade e da salinidade da água pelo uso de sensores ligados às redes neurais de inteligência artificial.
Quando e como se pode utilizar a água, há um zoneamento pedológico avançado realizado pela Embrapa Solos, UEP Recife, mencionado durante o debate sobre a expansão da agricultura pernambucana pelo pesquisador José Coelho. Em outras palavras, há instrumentos precisos para mapear as áreas passíveis de investimento em um programa plural, contemplando centenas ou milhares de pequenos e médios imóveis.
A fronteira noroeste.
Neste mesmo evento, o Engenheiro Agrônomo Aloísio Sotero, consultor em agronegócio e financiamento de novos empreendimentos, fez menção à área do cerrado que constitui a Chapada do Araripe e seu potencial produtivo ofuscado. A cobertura vegetal existente na região, conhecida como Carrasco, não passa de uma vegetação típica das melhores áreas de cerrado, tendo como indicador a ocorrência do pequi, uma especiaria da culinária do centro-oeste brasileiro que pode ser encontrada na Serra do Araripe e nas feiras livres da região. Há os que defendem a preservação integral da chapada, embora exista a Floresta Nacional do Araripe-Apodi, abrangendo os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, contando com trinta e oito mil hectares, criada em 1946. Um exemplo pioneiro de boas práticas ambientais. Quanto ao restante da chapada, há de se considerar que o que deve ser posto em prática é a legislação ambiental em vigor, de modo que as áreas de reserva legal, independentemente do tamanho do imóvel, sejam mantidas.

Aloisio Sotero
Nesta região, não se considera o uso da água subterrânea como alternativa à irrigação, afinal, são as águas percoladas do platô que abastecem os municípios do Cariri cearense. Em se bombeando esta água que se desloca lentamente em um solo permeável, resulta na extinção dos mananciais e na aridez de municípios de Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Jardim, Missão Velha, Caririaçu, Farias Brito, Nova Olinda e Santana do Cariri. Uma alternativa absolutamente fora de cogitação.
Em se tratando de Araripe, é sempre importante chamar a atenção para o fato de que do lado pernambucano estão localizadas as mais importantes jazidas de gipsita e de calcário, dois componentes essenciais à agricultura brasileira que não têm sido aproveitados na correção dos solos ácidos da Chapada, algo de difícil entendimento. O fato é que há como se expandir as áreas irrigadas em Pernambuco e nos demais estados do Nordeste, bem como usar de forma sustentável regiões capazes de suportar uma agricultura de sequeiro.