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Pernambuco, 07 de maio de 2026

Agronegócios

Negociações: avanços e recuos no front agrícola

Os tratados internacionais do comércio são levados à fogueira

Postado em 07/01/2026 15:13

Colunista

O comércio mundial começou o ano jogado ao caos. O governo americano impôs de forma unilateral sanções comerciais contra a China e anunciou que, em defesa dos interesses nacionais, seria o início de um período que poderá no futuro ser conhecido como o fim dos tratados comerciais e da Organização Mundial do Comércio, um órgão vinculado à Organização das Nações Unidas responsável pelo disciplinamento, articulação e construção de acordos de comércio entre as partes.

No caso da China, a situação gerou uma situação de extremo desconforto para a economia americana; mesmo com as novas tarifas, não poucos produtos chineses ainda eram passíveis de importação devido à incrível diferença entre os preços. Já o contrário, qualquer tarifa que a China impusesse sobre os produtos americanos, particularmente os componentes eletrônicos, veículos e chips, suprimiu o mercado chinês, causando um dano sem limites às suas empresas. Em adição, a cada dia crescia o risco de desabastecimento dos supermercados e lojas americanas que não sobrevivem sem os produtos chineses; essa é a questão fundamental. Com isto, a inflação cresceu, reduziu-se o consumo para a camada mais pobre da população e o risco de as avaliações do governo caírem a cada levantamento.

Para não ficar aí, o governo Trump se voltou contra dois vizinhos e aliados históricos, o Canadá e o México, impondo tarifas de 50% em todos os produtos a serem importados.  Diferentemente da China, em pouco tempo ficou comprovado que grande parte das exportações mexicanas e canadenses para os Estados Unidos vinha de empresas desse país instaladas no estrangeiro. De modo específico, as gigantes automobilísticas Ford e General Motors encaravam a falta de peças e a elevação de seus veículos, com isto, o desemprego e o fechamento de fábricas.

A vez do Brasil

Fugindo do senso comum que rege a relação entre as nações, em julho de 2025, o presidente americano publica uma carta em sua rede social, a Truth Social, em que notificou o presidente brasileiro de que, a partir de agosto, os produtos brasileiros sofreriam uma taxação de 50% ao entrar nos Estados Unidos, alegando que o Brasil mantinha um saldo comercial positivo com os Estados Unidos e que o judiciário brasileiro estaria promovendo uma caça às bruxas ao levar em frente o processo que mostrava o envolvimento do ex-presidente no atentado de golpe ocorrido em 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e que tal processo deveria ser arquivado imediatamente. Ao mesmo tempo, um dos filhos do ex-presidente Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, em parceria com um neto do ex-presidente General Figueiredo, o Paulo Figueiredo anunciavam que os Estados Unidos estariam retaliando o país, concordavam com as tarifas impostas, anunciavam que participaram de reuniões com o governo americano quando tal iniciativa foi tomada e que se colocavam como intermediadores esquecendo que o Brasil conta com um dos corpos diplomáticos mais qualificados no mundo, o Itamaraty.

O governo brasileiro anunciou que não se intromete em questões de justiça e poucos dias após o ex-presidente ser julgado e condenado a vinte e sete anos e três meses por sua participação na tentativa de golpe.

Outro fato interessante nesta guerra comercial é que boa parte dos que fazem o agronegócio brasileiro são fãs ardorosos de Trump, como de Bolsonaro, e agora, perplexos, cobravam do governo brasileiro uma solução para isto que consideravam como justo. Alguns governadores, entre esses, os de São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás, correram aos Estados Unidos tentando forjar acordos específicos e vendo que o relacionamento entre nações não é coisa para amador.

Diálogo entre os dois governos

Em setembro de 2025, na cúpula das Nações Unidas que ocorre anualmente em sua sede, em Nova York, a partir de uma intensa base de negociação entre empresários americanos e brasileiros com o governo americano e do fato de que os Estados Unidos perceberam que as empresas brasileiras literalmente controlam o comércio de carne e derivados, naquele país, iniciou-se um diálogo entre os dois presidentes, resultando na retomada dos padrões de comércio anteriores ao anúncio das tarifas. Importante chamar a atenção para o fato de que os atritos dos Estados Unidos com a China resultaram na redução drástica de compras de commodities agrícolas americanas como a soja, o milho, o algodão e o sorgo, beneficiando de modo direto o agronegócio brasileiro, argentino e paraguaio. Ironicamente, o que nenhum pensador do agronegócio nacional associado às representações produtivas imaginou, esta coluna havia previsto desde abril de 2025 que se registrasse. O interessante é que o país passou por esta prova e as relações entre dois parceiros históricos voltaram a ser normalizadas.

O Brasil sedia COP 30

A Cop 30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, desde seu anúncio foi considerada um evento de caráter extraordinário pela diplomacia e pelo governo brasileiro. Afinal de contas, após o país ter sido literalmente banido dos fóruns internacionais que tratam de questões climáticas, por seu negacionismo e pronta adesão à versão americana sobre as mudanças climáticas globais, que insistem em não concordar com o fato de que a ação humana tem sido determinante e, entre essas, o uso consistente de combustíveis fósseis que levam à crescente liberação de gás carbônico para a atmosfera, voltava a ser um protagonista.

Curiosamente, em um outro governo conservador, o do Presidente Collor de Mello, o país foi hóspede da Rio 92, uma das mais importantes conferências do clima entre todas as 30 conduzidas até o momento. O Brasil conseguiu, em quatro anos do governo anterior, ser alijado de qualquer discussão séria em um tema em que ele se tornou respeitado mundialmente. Mesmo com resultados questionáveis, mas de modo geral positivos, a conferência ocorreu em Belém do Pará, mais uma vez chamando a atenção para o risco em que se encontra o planeta Terra ao continuar sendo exposto aos padrões atuais de desenvolvimento econômico e estilo de vida.

O golpe do Congresso acerta o nariz do agronegócio

Tão logo se encerram as discussões da conferência, o congresso brasileiro liderado pelos partidos de direita, ultradireita e a bancada ruralista, que conta com mais de trezentos deputados e cinquenta senadores, suspende o veto do presidente da República a cinquenta e seis, de um total de sessenta e três artigos de um projeto de lei em tramitação, denominado popularmente como PL da devastação. O congresso e  o agronegócio nacional deixam público para o mundo que não há perseguição à agricultura nacional, mas que ela é predominantemente constituída de quem não tem o menor apreço pelo meio ambiente e não se preocupa em deixar claro que não deve haver limites para o desmatamento, a destruição de nascentes, a ocupação das áreas indígenas e quilombolas.  Literalmente um golpe ao esforço do Brasil em ser considerado como um parceiro sério. Mais interessante ainda é que, havendo qualquer crítica ou sanção aos produtos do agronegócio por algum governo ou corporação, esses parlamentares serão os primeiros a culpar o governo brasileiro pelas retaliações e cobrarem ações imediatas.

A política e o comércio mundial certamente não podem ser considerados como monastérios, mas com certeza não se pode construir uma nação como se estivéssemos reprisando o filme Gangs de Nova York. Não vamos repetir De Gaulle, o Brasil merece respeito.

1Professor titular da UFRPE-UAST, em Serra Talhada, PE