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Pernambuco, 15 de abril de 2026

Agronegócios

Os mercados, a moral ocidental e as trevas

O normal, competição, eficiência, preços.

Postado em 12/03/2026 15:10

Colunista

Há um consenso no mundo econômico de que o mercado necessita de estabilidade para manter a prosperidade de um povo. As exceções são o mercado de metais, principalmente o aço, armamentos e combustíveis. Esses são os primeiros afetados quando a demanda aumenta e, em especial, quando inúmeros países vão em busca de novas armas, munições, equipamentos, aviões, navios, tanques.

Desde o início do mandato do atual mandatário americano, nota-se uma aposta no desrespeito às mínimas normas que regem o comércio mundial, a democracia e a relação entre as nações. Abriu-se a caixa de Pandora e, com isto, todos os diabos que estavam contidos a duras penas saíram cuspindo fogo e prometendo que trariam o máximo de sofrimento e destruição possível. Aparentemente, a principal causa era fazer os Estados Unidos se tornarem grandes novamente, ‘great again’, significando que em hipótese alguma a elite americana toleraria ver o país ser ultrapassado por algum concorrente ou até ameaçado. Esta política, apesar de expressa claramente por Donald Trump, vem se arrastando desde o segundo mandato de George W. Bush, passando por Obama e por Biden.

Milhares de análises dos principais institutos de pesquisa e universidades americanas e da Europa traziam diagnósticos catastróficos sobre a economia chinesa, que estaria à beira do caos, que os países africanos estavam entrando em uma armadilha de débito e que a América Latina estaria deixando de ser o quintal americano.

Algumas dessas fantasias foram sendo negadas a cada momento, à exceção de que a elite latino-americana é servil e totalmente aliada à dominância do irmão do norte. Líderes intelectuais, parlamentares, diplomatas, empresários rogando por intervenções, traindo seus países, vendendo suas nações e, ainda assim, contando com o aparato de uma mídia servil e vilã que dá cobertura aos oráculos do mercado que não passam de piratas.

Tarifas, sanções, ameaças

O primeiro de ações extraordinariamente abusivas veio com o anúncio de aumento de tarifas alfandegárias insanas para países até então amigos, a exemplo do México e Canadá, para a principal ameaça, a China, sobrando até para o Brasil, que teve tarifas anunciadas de até 50%. Medidas estas, por incrível que possa parecer, com o apoio direto de políticos e empresários brasileiros, em particular aqueles que estão ligados ao agronegócio, que foram quase unânimes em apoiar esta aventura. Uma insanidade somente vista aqui, quando alguém resolve dar guarida àquele que o ameaça.

Escândalos e a moral ocidental

A situação de risco à economia mundial revelou-se ainda mais volátil quando o principal alvo de punições e guerras deixou de ser a ameaça ao concorrente e passou a ser a insanidade em se esconder um escândalo devastador que colocou por terra a tão propalada superioridade da cultura e da moral ocidental, em que se constatou o envolvimento de líderes políticos, religiosos, acadêmicos, empresários em uma trama em que se mesclava rapto de jovens e crianças da Europa Oriental, estupro de vulneráveis, pedofilia, suborno, assassinato, canibalismo e extorsão. Foram flagrados no ambiente demoníaco ou dando emprestando suas bênçãos, dezenas de presidentes e primeiros-ministros, um papa, um líder espiritual, filósofos, princesas, príncipes, sheiks, cientistas, professores, megaempresários e dezenas ou centenas de vítimas anônimas esquecidas.

A cada dia, o escândalo se avolumava, bem como a necessidade de se ter uma grande notícia que retirasse o tal relatório Epstein das manchetes. Já que os abusos tarifários falharam, foram buscar o presidente Maduro na Venezuela. Também não deu em nada. Mudaram a mira para o Irã, assinaram o Ayotalá Kameney e boa parte da liderança do país e prometeram levar o país à lona em poucos dias. Esta última aventura foi a mais nefasta. Em resposta, o Irã, sabendo da impossibilidade de confrontar o poder aéreo americano e de seus aliados, optou por não confrontar os aviões e mísseis, mas dirigir-se às bases de suporte e abastecimento militar, bombardeando 27 dessas e colocando em xeque a logística da guerra. Além disso, atingiu as principais cidades de países aliados no Oriente Médio, comprometendo o mito de que Dubai, por exemplo, era o símbolo de riqueza inesgotável e da segurança física e financeira inabalável.

O saldo, além de bilhões de dólares gastos, é o fato de que nada mais do que 80% da população americana está convencida de que o real motivo da intervenção não foi a ameaça iraniana, mas o desespero em esconder o comportamento delinquente de uma elite carcomida que até bem pouco tempo se dizia a imagem do melhor que existia de democracia e símbolo da civilização ocidental.

Atmosfera de caos, imprevisibilidade

E o que tem a ver os crimes de outros com o agronegócio nacional, excetuando-se o fato de que sua maioria apoiou e continua apoiando incondicionalmente essa gente e suas ações? Em pouco mais de quinze dias, há uma incerteza completa quanto ao suprimento de fertilizantes, dos quais a agricultura brasileira é fortemente dependente, alteração drástica no preço do petróleo, que entre fevereiro e março saltou de sessenta e cinco para noventa dólares o barril, e o aumento que se vê nos combustíveis nos postos de abastecimento. Este cenário de anormalidade em um país que, aparentemente, não está envolvido no conflito, distante a milhares de quilômetros, mas ao atingir seu segundo maior mercado de aquisição, atinge o coração do agronegócio nacional, que depende fortemente do mercado mundial livre e baseado em regras e normativas.

Diferentemente do que ocorreu em abril, quando do anúncio das sanções, em que o Brasil teve que se reposicionar rapidamente e passou a colocar seus produtos em outros mercados, a situação é bem diferente. Com a destruição da infraestrutura energética trazida pela guerra em todo o Oriente Médio, o mundo será exposto a uma atmosfera de sombras e riscos por um longo período até que se volte ao normal e até quando se possa esconder os crimes cometidos por Epstein e seus comparsas. Trocando em miúdos, é algo inimaginável como a paz mundial se vê em risco pela ação de gângsteres e psicopatas.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, PE, 11 de março de 2026