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Pernambuco, 27 de março de 2026

Saúde e Fé

Saúde na Bíblia  | A ética do cuidado na Bíblia

A Ars Curandi bíblica não é regulada por um código de ética feito por homens, mas pela convicção inegociável de que a vida pertence ao Criador. Se não compreendermos que o cuidado é um imperativo moral fundamentado no caráter de Deus, transformaremos as profissões de saúde em uma mera linha de produção e o ministério pastoral em um simples aconselhamento psicológico.

Postado em 01/02/2026 14:14

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).

Veja bem, a base de toda a ética do cuidado nas Escrituras repousa sobre a doutrina da Imago Dei. Se o paciente à nossa frente é um portador da imagem do Deus Altíssimo, então o ato de cuidar deixa de ser uma opção profissional e passa a ser um dever sagrado. No mundo bíblico, o ‘outro’ não é um cliente ou um caso clínico interessante; ele é o próximo a quem somos ordenados a amar.

A pergunta certa

Portanto, a pergunta ética correta não é ‘o que eu tenho permissão para fazer?’, mas ‘como posso honrar a imagem de Deus nesta pessoa fragmentada?’. É aqui, e somente aqui, que encontramos o fundamento para uma ética que resiste à desumanização: no reconhecimento de que cada gesto de cura é, em última análise, um ato de mordomia perante o Trono da Graça.

A integralidade do cuidado

Não é verdade que a Organização Mundial da Saúde (OMS), define saúde como um “completo estado de bem-estar físico, mental e social”? À primeira vista, parece uma definição louvável e holística. No entanto, eu penso que, se pararmos nela, estaremos apenas arranhando a superfície da realidade humana. O bem-estar da OMS é subjetivo e horizontal; quase utópico.

O Shalom da Bíblia é objetivo, funcional e, acima de tudo, vertical. O termo hebraico Shalom (שָׁלוֹם) é frequentemente reduzido a um cumprimento casual, à ideia de paz, ausência de conflito ou tranquilidade psíquica. Mas a exegese nos revela algo muito mais robusto. A raiz sh-l-m aponta para a ideia de completude e integridade. No mundo bíblico, algo possui Shalom quando está “inteiro”, quando cada parte cumpre perfeitamente o propósito para o qual foi desenhada pelo Criador. Como observa Plantinga (Plantinga Jr., 1995), o Shalom é o “florescimento universal, a totalidade e a alegria — um estado de coisas em que a natureza se manifesta da maneira que Deus planejou”.

O cuidado integral à saúde no Antigo Testamento é o “Shalom”

A Ars Curandi bíblica busca a retidão (estar certo). Sob a ótica do Shalom, se o eixo vertical — o relacionamento com Deus — estiver rompido, a integridade do ser está comprometida. A saúde bíblica não é um estado subjetivo de felicidade, mas um estado objetivo de alinhamento com a vontade divina. Como afirma Wolterstorff, o Shalom é a paz que resulta da justiça (Tzedek). Não há cura real onde não há o restabelecimento da ordem.

O cuidador restaura a imagem de Deus no homem

Aqui reside o encorajamento para o médico e o cuidador: se o Shalom designa o que é “bem feito” e “correto”, então cada ato de excelência técnica é uma busca por essa harmonia. Quando o cirurgião sutura um tecido com precisão, ou quando o líder organiza um aconselhamento com ordem e verdade, eles estão combatendo o caos da Queda com a ordem do Reino. Eles estão devolvendo ao corpo e à mente a funcionalidade que lhes foi roubada pela doença.

A verdadeira cura, portanto, é um ato de mordomia da integridade. É o esforço sagrado de costurar novamente as bordas da alma e do corpo, até que o homem não apenas “se sinta bem”, mas seja restaurado à condição de portador íntegro da imagem de Deus.