
Floresta, o tamarindo e o casario centenário
Preservar versos destruir
Postado em 29/01/2026 19:57

Não é comum as cidades serem submetidas a febres de modernidade, resultando na erradicação de sua história, arquitetura e paisagem. Aqui no Sertão do Pajeú, esta tendência é mais regra do que exceção. Praças onde as árvores foram extirpadas, coretos destruídos, desvalorização das bandas orfeônicas, desapreço pela cultura, adoção de personagens familiares e com pouca significância em nomes de ruas, escolas e logradouros. Esses são apenas alguns dos sinais dos tempos.
Esta semana veio-me ao conhecimento um vídeo de curta duração sobre a aversão que o brasileiro tem de seus escritores. Citava-se textualmente Machado de Assis, Clarice Lispector, João Cabral de Mello Neto, podendo ser a relação estendida para dezenas de poetas, cientistas, atletas, professores e profissionais em todas as áreas.
Nesta senda por demonstrar-se moderno, quase sempre o casario, os monumentos, mesmo raros, as placas indicadoras são depredados, destruídos e substituídos por imóveis de gosto duvidoso. Quase sempre planejado por estilos que representam um modismo efêmero e de gosto duvidoso.
A cidade de Floresta, localizada ao sul do Vale do Rio Pajeú, célebre pela música Riacho do Navio de Zé Dantas, na voz de Luiz Gonzaga, o cancioneiro do Sertão. Cantando a beleza da paisagem sertaneja, da nascente do riacho ao encontro com o Rio Pajeú e deste com o Rio São Francisco, tomou outro caminho e, depois de ver alguns de seus imóveis serem sacrificados, resolveu tomar a responsabilidade às mãos e preservar um dos mais belos conjuntos arquitetônicos do estado de Pernambuco.
O interessante, ao que consta, é que esta iniciativa partiu mais das cidadãs e cidadãos florestanos que, com esforços e investimentos próprios, preservaram a fachada de centenas de casas, vendas, armazéns. São centenas de exemplos decorados em cores vivas como o amarelo, o verde, o vermelho, o ocre, o vinho e o marrom. Cores que representam o verão, as luzes e se confundem com primavera em flores.
As cidades e as sombras
Salta aos olhos de quem visita esta cidade as árvores imponentes na praça principal que, de tão longa, é dividida em três nomes distintos mas que de fato é conhecida como Rua dos Tamarindos.
O tamarindo, que tem o nome cartorial de Tamarindus indicus, é uma espécie arbórea da família Fabaceae, antiga leguminosa, introduzida da Ásia, como o nome indica, caracterizada por folhas compostas e vagens marrons que envolvem um conjunto de sementes recobertas por uma polpa mucilaginosa azeda que também pode ter gosto adocicado. Na Índia, por exemplo, o tamarindo faz parte integral da culinária da região central e sul, sendo empregado no tempero de pratos vegetarianos ou de quem consome carnes (frango ou carneiro), nas saladas, como suco, sorvete, picolé, picles. É também intensamente utilizado na medicina Ayurvédica e na farmacopéia comercial.
Além do uso como tempero e medicamento, a árvore frondosa, imponente, impõe-se por sua beleza e sombra. Esta praça central de Floresta torna-se por si só um ambiente de repouso, de sociabilidade e de charme. Encontramos Dona Almerinda, uma senhora que mora próximo à igreja matriz, uma construção modernista fora do padrão local, varrendo as folhas secas das árvores que adornam a praça com alegria e sem reclamar daquela rotina que se repete todos os dias. Foi extremamente solícita em mostrar quão frondosa era a árvore em frente à sua casa e deixar claro que se tratava de uma vida centenária, informando ainda que há sempre alguém replantando as árvores que naturalmente morrem.
A Floresta ainda conta com o Parque das Craibeiras, uma espécie adaptada a ambientes mais úmidos e solos profundos. Ela não ocorre de modo endêmico e uniforme, mas em grupos dentro de uma semiaridez intensa. Ao florescer, esses pequenos maciços de árvores cobertos de uma linda flor amarela são um espetáculo aos viajantes que se adentram no Sertão.
Dona Almerinda contrasta com milhares de habitantes de cidades do litoral ao sertão que demonstram desprezo e ojeriza para com as plantas. Fazem questão de erradicar as árvores em frente de suas residências com a alegação de que suas folhas sujam as calçadas. Ainda bem que até o presente esta pandemia não atingiu as florestanas e florestanos.
Floresta e o turismo sertanejo
O fato é que Floresta se qualifica para ser um destino turístico. O Riacho do Navio, o rio Pajeú, às margens do rio São Francisco, constituem um conjunto de razões pelas quais um turista se interessa por esta cidade. Vamos retornar a comentários anteriores sobre um circuito turístico que se inicia em Princesa, PB; passando por Triunfo, Serra Talhada, São José do Belmonte. Não há dúvida de que Floresta não ficará fora deste conjunto de belezas naturais, personagens marcantes, culinária rica, arte musical exuberante e uma natureza inigualável.
Se faz necessário lembrar que, saindo do povoado Passagem Velha, em Serra Talhada, a família de Lampião por algum tempo viveu em Nazaré do Pico, distrito de Floresta que se orgulha de não ter cedido aos desejos da família e literalmente postos para correr para Mata Grande, no estado de Alagoas.
A importância estratégica do aeroporto de Serra Talhada
Este comentário nos remete à importância dos aeroportos regionais e, em especial, o de Serra Talhada. Ele seria o centro receptor de passageiros que têm interesse em conhecer o Sertão, suas histórias, lendas e personagens. De Serra se deslocaram para esses outros destinos em um raio de cem quilômetros, o que demonstra sua localização estratégica. No momento, o aeroporto se encontra em um processo de ampliação do tamanho da pista, o que o tornará capaz de receber aeronaves de maior porte. Havendo um arranjo em que cada um desses municípios se decide por fazer sua parte, todos ganharão criando no seio do sertão um ambiente turístico em que todos ganhariam. Talvez o diálogo não seja tão fácil, mas não há opção a não ser a colaboração mútua. Por enquanto, parabéns, Floresta, por ter dado importantes passos à frente.
