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Pernambuco, 10 de abril de 2026

Agronegócios

Inovação agrícola, uma abordagem diferente

Um estado de pequenos e médios imóveis

Postado em 20/11/2025 18:20

Colunista

 

O estado do Espírito Santo tem, tal qual Pernambuco, o formato de um retângulo irregular, mas com o comprimento maior na linha de norte a sul, que vai do estado da Bahia ao estado do Rio de Janeiro, e o menor de leste a oeste, do oceano Atlântico ao estado de Minas Gerais. Conta com uma área de 46 mil quilômetros quadrados, um pouco menos da metade de Pernambuco, e 108 mil imóveis rurais.

Durante séculos foi considerado como uma faixa de proteção contra o desvio e o contrabando da riqueza gerada em Minas Gerais, principalmente o ouro e o café, e, consequentemente, impedido de crescer, apesar de Vitória, sua capital, ter sido fundada em 1550, quinze anos após Olinda. Este isolamento levou o Espírito Santo a se manter quase oculto por séculos, até quando, depois de um longo tempo, foi permitido que a cultura do café se expandisse para as terras capixabas.

O desenvolvimento tardio trouxe a grande vantagem de evitar o enlace com o passado e permitiu que tomasse em suas mãos o que fazer de sua agropecuária, seus recursos minerais, seus portos, suas regiões litorâneas, suas serras, sua cultura enriquecida por imigrantes portugueses, italianos, pomeranos e até com sua cultura típica, diversa e rica.

Aproximadamente 75 mil imóveis cultivam café, um terço com café arábica e dois terços com café canephora, ou conilon, tornando-o o maior produtor desta bebida no Brasil. Ao longo dos últimos vinte anos, o estado trabalhou de modo sistemático e persistente a valorização do café conilon, tornando-o uma bebida. Era tão somente um irmão bastardo do café arábica, lembrado apenas quando se falava em blends e de sua importância na formulação de cafés solúveis.

Seu café arábica se via à sombra da história da cafeicultura mineira; era apenas mais um produto no mercado de commodities. Surpreendentemente para alguns, o café conilon tornou-se um produto de alto valor agregado e o café arábica um produto nobre. Uma política bem conduzida procurou elevar a qualidade do café em busca do mercado gourmet e especial, incentivando cooperativas, pequenos e médios torrefadores e levando o café do Espírito Santo a ser considerado um caso de sucesso no Brasil e no exterior.

A opção pelas principais cadeias produtivas

Além do café, outras cadeias produtivas foram eleitas como ´showcase`. Destacando-se o mamão, a pimenta-do-reino, a avicultura de postura, o abacaxi e a pecuária leiteira. Direcionou-se a energia de suas instituições de pesquisa e inovação, a começar pelo Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural – INCAPER seguindo-se de seus centros universitários, e entidades diretamente ligadas ao desenvolvimento rural, como o SEBRAE, o SENAR, a OCB, as associações de produtores e cooperativas, para seguirem a rota traçada. Neste momento, o estado ostenta o fato de produzir setenta por cento da pimenta-do-reino e trinta e oito por cento do mamão e é o principal exportador desses produtos. O fato é que os produtos gerados pela agropecuária do Espírito Santo alcançam 125 países, conforme depoimento do Secretário de Agricultura Ênio Bergoli em um simpósio realizado hoje pela Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca – SEAG e pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo.

O Inovagro

Resultados começam a aparecer quando da apresentação dos resultados do Inovagro – Pesquisa e Extensão para Inovação da Agricultura e da Pesca, um programa da SEAG e FAPES com números imponentes em qualquer circunstância. Lá em sua página está documentado que apoiou 140 projetos, em 78 municípios, atendendo 3.080 propriedades, investindo-se 42 milhões de reais.

O que marcou a discussão de hoje foi a apresentação dos resultados parciais de sete projetos de extensão rural e transferência de tecnologia dedicados ao café. Um deles específico para o cultivo agroecológico, três para a modernização do cultivo, manejo e processamento do café arábica, dois para o café conilon. Esses cinco, regionalizados e com aporte variando entre 750 mil e 1,1 milhão de reais e, de modo provavelmente inédito no país, um projeto específico valorizando o papel da mulher na cadeia produtiva do café.

A estratégia de ataque massivo a alvos estratégicos é louvável em todos os sentidos, destacando-se o fato de que, desde que haja uma boa gestão e acompanhamento dos projetos, não há como não se esperar casos de sucesso. O melhor índice de julgamento se dá pela vibração com que as equipes técnicas mostram o que foi feito, o alcance das metas, explicam por que algumas ainda não foram atingidas e, melhor do que tudo, deixam claro que no estado o diálogo entre pesquisa e extensão é real. Valendo salientar que, na sua ampla maioria, se destaca a parceria com os professores e pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES e o Instituto Federal do Espírito Santo com seus 26 campi.

Gestão de ciência, tecnologia e inovação não tem um padrão único. Cada estado define o seu e procura fazê-lo da melhor forma. No caso de Pernambuco, há de se reconhecer o papel estratégico da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação – SECTI e da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco – FACEPE, fundada em 1989, no apoio às atividades de fomento e bolsas de estudo com um crescente aporte financeiro nos últimos anos.

Neste instante, o que se comenta é um sistema de gestão do ecossistema agrícola que tem mostrado resultados expressivos e servido como modelo para outros estados brasileiros. Fica a lição de que o suporte às instituições estaduais de pesquisa, desenvolvimento e extensão rural é essencial e cometem um grave equívoco os estados que as têm levado à extinção ou relegado a um papel secundário.

1Professor titular da UFRPE-UAST, em Serra Talhada, PE