Facebook jornal do sertão Instagram jornal do sertão Whatsapp jornal do sertao

Pernambuco, 13 de abril de 2026

Agronegócios

Cenários para a agricultura brasileira

Cinco décadas de sucesso

Postado em 10/01/2026 10:18

Colunista

Durante séculos a agricultura brasileira se concentrou em poucas opções. Primeiro a cana-de-açúcar, depois o café, com espasmos extrativistas como o pau-brasil e a borracha. Os demais cultivos ficavam na faixa de subsistência, como milho, feijão e mandioca. A partir dos anos setenta do século passado, quando se estabeleceu um plano visando primeiro o autoabastecimento, seguindo-se da exportação dos excedentes, foi que o setor tomou um outro rumo e passou a crescer sistematicamente durante os últimos cinquenta anos.

Vale reconhecer nesta saga o planejamento governamental, a coragem e a disposição dos brasileiros do sul, em particular o gaúcho, o fortalecimento dos cursos de pós-graduação nas áreas agrárias, a criação da Embrapa e as políticas de crédito e, a partir do início deste século, do reconhecimento e fortalecimento da agricultura familiar.

Independentemente das crises políticas e econômicas que atingiram a economia mundial, o crescimento da produção persistiu, ocupou espaços e se tornou um fator estratégico para o bem-estar e para a economia mundial. O fato é que, de um país importador de alimentos, o Brasil ocupa a terceira posição no mercado mundial de commodities agrícolas e é um parceiro indispensável dos países árabes, da China e até dos Estados Unidos que, recentemente, devido à política de tarifas que tentou estabelecer, mostrou quão umbilicalmente ligado ao Brasil era seu mercado de carne e derivados.

Consolidação da agricultura industrial

Os ganhos de produção com a cultura da soja e do milho estão dentro do figurino que delineou o desenvolvimento tecnológico da agricultura mundial. Não é à toa que são as espécies para as quais os mais robustos investimentos de pesquisa têm sido destinados, o maior número de pesquisadores e a maior rede de pesquisa estabelecida a nível mundial. A produtividade do milho não cresceu apenas em Sergipe ou em Goiás, mas os países da Ásia, à África, à Europa, passando por nossos vizinhos do Mercosul, a produtividade tem crescido ano a ano.

A soja não fica atrás, havendo no Brasil ocorrido uma das maiores contribuições ao cultivo desta planta quando, no final dos anos cinquenta, chegou ao Brasil uma jovem imigrante, a Dra. Johanna Dobereiner, cujo talento foi prontamente reconhecido por um dirigente do Departamento de Pesquisa Agropecuária do Ministério da Agricultura, o Dr. Álvaro Barcelos Fagundes, que, no início dos anos trinta, havia feito seu curso de mestrado na Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, em um tema quase desconhecido para a maioria dos cientistas da agricultura, a microbiologia do solo. Recentemente o Brasil assistiu à escolha da pesquisadora Mariângela Hungria, da Embrapa Soja, como recipiente do World Food Prize, um reconhecimento ímpar ao esforço titânico da Dra. Mariângela, que seguiu firme os passos da Dra. Johanna durante sua trajetória profissional.

Ao reconhecer a pedra preciosa que estava à sua frente, Dr. Álvaro incentivou e apoiou a Dra. Johanna no início de uma das conquistas mais importantes da agricultura brasileira e mundial, a fixação biológica de nitrogênio – FBN, seguindo-se do uso de espécies de fungos e bactérias com capacidade de liberar nutrientes bloqueados, reduzir a acidez dos solos, estimular o crescimento das raízes, combater insetos pestes e patologias fúngicas e viróticas, contribuir com a eficiência do uso da água e a exposição a temperaturas elevadas.

A agricultura nacional não demonstra elevação de produtividade apenas no milho e na soja, mas exemplos marcantes de ganhos com as culturas do café, arroz, feijão, mandioca, inhame, batata-doce, uva, melão, melancia, manga, laranja, tomate, pimentão, batata, trigo, entre várias outras, são um exemplo de que a agricultura passou a ser uma atividade de demanda intensiva de tecnologia e de que os ganhos podem ser ainda superiores à medida que o aparato técnico-científico se volte para dezenas de espécies que, no jargão dos recursos genéticos, são consideradas como espécies negligenciadas.

O papel da agricultura familiar

A criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário, no segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, seguida do apoio dispensado ao pequeno e médio produtor nos governos posteriores, destacando-se os Presidentes Lula em seus três mandatos e os da Presidente Dilma Rousseff, tornou a agricultura familiar algo robusto e indispensável à segurança alimentar, geopolítica, econômica e social do país. Têm-se registrado a cada momento avanços animadores na produção de alimentos neste estrato da população rural, mas, com certeza, incrementos mais densos poderão ser alcançados desde que se dê a atenção devida ao setor, em especial um engajamento dos governantes e das lideranças do setor quanto à disponibilidade de tecnologias intensivas no uso da internet e da inteligência artificial no campo, na pequena e média indústria e no mercado de alimentos, seja em pequenas comunidades ou nos supermercados mais sofisticados.

Riscos: crédito, inadimplência, recuperação judicial.

Apesar dos números positivos nos últimos dois anos e, de modo mais evidente no último ano, chamou-se a atenção para um aumento discrepante de falências e demanda por recuperação judicial do setor, o que não condiz com um cenário de preços estáveis, demanda crescente, disponibilidade de crédito, apesar de os juros poderem ser menores, e pleno engajamento da iniciativa privada nacional e estrangeira no desenvolvimento tecnológico do setor. As razões que se seguem a esta tendência nem sempre são suficientemente esclarecedoras. Em uma economia em que o câmbio se encontra sob controle, em que erros estratégicos de concorrentes tornaram os produtos nacionais mais atraentes para contratos de média e longa duração e com a retomada do crescimento interno pós-pandemia, colocar a culpa das falências sobre a elevação dos custos e os juros Selic, que de fato não representam a economia real, não é uma boa opção.

A agricultura, seja ela em qualquer dimensão, é uma atividade econômica e não como se esperar que qualquer que seja o governo seja o provedor de recursos para empresas que tentam tirar proveito de manobras legais e fiscais e abdicam de ver seus ganhos vindos de maior eficiência e do emprego de uma base tecnológica moderna. Não é sensato esperar que um banco com a dimensão do Banco do Brasil, que tem milhares de acionistas além do governo federal, tenha que sacrificar sua eficiência e elevar seu risco para manter clientes que não honram suas dívidas e são costumazes fabricantes de justificativas falsas e cenários catastróficos.

Perspectivas

Apesar dos riscos presentes na atividade, seja na agricultura dependente de chuvas ou na irrigada, em poucos momentos as perspectivas para o agronegócio nacional, inclusive priorizando-se o pequeno e médio produtor, foram tão auspiciosas A retomada dos recursos disponíveis para o aparato de pesquisa, desenvolvimento e inovação, incluindo a reconstituição do aparato de recursos humanos da Embrapa, dos institutos e universidades, é uma forte indicação, bem como a disponibilidade crescente de recursos para o crédito de custeio e investimento, seja para a agricultura familiar ou industrial. Os riscos na esfera internacional persistem, mas nada mais didático do que o nível de inflação causado por opções que vão de encontro aos valores básicos do mercado de alimentos e produtos agroindustriais. Aquilo que se considera como a revolução recente da agricultura nacional demorou, mas chega ao Semiárido e logo mais teremos um segmento econômico ainda mais forte e assegurador do desenvolvimento regional.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST