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Pernambuco, 11 de março de 2026

Agronegócios

Expectativas para 2026, um novo cenário para Pernambuco

Tudo parecia estancado.

Postado em 25/12/2025 17:22

Colunista

Há duas semanas esta crônica versava sobre o estancamento de projetos estratégicos do estado de Pernambuco. Deixando claro uma série de pendências que chegavam ao limite da atitude, do bom senso e dos mecanismos de gestão. São cinco as demandas que saltam aos olhos. Deslocando-se do Sertão ao cais, vejamos: 1. Congestionamento permanente da BR 232 no trecho Arcoverde – São Caetano e conservação deficiente entre Recife e São Caetano; 2. Depreciação de 180 quilômetros de trilhos da ferrovia Transnordestina, instalados há dez anos e em contínuo processo de apodrecimento, se é que trilhos e dormentes apodrecem; 3. Sistemas deficientes de abastecimento de água potável nas cidades de médio porte do Agreste e do Sertão, apesar dos esforços nas últimas décadas; 4. Dificuldade de acesso das cargas provenientes do oeste e do norte do estado ao Porto de Suape devido à não construção do anel viário da região metropolitana e 5. O completo desastre em que se levou o metrô de Recife, levando-o a um estado de comprometimento além do imaginável, testemunhando-se paradas frequentes por diversas razões e chegando-se ao da perda total de uma composição que pegou fogo em pleno horário de operação.

As pendências citadas não são algo novo. Na realidade, todas elas refletem algumas décadas de paralisia administrativa e política do estado. Sem pensar grande, não há estado que se projete e Pernambuco, à exceção do hiato ocorrido na primeira década deste século com a duplicação da BR 232 no trecho Recife-São Caetano, instalação da Refinaria Abreu e Lima no complexo portuário-industrial de Suape e da Fábrica de automóvel Stellantis, em Goiana, voltava ao estado de declínio em investimentos públicos que vinha se arrastando há décadas.

Boas notícias em série

Nas últimas semanas, uma série de anúncios trouxeram esperança de uma retomada sustentável do crescimento do estado. O primeiro diz respeito ao início da construção do segmento sul do Arco Metropolitano, uma alça que liga o Complexo Suape à BR 232 sem a necessidade do uso da BR 101 e do engarrafamento permanente entre Abreu e Lima e o Cabo de Santo Agostinho, o que representará um ganho logístico de ao menos uma hora em cada carreta que trafega em direção ou saindo do porto. O segundo trata da duplicação da BR 232 entre São Caetano e Serra Talhada, um trecho de aproximadamente 270 quilômetros em adição aos 147 quilômetros duplicados pelo governo Jarbas Vasconcelos entre Recife e São Caetano. Valendo esclarecer que estes dois projetos estão sendo patrocinados prioritariamente pelo governo estadual. O terceiro quanto ao reinício das obras da ferrovia Transnordestina entre Salgueiro e o Porto de Suape, apesar das limitações, espera-se que não se protele ‘ad infinitum’ e que logo mais o interior de Pernambuco conte com uma ligação logística sobre trens com o litoral; e o quarto, algo que se arrastava há décadas, o anúncio do investimento de 4 bilhões de reais visando recuperar o metrô de Recife, qualificando-o a uma transferência ao governo estadual ou à privatização. No caso das duas últimas, reconhecendo-se o papel preponderante do governo federal por haver desenterrado dois projetos semimortos.

O papel de entidades da sociedade civil merece destaque no reposicionamento dos investimentos públicos e privados no estado, destacando-se o Conselho Federal de Engenharia, Agronomia e Geociências – CREA-PE por haver priorizado uma agenda de debates e discussões sobre os projetos citados. Merecendo também reconhecimento o papel de entidades empresariais como a Federação das Indústrias do estado de Pernambuco, da Federação do Comércio do estado de PernambucoFecomércio e da Federação de Transportes de Carga do Nordeste – Fetracan.

Quanto ao segmento político-parlamentar, apesar de se contar com demandas isoladas, não se detectou nenhum movimento sistemático das bancadas da Câmara ou do Senado, nem da Assembleia Legislativa do estado de PernambucoAlepe em prol dos projetos em referência, diferente do que se observa em outros estados, destacando-se o Ceará, na região Nordeste.

Trabalhando o futuro

Levando-se em consideração que as obras estão em andamento e não ficarão nos anúncios, há um componente de planejamento e visão estratégica a ser implementado que fará diferença. Destaca-se aí quais são as obras complementares estratégicas para as cadeias produtivas da fruticultura irrigada do São Francisco, da avicultura do Agreste, do comércio em atacado e varejo e do gesso.

Até onde o Porto de Suape poderá voltar a ser uma opção para exportação de frutas que saem de Ibimirim a Petrolina? Dará para recuperar as conexões do Vale com os Portos de Pecém e Salvador?

Quanto à avicultura, seja de corte ou de postura, não há dúvida de que será beneficiária e a eficiência logística a conectará ao mercado exterior, podendo se testemunhar um crescimento forte do setor na próxima década.

Uma cadeia, que de fato é um conglomerado de setores que vão dos combustíveis, materiais de construção, móveis e eletrodomésticos e atacado de alimentos, será beneficiada desde que a gestão da ferrovia traga redução dos custos de transporte e postos de entrega estratégicos no interior do estado. O fato é que há ganhos expressivos à vista.

Há uma cadeia produtiva da qual muito se fala, mas que merecerá um reposicionamento estratégico caso pretenda aproveitar o ganho logístico, que é o gesso. Em primeiro lugar, não se resolvendo o entrave energético, isto é, sem que os produtos provenientes não apresentem valor que justifiquem o uso de outras fontes energéticas na calcinação da gipsita além da lenha ou sem que se dê a devida atenção ao gesso agrícola e seu papel na formulação de fertilizantes, o benefício será limitado. Não haverá compradores para produtos fruto do desmatamento permanente, além da perda de oportunidade de conectar o estado ao cerrado e à principal região produtora de alimentos do país.

Por último, que se veja a força do turismo do interior. O estado conta com riquezas e nichos culturais e religiosos de valor reconhecido, devendo aproveitar-se da duplicação e recuperação das rodovias, somada aos investimentos nos aeroportos do interior, para tornar realidade a região semiárida como objeto de atração de turistas provenientes de outros estados e do exterior. Afinal, quais estados contam com os festejos de São João ou o Carnaval do interior? Quais têm figuras legendárias como Lampião, Luiz Gonzaga, Ascenso Ferreira, Dominguinhos, Moacir Santos, Reginaldo Rossi, Alceu Valença e os inúmeros poetas, músicos e artistas do Pajeú? E o Vale do Catimbau, em Buíque; a Pedra do Reino, em São José do Belmonte; a Chapada do Araripe, de Exu a Araripina. E o Vale do São Francisco ficará restrito a Piranhas, em Alagoas; Canindé, em Sergipe, ou Paulo Afonso, na Bahia.

Desde há muitos anos não se testemunha um Natal em que Pernambuco conta com uma cesta de presentes tão rica. Que não deixem as oportunidades passarem, afinal os estados vizinhos encontram-se em movimento, não haja dúvida disso.

1Professor titular da UFRPE-UAST, em Serra Talhada, PE