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Pernambuco, 19 de fevereiro de 2026

Agronegócios

Professor Mário Antonino, o perseguidor de sonhos

Coxixola e D. Zélia

Postado em 19/02/2026 12:44

Colunista

 

Todos vêm aqui com uma missão. Para alguns, ela é estendida, forçando-o a dar mais de si, a se dedicar um pouco mais ou, repetindo a frase comum nos Estados Unidos, correr a milha extra. Entre tantas pessoas que conheci, poucos foram aqueles que vestiram o manto desta missão do modo que o fez o caríssimo amigo, Professor Mário de Oliveira Antonino. Viveu por quase um século, dedicando-se de corpo e alma a causas justas e ao bem de seu povo.

Minha lembrança mais marcante de Dr. Mário, entre tantas, foi no dia em que ele chegou ao IPA e se sentou à minha frente para mostrar os primeiros seis exemplares dos Cadernos do Semiárido, que têm o sugestivo subtítulo de Riquezas e Oportunidades. Vi à minha frente um jovem com os olhos brilhando de alegria e prazer, mostrando seu último projeto, apresentando o que tinha planejado para os próximos meses e sabendo o que eu achava de sua obra. Quem sou eu para emitir uma opinião sobre aquilo que vi. Estava em frente a um gigante que, em sua profunda humildade, procurava um colega que sabia ter afinidade pela causa, para ouvir sua opinião.

Aquele foi um momento mágico em minha formação humana. Encontrava-se em frente a um intelectual de estirpe na melhor acepção da palavra, mostrando os primeiros capítulos de seu Dom Quixote de la Mancha, o famoso livro de Cervantes e, quiçá, o mais importante romance da literatura universal que, por acaso, em 2025, completou 400 anos da publicação da primeira parte do livro. Tenho tido a oportunidade de dizer que não há quem, sendo uma pessoa de boa fé e vontade, não se sinta tocado por tal dedicação, dinamismo e fé.

Dentre as tantas vezes que estive com o Dr. Mário, vendo-o relatar sua infância em Serra Branca, Cariri paraibano, da força espiritual emanada por sua mãe, D. Zélia, como professora primária, como se dizia antigamente, investiu com seu pai na educação dos filhos, o que fez ele, anos depois, aportar em Recife para estudar engenharia na UFPE, constituir sua família e gozar dos melhores momentos de sua vida. Após muitos anos, foi desmembrado de Serra Branca o município de Coxixola, onde Dr. Mário tinha sua fazenda, seu laboratório de Semiárido e sua criação de cabras. Local onde ele se realizava quando por lá estava com D. Celma, e que apesar de todos os desafios de um imóvel no Cariri, o que ele não admitia era ver seus animais sendo roubados impunemente, a principal praga e ameaça aos criadores de pequenos animais em todo o Sertão.

O Professor de cálculo e estrutura

Andar com Dr. Mário, e de contar com o Professor Mário Antonino ensinando e orientando os jovens, como ele gostava. Em um tempo em que nós, professores e profissionais de modo geral, não contávamos com a oportunidade de estender nossos estudos às pós-graduações no país ou no exterior e aprender mais. Era um tempo que mais se assimilava àquele em que viveu Machado de Assis, que apesar de nunca haver saído do Brasil, descrevia seus cenários como se tivesse estado em qualquer parte do mundo. Dr. Mário foi isto, o professor autodidata que incutiu o amor pela matemática e pela engenharia aos jovens estudantes.

O exemplo mais eloquente de seu sucesso foi que não menos do que cinco reitores, três da UFPE, Professores Mozart Neves, Amaro Lins e Anísio Brasileiro; o Professor Carlos Calado, da UPE, e o Reitor Cristóvão Buarque, da UNB. Algo que fala por si quanto à importância e influência do Professor Mário no meio acadêmico.

O gestor de grandes obras

Nosso Dom Quixote não se contentou em ser apenas um professor exemplar. Foi um engenheiro civil de valor indescritível na projeção e acompanhamento de grandes obras. Uma delas foi o armazém do terminal de açúcar de Maceió, um imóvel com o maior vão de concreto protendido à época da construção, que ele citava com tanto orgulho. Dr. Mário foi gestor de programas como o Polonordeste, nos governos de Marco Maciel e Roberto Magalhães, quando dezenas de barragens de pequeno a grande porte foram construídas em Pernambuco. No Sertão do Pajeú, destacam-se as barragens de Brotas, em Afogados da Ingazeira, e a do Jazigo, em Serra Talhada. Durante sua última visita a Serra Talhada, com o dileto amigo, Professor Frederico Nunes, ele falava de que, se ouvido fosse, incentivaria a instalação de um sistema de básculas nessas obras, elevando consideravelmente a capacidade de armazenamento.

O Rotary, os Cadernos do Semiárido e a APEENG

Não há como se falar de Dr. Mário sem lembrar sua dedicação inigualável e voluntária ao seu clube de serviços, o Rotary Club. Nele, Dr. Mário assumiu todas as funções possíveis a nível local, a partir da unidade do Largo da Paz, em Recife, até como presidente nacional e diretor para assuntos internacionais do Rotary em todo o mundo. O Rotary era um dos temas que o Dr. Mário falava por horas sobre o que representava a instituição, seu envolvimento e conquistas.

Como derivativo de seu clube de serviços que completava 50 anos em Pernambuco, Dr. Mário elegeu como principal objeto das comemorações iniciar a edição de um conjunto de compêndios sob o título Cadernos do Semiárido: riquezas e oportunidades para tratar a região não como aquela relatada como poço sem fim das ajudas governamentais, das secas e da miséria e do coronelismo, mas de uma região eivada de chances para aqueles que nela creem e demonstrar que as possibilidades são reais. Em um pouco mais de vinte exemplares, obra em que congregou os esforços de aproximadamente trezentos especialistas em temas que vão dos recursos hídricos, aos solos, à agricultura e pecuária e ao ensino, Dr. Mário deu um passo para o que seria uma Enciclopédia do Semiárido. Obras que podem ser consultadas na página do IPA (www.ipa.br), acessando a aba de publicações. Este será um de seus sonhos que alguns de nós estarão atentos em mantê-lo vivo.

Por último e não menos importante, foi sua bravura em constituir a APEENG – Academia Pernambucana de Engenharia, seu primeiro presidente e presidente emérito, instituição constituída por quarenta profissionais das diferentes áreas das engenharias que têm se dedicado com amor, afinco e profissionalismo à causa. O Dr. Mário, de forma espontânea e sem se preocupar com cargos ou comendas, foi um colaborador próximo do CREA-PE, auxiliando a instituição em vários momentos.

Hoje, 18 de fevereiro de 2026, D. Celma, os filhos, os amigos se fizeram presentes em suas exéquias. Não tive como me deslocar de Serra Talhada para dar meu adeus a este amigo exemplar e pai espiritual. Quem esteve presente foi meu filho, o engenheiro agrônomo Álvaro Eugênio de França, também um grande admirador desse guerreiro. Adeus, Dr. Mário. Fique certo de que seus amigos, a exemplo do dileto Professor Frederico Dias Nunes, seus filhos e de pessoas como eu, estarão atentos em continuar com suas batalhas, acreditando nas engenharias, no conhecimento, nos jovens, no Semiárido e em um futuro melhor.

  1. Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST