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Curar às vezes, aliviar frequentemente, consolar sempre

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).

Mas, e quando o tratamento proposto produz uma nova doença? Penso, especialmente, nas pessoas que precisam ser tratadas com transplante de órgãos. É uma terapia de troca – em lugar da morte iminente, cria-se uma doença crônica incurável – por alguns chamada de Síndrome Pós-transplante (SPT).

Quando a arte de curar ocasionalmente cria doenças

A SPT não é um estado físico ou biológico simples. Não é “apenas” o risco de rejeição, as infecções decorrentes da imunossupressão, ou outros efeitos colaterais das medicações. É também um dilema existencial vivenciado pelo paciente e sua família. Envolve aspectos psicológicos específicos que formam um quadro semelhante ao mito grego da espada de Dâmocles – Dionísio lhe cedeu o trono por um dia, mas, sobre sua cabeça pendurou uma espada afiadíssima sustentada por um único fio de crina de cavalo. Aquele dia Dâmocles viveu em constante angústia e incerteza. 

De forma semelhante ao estresse pós-traumático, aquele trono representa a decisão pelo transplante. O fio da crina pode simbolizar a rotina de medicações com horários rígidos e monitoramento constante, os diversos efeitos colaterais, o luto suspenso, ambíguo, pois ainda que vivo, aquele que era antes não existe mais, e algumas vezes a “culpa do sobrevivente” (nos casos de doador falecido). A espada é a iminência de fracasso, rejeição e morte.

O que poderia deixar Dâmocles mais confortável? Se ele tivesse um capacete resistente ao golpe da espada.

A arte de curar precisa cuidar com arte e fé

O cuidado integral da pessoa, o modelo bio-psico-social-espiritual da arte de curar, como um capacete, traz ao paciente transplantado conforto e consolo para viver sua vida nova sem olhar para cima o tempo todo.

A arte e a fé não removerão a espada, mas mudarão o modo como o paciente lida com a realidade. Retirarão o peso esmagador do acaso quando a alegria de viver voltar, e o propósito de vida for ressignificado, com a certeza de que há uma força superior sustentando aquele fio.

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