
Agronegócio em crise?
Produção crescente
Postado em 23/10/2025 18:35

Para quem está acostumado a ver os programas de televisão enaltecendo os ganhos e o sucesso da agricultura brasileira, não imagina que, por trás deste cenário, há questões históricas a serem resolvidas. A pergunta que se faz é como um país que consistentemente tem apresentado safras abundantes, exportado produtos que não demonstram recessão, conquistado novos mercados, inclusive contando com o presente do governo americano em hostilizando a China, perder seu mercado de grãos e parte deles ter caído no colo do Brasil e contar com o apoio expressivo de crédito por parte dos bancos oficiais por meio dos planos de safras, considera-se em crise.
A situação chegou a tal ponto que a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, veio a público se dizendo surpresa com a inadimplência do setor, que impactou negativamente o lucro do banco no segundo semestre de 2024, informando que, ao redor de vinte mil grandes clientes, em todo o país, representavam o percentual maior desta dívida. Chamou a atenção para uma verdadeira onda de recuperações judiciais duvidosas acionadas e de um cartel de escritórios de advocacia especializados nesta prática.
Aumento da inadimplência e avalanche de recuperação judicial.
Para quem acompanha o setor, não houve surpresa. Afinal, não é à toa que as principais lideranças e a bancada ruralista no Congresso têm adotado sistematicamente apoio a governos de conservadores, em particular pelo fato de terem sido condescendentes com as dívidas, evitar cobranças judiciais, investir em infindáveis negociações não cumpridas e até perdão de dívidas. Havendo situações recentes em que, em alguns estados da federação, a totalidade dos contratos de crédito com os bancos públicos acionou o seguro rural, mesmo quando os números demonstram que as safras de grãos entre 2021 e 2025 foram de 271 para 350 milhões de toneladas de grãos, o que coloca por terra o argumento de alguns no sentido de implicar a inadimplência a desastres naturais sucessivos. O que não deixou de ocorrer em casos isolados e delimitados geograficamente, como as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul ou a seca em parte do cerrado em 2023, mas o fato é que estes fenômenos não abateram a aceleração do crescimento da agricultura nacional.
Planos safras maiores a cada ano.
Um outro aspecto a ser considerado tem sido o pouco avanço das operações de crédito nos últimos meses, o que remete às precauções anunciadas pelo Banco do Brasil, principal credor do agronegócio nacional, deixando claro que valorizaria garantias reais, credores que cumpriam com as operações de renegociação passadas e que seria rigoroso com empresas promotoras e clientes participantes da farra de recuperação judicial fraudulentas.
Embora haja que se destacar que os valores disponibilizados para o crédito nos planos safras no período mencionado variaram de 251 bilhões de reais em 2021 para 605 bilhões para a safra 2025/26, sendo 516 bilhões de reais para a agricultura de escala e 89 bilhões para a agricultura familiar.
Paralelamente ao crédito, é importante destacar os investimentos em infraestrutura rodoviária, portuária, ferroviária e nos aeroportos brasileiros, destacando-se a Ferrovia Bioceânica, que liga os portos de Ilhéus, na Bahia, ao porto de Chancay, no Peru, com aproximadamente quatro mil quilômetros, e a Rota Bioceânica, uma rodovia que corta a América do Sul entre São Paulo e Antofagasta, no Chile, passando pelo Paraguai e Argentina, totalizando 2.396 quilômetros de extensão. Adicionalmente, em se tratando de apoio à tecnologia agrícola, não se pode negligenciar o concurso ocorrido para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em 2025, visando à contratação de 1.050 pesquisadores e analistas que chegam à casa a partir do mês de outubro deste ano. Ressaltando que a última seleção para esta empresa se deu em 2009, quando 1.121 colaboradores foram contratados.
Reclamação de segmentos do setor.
A questão que se coloca é se as reclamações postas em blogs e veículos controlados pelo setor são sérias, peças de uma arquitetura antiempresarial ou oportunismo político? O fato é que, com um ambiente virtuoso de maior demanda externa por alimentos e matérias-primas agrícolas, o discurso catastrofista perde espaço e os segmentos menos comprometidos com a agenda ultraconservadora passam a ser ouvidos e ter maior representatividade no setor, o que significa que a tendência é que o atual status de algumas entidades representativas seja objeto de contestação e mudanças pelo fato de o discurso radical ser contraditório e deslocado da realidade. Aquela velha desculpa de violência desenfreada no campo, insegurança jurídica, falta de apoio não passa de um discurso ideológico desmentido de forma brutal pela forma aterrorizante que os agricultores americanos vêm à competição com o Brasil.
Renegociações, novos créditos e demanda judicial.
Considerando-se a importância estratégica da agricultura e pecuária brasileira, seja em qualquer formato; grande ou pequena, mecanizada ou não, empresarial ou familiar, é acertada a posição do governo em orientar os bancos oficiais no sentido de estabelecerem padrões de renegociação de dívidas daqueles que foram de fato afetados por desastres naturais ou que, por alguma razão de mercado, o que não é o caso no momento, tenham sofrido revezes em assegurar a saúde de seus empreendimentos. Já para os que insistem em acreditar que o Banco do Brasil não leva a sério as dívidas e não tem coragem de recorrer à justiça pelos recebíveis, desculpem, sejam racionais e, como agentes de mercado e de um sistema econômico capitalista, vejam que honrar o crédito é um dos pilares fundamentais da fé em uma economia de mercado. O problema é que, para muitos, ao se falar de crédito, as regras devem valer para seus fornecedores e colaboradores, mas que nunca sejam aplicadas a eles próprios.
1Professor titular da UFRPE-UAST, em Serra Talhada, PE