
Fé, devoção e sacrifício. A vida de um romeiro
Cenas hiper-realistas.
Postado em 06/02/2026 12:32

Quem teve a oportunidade de ver a primeira cena do filme O agente secreto, não sendo do nordeste, há de pensar que não passa de exagero do diretor Kleber Mendonça. Quem conhece o Nordeste profundo não se admira e, durante sua existência, pode ter se defrontado com situações similares. Um corpo estendido, tendo uma folha de papelão como manto, apodrecendo há dias sem que ninguém cuidasse, à exceção do frentista do posto de gasolina que insistia em espantar a matilha de cães que pretendiam devorar o cadáver, o fedor insuportável, as moscas e o fato de saber que não poderia abandonar o local sob o risco de perder o emprego. Aquilo diz tudo e justifica por que a película, seu diretor e atores estão sendo reconhecidos mundo afora.
No dia 3 de fevereiro de 2026, retornando de Arapiraca para Serra Talhada, deparei-me com outro cenário próprio deste Nordeste de Conselheiro, Padre Cícero, Lampião e Luiz Gonzaga. Entre São José da Tapera e Olho D’Água do Casado, próximo ao distrito do Caboclo, havia uma carcaça de um ônibus, dezenas de ambulâncias e viaturas policiais e uma dezena de ônibus que vinham de uma romaria a Juazeiro do Norte.
No dia anterior, conversando com um amigo do município de Coité do Nóia, Alagoas, ele me informou que 28 ônibus teriam vindo participar da procissão de Nossa Senhora da Candeia, em Juazeiro. Uma romaria que ocorre no dia 2 de fevereiro. Para uma cidade com uma população total de pouco mais de dez mil habitantes, o fato demonstra quão forte é o apreço e a devoção por Padre Cícero.
Na realidade, desculpem as amigas e amigos cearenses, mas sou tentado a dizer que os alagoanos fazem a comunidade mais devota a Padre Cícero. No percurso entre Arapiraca, Alagoas, e Floresta, Pernambuco, de aproximadamente 300 quilômetros, não encontrei menos de cem ônibus e um número igual de vans de todos os tipos. Quase todos em direção ao Sertão e ao Agreste Alagoano.
De Coité do Noia a Juazeiro
O que faz, senão a fé extremada, alguém que mora em Coité do Nóia, Alagoas, deslocar-se para Juazeiro do Norte, Ceará, distante 562 quilômetros, e um percurso que neste tipo de transporte não é menos do que nove horas, ir uma ou várias vezes ao ano subir ao morro para prestar seu respeito e fé no personagem que é um dos ícones do Nordeste, Padre Cícero. São situações hiper-realistas, tal qual o início de O Agente Secreto, mas é uma realidade que persiste no Brasil profundo e que não deixará de se fazer presente por décadas a seguir.
Centenas de famílias suspendem suas atividades, usam a escassa economia, preparam a sacola com água, farofa, o frango assado e talvez a rapadura para sair Sertão adentro em busca do refúgio espiritual. Peregrinação que não é de agora. Lembro, menino, de ouvir minha mãe falando de ocorrências registradas por seus avós de romeiros que tinham crianças mortas pelas onças na longa caminhada a pé ou em burros entre Alagoas e o Ceará. Já adolescente, cansei de ver dezenas de caminhões com as carrocerias adaptadas ao transporte de pessoas, os paus de arara, com romeiros com seus típicos chapéus de couro entoando os louvores a Padre Cícero e à Virgem Maria.
Resignação extrema
Uma tragédia tal qual observada em Caboclo com nossos irmãos de Coité do Nóia é algo de tão profunda comoção que não dá para perder o tempo em busca de culpados. Foi o cochilo do motorista na curva da morte, um defeito mecânico, uma assombração, o demônio O certo é que sessenta pessoas que se encontravam naquele veículo foram jogadas para lá e para cá, arremessadas janelas afora e feridas naquele jogo macabro.
Há de se esperar a comoção, as lágrimas, o desespero. Uma mulher que, por alguma razão, não viajou, perdeu seu esposo, o filho e a mãe. Um outro pereceu junto ao primo e a um neto. Outra família teve seis vítimas fatais. Até o momento, dezesseis pessoas perderam a vida neste ato de fé e crença extrema. Ouvindo o depoimento de um parente que, ao saber da notícia, partiu de Coité do Nóia para o local do acidente, resumindo o que a grande maioria daqueles que não participaram dessa fatídica viagem pensa: ‘Deus e Padre Cícero vão confortar’. Manoel disse tudo. Nada mais a acrescentar. Que descansem em paz.
As chuvas chegaram em Serra Talhada
Desde novembro que existiam previsões para chuvas no município de Serra Talhada, ocorreram chuviscos, como se costuma dizer, mal dando para apagar a poeira ou arrefecer a temperatura escaldante que se defronta o sertanejo. Hoje, afinal, por cerca de quarenta minutos, no perímetro da cidade de Serra Talhada, ocorreram chuvas persistentes que, também usando o linguajar regional, pode-se considerar como o início do ‘inverno’, também como é conhecida a quadra chuvosa do sertão. Com certeza amanhã já teremos tratores arando ou gradeando áreas que irão ser cultivadas com milho. A precipitação de hoje não foi suficiente para se estabelecer um plantio, entretanto, para o sertanejo, ávido por ver seu milharal plantado, já esperou muito e a cada dia a partir de agora, a probabilidade de contar com uma boa colheita se reduz.
A continuidade das chuvas nas próximas duas semanas será determinante para o que se pode esperar de produção de forragem, acumulação de água e para as culturas alimentícias. Em milhares de propriedades, a água é escassa, bem como o alimento. Quem tem palma forrageira está tendo a possibilidade de fazer um bom negócio, como qualquer outro tipo de silagem ou feno. Importante chamar a atenção que o ciclo de secas entre 2012 e 2018 criou uma cadeia produtiva derivada da pecuária, a produção de alimentos para os animais. Não são poucos os empreendimentos que se especializaram na produção de silo e feno e, nos últimos anos, replicando-se o que se vê no Agreste de Alagoas e Pernambuco, a palma se transformou em uma grande opção de negócio.