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Pernambuco, 13 de março de 2026

Saúde e Fé

Saúde na Bíblia

A doença de Jó

Postado em 22/02/2026 10:31

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).

Imagine a cena: Jó sentado sobre cinzas, a raspar feridas purulentas espalhadas pelo corpo todo com um caco de pedra, mergulhado em uma dor agonizante. Ele está no limite da vulnerabilidade. A esposa diz: “Amaldiçoa a Deus e morre!”; Os amigos choram, rasgam as vestes e sentam-se ao lado dele. Sete dias e sete noites. Então, Jó fala: “Pereça o dia em que nasci e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!”. E segue a queixar-se. Os pensamentos de Jó vacilam entre duvidar que Deus o ouviria e a certeza de que Deus lançaria sobre ele a cura. E não blasfema, permanece íntegro. O sofrimento continua até que Jó admite sua ignorância, confessa sua presunção, para de se queixar e se arrepende. Aí, as mãos de Deus curam suas feridas e sua pele ganha a maciez de uma pele de criança.

A palavra usada para a cura de Deus para as feridas de Jó nessa passagem é Rutafash – uma palavra que só aparece nesse texto – e que significa “tornar fresca, úmida, viçosa” como a pele de uma criança.

As mãos de Deus no Novo Testamento

Em Betsaída, um cego clama para que Jesus o cure. Jesus toca seus olhos em dois momentos, com as mãos e saliva.  O homem volta a enxergar perfeitamente. Outro, que havia nascido cego e mendigava perto do tanque de Siloé, é curado por Jesus depois que o Médico dos médicos o toca nos olhos com saliva misturada ao barro do chão. Jesus restabelece a dignidade do homem e o põe de pé. A presença de Deus entre nós e o toque de suas mãos leva à cura. Assim como, ao criar o Homem, Deus usou o barro do chão, Jesus usa o barro para a restauração do Shalom.

Unindo

Essa “costura” divina, que no livro de Jó é descrita pelo agir incessante das mãos de Deus (tirpeinah), revela que a cura raramente é um evento isolado, mas um processo paciente de reconstrução. É o que o profeta Isaías chamaria séculos depois de Arukah: aquela saúde que “brota” como uma pele nova sobre a ferida, ou como uma muralha cujas brechas foram finalmente fechadas. Deus não faz apenas remendos superficiais; Ele promove uma restauração que preenche as lacunas deixadas pelo trauma, devolvendo a continuidade à vida que havia sido rompida.

No desfecho do encontro em Betsaída, o texto bíblico utiliza uma expressão poderosa para descrever o cego agora curado: ele foi “restabelecido”. No original, esse termo indica que ele foi reconstituído ou colocado de pé novamente em sua posição de direito. Assim, a arte de curar se revela em sua plenitude: mãos que tocam a nossa fragilidade, que usam os meios mais simples da criação e que não descansam até que a nossa visão e a nossa dignidade sejam devolvidas. Seja nas cinzas de Jó ou nas estradas da Galileia, o Curador permanece o mesmo, transformando a nossa dor em carne nova da Sua esperança.