
Zoneamento agrícola e risco de cultivo
A importância de se dispor de dados
Postado em 12/02/2026 16:25

A todo momento, a discussão em torno de contar com dados cresce. A inteligência artificial nada mais é do que o conjunto de técnicas capazes de analisar um banco de dados com milhões de informações, separar o que é útil no momento, interpretá-lo e apresentar-lhe uma informação condensada em frações de segundos. A rapidez com que as respostas são dadas é algo fantástico. Pode até ser que não sejam tão precisas quanto se espera, mas com duas rodadas de esclarecimento neste diálogo, o que lhe é posto demandaria um tempo infinitamente maior que há pouco mais de uma década.
Será que se pode dizer o mesmo em relação ao tempo? Nem tanto. Uma questão é nos confrontarmos com as previsões diárias de um programa de televisão ou de um site de algum instituto de meteorologia e a outra é trabalharmos com um tempo que permita tomar decisões com relativa segurança sem incorrer em erros grosseiros. Aparentemente, ainda não temos como trabalhar com precisão o que poderá ocorrer em termos de chuva, nevasca, ventos em um período de três meses, entretanto, isto não significa dizer que dentro de um período razoavelmente curto não se trabalhe com computadores mais potentes, conjunto de dados expandidos, sistemas de análises mais sofisticados que não tenhamos esta informação detalhada.
Esta questão vem à discussão devido ao fato de que, ao se confrontar os dados de clima de uma localidade qualquer no semiárido brasileiro, todo ano é único e com padrões de chuvas raramente similares, mesmo se sabendo que a quadra chuvosa é curta, de três a quatro meses, e que as precipitações se enquadram em valores razoavelmente correlatos, isto é, entre 400 e 700 milímetros anuais na maioria dos casos.
Apoio aos agricultores
Em não contando com mecanismos preditivos seguros, a agricultura nada mais é do que uma loteria ano após ano. Daí, alguns conhecedores e estudiosos da região falarem claramente que determinados cultivos, a exemplo do milho, não podem ser recomendados para a região. Os dados registrados quanto às safras são precisos e os casos de sucesso escassos. Mesmo considerando-se que ocorreram mudanças no perfil das tecnologias desenvolvidas e disponíveis, o histórico persiste e muitos se apegam a ele em suas análises e projeções.
Poucos consideram os avanços na área da genética, por exemplo, em desenvolver cultivares mais tolerantes ao calor e ao estresse hídrico; fertilizantes mais eficientes, compostos orgânicos capazes de liberação lenta de nutrientes e retenção de água no solo, plantadeiras e colheitadeiras de precisão, além de mecanismos de mercado mais sofisticados, precisos e que trazem melhor remuneração a quem produz.
Redução de fraude
Dentre as várias políticas disponíveis, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático – ZARC, adotado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento como balizador para financiamentos de custeio e investimento para os agentes bancários públicos e privados, é um dos mais relevantes. Primeiro, por cobrir quase todo o território nacional, seguindo-se do fato de mais de quarenta cultivos serem atendidos por este programa, algo inédito em todo o mundo. Não há outro país nos trópicos que ofereça algo similar aos seus agricultores, informando-os sobre quando plantar, que culturas e quais as cultivares mais recomendadas.
Este programa, desenvolvido pela Embrapa e adotado pelo Governo Federal como base para sua política de crédito, é marcante e a cada ano contribui para o sucesso e o crescimento das safras, bem como a redução expressiva de riscos e a segurança para os que emprestam, também.
Em momentos anteriores, fraudar os bancos era algo costumaz. Pessoas de má-fé contraíam empréstimos para instalar uma determinada cultura e nem sempre plantavam a área negociada. Sempre contavam com servidores dos bancos que compartilhavam e participavam dos crimes e costumeiramente laudos eram confeccionados atestando a perda de produção. Não que esta prática tenha sido eliminada por completo, mas uma coisa é certa, o número de aproveitadores foi restringido significativamente.
Ainda persistem situações em que, mesmo com safras crescentes, em algumas regiões ou estados, o apelo ao Programa de Garantia da Atividade Agropecuária – PROAGRO é realizado de forma abusiva. Hoje, aquiescer com práticas abusivas recorrentes de fraude técnica é algo questionável. O uso de imagens de drones ou satélites é suficiente para que se faça o acompanhamento da área plantada e a situação da lavoura praticamente de modo diário. Logo em se tratando de uma discussão não concluída sobre o estabelecimento de um seguro agrícola universal e sério, tais tecnologias de controle teriam que estar associadas à emissão da apólice, evitando e punindo os fraudadores.
Modernização das práticas de crédito e seguro agrícola
Será que a questão tem fundamento? É pertinente? Necessária? Nos últimos meses, têm sido constantes matérias colocando em risco a efetividade econômica da agricultura, colocando como unidade de risco o número de falências e empresas que foram forçadas à recuperação judicial. Nem sempre os estudos atentam para o fato de que, na maioria dos casos, a quebra se deu por fragilidade de gestão, decisões de alto risco e, não menos, drenagem dos recursos das empresas para o exterior ou fundos hedge, deixando o passivo para ser administrado pelos cofres públicos.
Esta prática deve ser combatida com veemência e coragem, de modo que os usuários sejam identificados e retirados de modo definitivo da malha de crédito rural com recursos públicos ou privados. Não dá para alimentar falsos empresários, empresas fantasmas e investimentos que não passam de miragens. O país passa por um momento de limpeza de algumas dessas instituições que, importante se faça lembrar, até pouco tempo eram objeto de defesa veemente de lideranças do setor agropecuário defendendo a não taxação desses falsos investimentos.
Cabe aos governos deixarem bem claro que todo o apoio deverá ser posto em prática em defesa dos agricultores e das empresas sérias, incluindo refinanciamentos e o seguro agrícola, mas ao mesmo tempo ser justo na recuperação de créditos que não foram corretamente aplicados. A agricultura brasileira espera por esta tomada de decisão.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST