
As chuvas estão demorando
Chuvas escassas e localizadas.
Postado em 15/01/2026 23:32

A segunda quinzena de janeiro de 2026 testemunha um cenário de seca no Agreste e Sertão. Quase que não ocorreram as trovoadas que antecedem às quadras chuvosas e até o presente os campos permanecem secos e à espera de umidade para serem minimamente preparados para o plantio. Em anos em que precipitações ocorrem em novembro e dezembro, o feijão de corda já estaria florescendo e, em pouco mais de três semanas, haveria feijão verde em abundância, quando não as primeiras espigas de milho.
O maior impacto da estiagem é sobre a exploração animal, seja ela bovina, caprina, ovina ou a avicultura. Em quase todo o estado, à exceção da palma forrageira, as forragens cultivadas em regime de sequeiro foram consumidas. Mesmo para os pecuaristas que contam com seus palmais, há uma demanda de silagem ou feno e uma quantidade de ração e de sal proteinado que mantenha o gado, seja para leite ou corte, produzindo.
A situação não é mais crítica devido aos esforços das últimas décadas em dotar os imóveis rurais com poços superficiais ou profundos, cuja quantidade tem crescido vertiginosamente desde a adoção da energia fotovoltaica em escala difusa. A eletrificação via postes e fios condutores e os poços passaram a ser mais bem localizados e supridos de energia proveniente de placas solares que se encontram ao lado. Algo que há cinquenta anos parecia ficção científica.
Como frequentemente lembrado, a seca, uma irmã um tanto quanto inconveniente, não programa sua visita. Pode se entreter e passar alguns anos sem aparecer, mas pode insistir em ficar e, como consequência, deixar uma terra literalmente arrasada. O problema maior é que não se conseguiu até o presente prever com segurança sua chegada ou partida. Até o momento, por mais que se comprem os modelos, algoritmos e equações, o que de fato se deve ter em mente é que, independentemente do que possa ocorrer, contar com reserva estratégica de alimento para o rebanho é a atitude mais sábia em uma propriedade rural do semiárido.
Reações do governo estadual e federal
O governo estadual, antecipando-se à situação e tendo como base as projeções apresentadas pela Agência de Água e Clima de Pernambuco – APAC, publicou um decreto em 31 de dezembro de 2025 incluindo 108 municípios em emergência climática, sendo confirmada a situação pelo governo federal duas semanas após, informando de valores a serem aportados em uma série de ações emergenciais anunciadas. Há de se convir que, nos últimos anos, as medidas legais têm sido editadas de modo adequado, evitando que a situação se agrave com o prolongar da ausência de chuvas. Importante lembrar também que, desde o ciclo de secas que se estendeu entre 2012 e 2018, a efetividade dos programas sociais, tendo como carro-chefe o Bolsa Família, evitou situações de calamidade, evitando-se convulsões sociais, saques e a exploração dos famintos, como era algo recorrente no Nordeste.
Em alguns municípios, verdadeiras gangs forjavam falsos beneficiários, roubo de cargas, obras invisíveis, perpetuando aquilo que normalmente se constituía na indústria das secas tão fortemente exploradas pelas elites do Brasil rico que insistem em tratar as secas como um fenômeno regional, quando se tornou algo de abrangência nacional.
Hora de sair do emergencial
Em um jornal local, um representante dos prefeitos, sendo entrevistado quanto ao decreto federal, discorreu sobre as medidas emergenciais anunciadas. A receita é a mesma, desembocando no tão ansioso carro pipa. Apesar dos investimentos realizados em gestão hídrica localizada ou em rede, como a tão comentada transposição do Rio São Francisco, centenas de quilômetros de canais e adutoras, milhares de poços perfurados ou recuperados, o número de carros-pipas mantém-se impávido e sempre alguém vem a público falando da demanda reprimida e do descaso dos governantes.
Alguém em algum momento tem que vir a público e ter a coragem de anunciar que, a partir de agora, haverá uma redução no número de carros-pipa e que o critério de alocação deverá ser a real necessidade das comunidades e não o fato de se manter cotas de caminhões ligadas a familiares ou amigos de quem administra o suprimento de água, cara e de origem duvidosa.
Em uma região com as precipitações pluviais mensuráveis no semiárido, com a malha de poços, açudes, reservatórios, sistemas de adução, com os mecanismos de identificação precisa dos aquíferos e necessidade de recarga, investir no uso eficiente da água, empregando as tecnologias mais refinadas na pequena e média propriedade rural, é uma condição inquestionável à promoção de um desenvolvimento sustentável para o semiárido. As políticas públicas emergenciais devem ter dias contados e ir sendo substituídas de forma célere por ações permanentes.
Voltando a insistir. Onde está a gestão das secas?
Apesar do crédito dado à ação rápida dos gestores em admitir que há uma situação de risco tendendo ao colapso, não há como não continuar deixando claro que falta uma ação efetiva de gestão de secas que ocorre de maneira dispersa nas esferas federal, estaduais e municipais. Sem que se conte com um mecanismo moderno de gestão dos recursos, aplicações, resultados e impactos, a situação de improviso persistirá e, por mais que se comprometam orçamentos crescentes, os resultados serão de efetividade limitada. Não é demais sugerir um mecanismo de gestão central, iniciando-se pela avaliação dos diversos sistemas de previsão, monitoramento e recomendação, seja para a época de plantio, mas em especial para a efetividade das ações realizadas vis-à-vis cada real investido. Sem que isto seja implementado, a ineficiência e o descontrole solaparão as políticas implementadas e uma imutável forma de gerir o fenômeno secas.
