
As perguntas de Lucas, o médico amado
Saúde na Bíblia nr.4
Postado em 01/03/2026 12:08

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).
Há um livro, “Médico de Homens e de Almas”, de Taylor Caldwell, publicado pela primeira vez no final da década de 1950. A autora traz uma biografia romanceada de São Lucas, o médico amado, como diz Paulo. Lucas escreveu o Evangelho segundo Lucas, e o Livro de Atos dos Apóstolos.
Em certa passagem, não muito próxima à conversão do então acadêmico de Medicina na Universidade de Alexandria, Lucas (ou Lucano, como era chamado na época), revela algumas questões interessantes e que o angustiava: “Que explicação há para tantas enfermidades que acometem os homens?”; ou “Por que deve uma criança sofrer, e um homem ter a aflição da lepra?”; ou, ainda: “Seriam consequências de ofensas a Deus”?
O mestre judeu na Universidade de Alexandria, que ensinava Filosofia e Religião Oriental aos alunos de todas as escolas da universidade, José ben Gamliel, conhecia Lucano mais profundamente do que o próprio imaginava. Ele dizia: “…a mão de Adonai está sobre ti, eu O sinto junto de ti…”
Quando ouviu de Lucas as queixas, teria respondido: – “Jó foi homem angustiado, chorou por ele próprio e pelos seus semelhantes e censurou Deus pelo que parecia a miséria sem sentido da Terra. E Deus respondeu-lhe dizendo (entre outras coisas): ‘Por acaso deste tu ordens às manhãs, desde os teus dias, e levaste a aurora a conhecer seu lugar… Entraste nas nascentes do mar?… Viste as portas da sombra da morte?… Quem fornece o alimento ao corvo, quando seus filhotes gritam para Deus?…’; e continuou Gamliel: – portanto, amado, a sua angústia não é somente sua, e, de forma alguma, incompreensível para o Todo-Poderoso, ao contrário, Ele pode te dizer, se inclinares os ouvidos atentos: ‘os meus propósitos e os meus decretos são justos e perfeitos, mesmo que não pareçam assim aos seus olhos; espera e confia, tão somente’. Assim, meu querido, se temes ter Deus no coração por causa da angústia que a Lei de Deus trará a ti, saiba que junto a estas angústias virão luz, pão para a alma que excede a todo entendimento, deleite espiritual e amor para preencher o vazio que o homem tem no peito.”
Nas curvas, agudas, de sua peregrinação, Lucano experimentou a melancolia e quase desespero por sua revolta contra o sofrimento humano e a morte. Quando o dia que virou noite e um grande tremor de terra o alcançaram em casa, em Atenas, Lucano teve medo, e já não era médico, nem filósofo, nem cientista. Nos seus jardins, quando a luz do sol voltou, soube que precisava investigar o fenômeno que acontecera. Então, com sua mente perspicaz, viajou até a Judeia, onde vários testemunhos o levaram a crer que Jesus de Nazaré, era o Messias que foi humilhado e morto em uma cruz, em Jerusalém. Esta era a explicação para a escuridão e o terremoto.
Passa a registrar tudo o que ouve e vê a respeito de Jesus Cristo, com método e profunda erudição. Busca entrevistar os que testemunharam o ministério de Jesus Cristo, inclusive aqueles que não creram nas suas palavras.
Em Antioquia, algum tempo após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, Lucano tem a oportunidade de entrevistar uma mulher, Maria, mãe de Jesus. Ali, o coração de Lucano se abrandou, e ele percebeu que, assim como aquela mãe, também ele é filho de Jesus. Ele entendeu que Deus não é um observador distante do sofrimento, mas alguém que participou dele. Ele deixou de ser apenas o “médico do corpo” para aceitar sua missão como “médico de almas”.