
Pernambuco, agricultura e semiárido
As principais cadeias produtivas
Postado em 27/11/2025 19:07

Dando continuidade à coluna da semana passada, o que poderia ser feito em Pernambuco de forma que os recursos físicos, financeiros, humanos e institucionais tivessem um uso mais dirigido e com maior impacto? Primeiramente vamos ver quais as cadeias produtivas que mais se destacam no estado, sabendo que há duas abordagens distintas para a agricultura irrigada e a agricultura de sequeiro.
No primeiro caso temos o submédio São Francisco como região em que a principal atividade econômica é a fruticultura, destacando-se dois produtos como carros-chefes: a uva de mesa e a que se destina à fabricação de vinho, sucos e manga. Outros cultivos, como a banana, o melão, a melancia, o coco e o limão, são importantes, mas uva e manga são quem estabelecem o mercado tecnológico para a região.
Além do São Francisco, há possibilidade de incentivar a irrigação? Em que base? Na ausência de rios perenes, restam os aquíferos, as barragens, os poços e o armazenamento das águas pluviais. Não há dúvida de que há condição plena de se desenvolver projetos distribuídos de leste a oeste, contemplando os cultivos tradicionais, bem como novas opções, como o café, os condimentos e temperos e algumas frutas vermelhas, a exemplo do morango.
No caso da economia dependente de chuvas, destacam-se a pecuária de leite no Agreste Meridional, Sertão do Araripe e Sertão do São Francisco e, com a instalação do frigorífico Masterboi em Canhotinho, no Agreste do estado, a criação de bovino de corte, que vem se expandindo a cada momento. Ainda se tratando de pecuária, há de se contar com a caprino-ovinocultura que, apesar de sua informalidade, começa a ser vista como uma atividade empresarial. Neste aspecto, há de se reconhecer o trabalho que vem sendo realizado no município de Dormentes, que influencia diretamente a caprino-ovinocultura em Petrolina, nas áreas em que a água para irrigação não é acessível, e no contíguo município de Afrânio.
Além dos mamíferos, a avicultura é cadeia produtiva que coloca o estado de Pernambuco entre os principais atores entre os estados da federação. Com ela, obrigatoriamente vêm as principais matérias-primas para a alimentação dos planteis, a soja e o milho. Considerando que a soja não é adaptada na maioria dos solos e climas de Pernambuco, restam a palma forrageira e cereais como o milho e o sorgo forrageiro. Referindo-se ao milho, ao longo de séculos foi visto por seu papel na alimentação humana, mesmo apresentando índices de produtividade e produção distantes da demanda estadual.
Apesar de as indicações serem claras, a contar pela capacidade instalada de espelhos de água, a aquicultura merece estar mais bem posicionada entre as cadeias produtivas de alimento. A criação de tilápia e do camarão de água salobra, exceto na região de Itaparica, é tímida ao se comparar com outros estados do Nordeste. Na realidade, a aquicultura interiorana é uma atividade estratégica não apenas para o governo estadual e municipal, mas de modo expressivo para o governo federal, por meio do Ministério da Pesca. Considerando o dinamismo do setor, há de se convir que tem crescido mesmo sem contar com uma ação mais efetiva das instituições de fomento.
Demandas tecnológicas em uma outra vertente
Deslocando-se ao segundo eixo da matriz produtiva, há as limitações ambientais, destacando-se duas delas. A disponibilidade de água e a qualidade da água disponível no cristalino. Para se abordarem as duas vertentes, há de se contar com um programa de âmbito estadual de fomento à pequena e média irrigação. Não é fácil, uma vez que se trata de uma atividade difusa, distribuída em todos os municípios e explorando diferentes espécies, aplicações e mercados, mas não há como fugir dessa linha de raciocínio.
O terceiro eixo do nosso gráfico em 3D é o fator institucional. Pernambuco conta com entidades que têm se destacado por suas contribuições à agropecuária estadual e nacional, a exemplo do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), da Embrapa Semiárido e da Embrapa Solos, das universidades públicas e privadas, dos Institutos Federais e da iniciativa privada. É bom que se registre que existem quinze instituições ou campi universitários que ofertam o curso de Agronomia em Pernambuco. Neste grupo não se pode abstrair a essencialidade da presença dos bancos públicos, a exemplo do BNB e do Banco do Brasil, bem como da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do estado de Pernambuco, a FACEPE.
Alinhamento estratégico
O cenário que deve prevalecer a partir das condições postas é que, sem que haja a construção de um arranjo institucional que permita o diálogo, evitando sobreposição ou ausência completa da ação de instituições de pesquisa e ensino sobre algumas cadeias produtivas estratégicas, os avanços serão sempre limitados. A conversação entre as partes deve se dar de modo contínuo e permanente. Hoje o que se vê são cadeias produtivas que em muito e em pouco são atendidas em termos de demanda tecnológica, a exemplo da avicultura e até do cultivo do milho, como principal fonte de carboidrato para a população humana e animal.
Em casa com muitos donos, todos reclamam e ninguém tem razão; trata-se de um dito popular sábio. Desta feita, fica claro o papel estratégico de uma Secretaria de Agricultura estadual como protagonista de um movimento que vise dar consistência ao trabalho interinstitucional integrado. Sendo assim e considerando o sucesso, mesmo que limitado, nas unidades da federação que alteraram sua matriz de gestão, ainda há tempo para que Pernambuco construa um modelo que saia do individualismo institucional e passe a uma rede conectada com as reais demandas do segmento do setor produtivo. Neste aspecto, é necessário que se chame a atenção para o fato de que as principais cadeias produtivas de Pernambuco, ao longo do tempo, não têm sido contempladas com a atenção que elas demandam.
1Professor titular da UFRPE-UAST, em Serra Talhada, PE
