
Desafios logísticos, fase 2: implementação
Pernambuco e seus fantasmas
Postado em 11/12/2025 11:51

Há algum tempo, falar em fantasma nos remetia à façanha dos nossos times. Em ciclos consecutivos, Náutico, Santa Cruz e Sport representavam aquilo que de melhor existia na região Nordeste e equipes tão competitivas quanto as melhores do Sudeste e Sul. Considerando-se, com o devido respeito, que o Centro-Oeste e o Norte não tinham, naquele momento, equipes capazes de fazer sombra ao nosso timbu, cobra coral e ao Leão. O que nos resta é uma infindável discussão para saber em que letra do alfabeto nossas equipes se encaixam. Vamos apostar para que logo retornemos à elite.
Voltando à infraestrutura e logística, em se tratando de fantasmas, nos defrontamos com uma situação tão complexa quanto a primeira e toma-se a liberdade de citar quatro grandes desafios: O metrô de Recife, o Arco Metropolitano, a duplicação da BR 232 e o trecho Salgueiro-Suape da Ferrovia Transnordestina.
O metrô de Recife em uma situação de colapso iminente. Desgaste da infraestrutura de trilhos, elétrica, estações. O caos foi quase total, culminando recentemente com a perda, por incêndio, de uma das poucas composições que restavam. Um dano absurdo, atenuado pela destreza e coragem de um maquinista que evitou uma tragédia de dimensões dantescas. O pior de tudo é que o metrô é tratado como um cão sem dono. O governo federal, o estadual e o municipal fazem de conta que não têm nada a ver com o problema quando centenas de milhares de pernambucanos são privados de uma opção que ainda é a que melhor atende aos trabalhadores da região metropolitana. Um caso que já deveria ter sido visto pelas instâncias da justiça responsáveis pelo cumprimento da governabilidade mínima, seja da nação, estados ou municípios. Cito aqui a frase ouvida recentemente do engenheiro Maurício Pina: Recife é a única cidade do país (quiçá do mundo) em que um metrô deixa de operar. Vejam aonde chegaram a Veneza brasileira e o Leão do Norte.
O segundo diz respeito ao Arco Metropolitano que, tal qual se descreve, deveria sair de Goiana até o Porto de Suape. Foi anunciada a assinatura da ordem de serviço do trecho sul, BR232 – Porto de Suape, com aproximadamente 25,5 quilômetros, devendo custar ao redor de 700 milhões de reais, para o dia 12 de dezembro de 2025 pela governadora Raquel Lyra. Uma notícia alvissareira, uma vez que há vinte anos se discute o percurso a ser proposto para a obra. A decisão, entretanto, não deixa de ser um paliativo, uma vez que o meio arco norte, da BR 232 a Goiana, é aquele que constitui o principal problema de logística para os municípios de Goiana, Araçoiaba, Paulista, Abreu e Lima, Olinda, São Lourenço, Paudalho e Moreno. Enquanto a BR 101 estiver passando pelo centro de algumas cidades da região metropolitana Norte, o problema estará minimamente resolvido. Todos sabem disto. Neste caso, não há como reconhecer o esforço do governo atual em desentravar uma obra cuja não conclusão obstrui, bloqueia e compromete o trânsito da região metropolitana como um todo.
Associe-se ao futuro
Saindo do impasse que se impõe sobre as obras estruturais da região metropolitana, que se veja a situação do interior do estado. Neste caso, destacando-se, além do suprimento de água potável para as cidades e distritos, a logística de produtos e pessoas entre o leste e o oeste de Pernambuco. Chamando-se a atenção para duas obras, a BR 232 e a Ferrovia Transnordestina.
O papel do governo estadual na rodovia BR 232
Em se tratando da rodovia, principal eixo de comunicação entre a capital e o extremo do estado, quer ao norte, com os estados do Ceará e o Piauí, quer ao sul, confrontando-se com o Piauí e a Bahia, não há como se questionar sua importância comercial e estratégica. O trecho duplicado até o momento entre Recife e São Caetano, 147 quilômetros, representa ao redor de 20% desse corredor. A governadora Raquel Lyra repete uma atitude tomada pelo governador Jarbas Vasconcelos há vinte e seis anos, quando decidiu duplicar este percurso usando os recursos da privatização da Companhia Elétrica de Pernambuco – CELPE. Foi uma atitude ousada, mas demonstrando uma acuidade estratégica alta, uma vez que, caso não houvesse se decidido por este investimento, não há como se imaginar como estaria a logística entre o interior e a capital.
Pois bem, agora, ao que parece, mesmo sem que haja comprometimento de recursos federais, o governo do estado anuncia que iniciará duplicação entre São Caetano e Serra Talhada, a partir de três trechos. São Caetano a Arcoverde, Arcoverde a Custódia e, por último, de Custódia a Serra Talhada. Será uma grande obra e marcará uma nova etapa para o estado.
O papel de Brasília na Ferrovia Transnordestina
Não menos importante vem a Transnordestina; depois de idas e vindas, espertezas e traições, o governo federal decidiu por colocar a obra entre as prioridades do Novo PAC – Plano de Aceleração do Crescimento do Brasil. As expectativas não são poucas ou pequenas. Algumas cadeias produtivas ganharão musculatura e competitividade, a exemplo da avicultura. Ganhara nos dois lados, o de poder trazer soja e milho do sul do Piauí e do Maranhão, por um lado, e, por outro, de poder o frango, o ovo e derivados direto em Suape. O mercado de móveis, eletrodomésticos e construção civil, idem quanto à interiorização dos produtos a partir do porto, já que, ao que parece, está perdida e não sabe o que da ferrovia esperar, é a cadeia do gesso. Imagina que sua solução estará no transporte do gesso para exportar quando de fato o mercado de gesso de primeira qualidade, como o que se conta no Araripe, associado aos fertilizantes e derivados para a agricultura, encontra-se a Oeste, no Cerrado Brasileiro. Quanto aos entrepostos, poderão ser beneficiados os municípios onde se localizarão, desde que valorizem o mercado atacadista com a infraestrutura e o aporte devido. Caso não, serão apenas pontos de carga e descarga, sem a agregação de valor que esses portos secos podem trazer.
Todos juntos
Um componente fundamental. Não se fala na participação do legislativo federal, hoje dominando uma importante fração do orçamento geral da União, em nenhum dos problemas citados. As emendas são distribuídas essencialmente em microprojetos de cunho eleitoral e financeiro e não se vê uma liderança em uma bancada de 25 deputados federais e três senadores que chamem a si a responsabilidade de mudar a face do estado. Cada um por si e seus interesses.
1Professor titular da UFRPE-UAST, em Serra Talhada, PE
