
Timóteo e sua gastropatia
Um pouco de vinho pode ajudar
Postado em 22/03/2026 14:37

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).
É fato incontestável que a água disponível para consumo na Grécia, Ásia menor e Oriente próximo, no primeiro século, frequentemente era insalubre e causava doenças intestinais e disenteria. Timóteo estava em Éfeso, quando recebeu a orientação de Paulo para beber um pouco de vinho, não somente água (1 Timóteo 5.23). Parece que Timóteo sofria com frequentes diarreias, e, talvez por isso, ou por predisposição, também tinha problemas no estômago (uma gastrite? H. pylori?). Não sabemos.
Hoje sabemos que o vinho tem propriedades antioxidantes e antiinflamatórias, através dos polifenóis, especialmente o resveratrol, mas Paulo não sabia disso, era cultural e empírico o uso de vinho como remédio. Na Bíblia há diversos relatos deste uso. Já comentei aqui sobre o uso como antisséptico tópico na cura de feridas (coluna do dia 08/03).
Outros usos, como entorpecente para os que estavam com amargura profunda, desesperançado (Provérbios 31.6 e Marcos 15.23); ou como tônico e fortificante aos convalescentes e aos homens depois de longas batalhas ou caminhadas pelo deserto (1 Samuel 16.2).
É importante saber que o vinho, nos tempos antigos, não era oferecido puro, mas diluído em água na proporção de 2:1 ou 3:1, o que o deixava com baixa concentração de álcool, e, além disso, não era filtrado, contendo nutrientes e fibras presentes na casca e polpa da uva.
Outra curiosidade bíblica sobre o vinho é a distinção entre o “vinho novo” e o “vinho velho”. Jesus Cristo, no casamento em Caná da Galileia, transformou a água no “melhor vinho”, ou seja, o vinho maturado, decantado, já estabilizado em seu processo de fermentação. Este é o melhor para efeitos medicinais na maioria dos casos, como no caso de Timóteo, por exemplo.
Mas o “vinho novo”, que é o mosto da uva que acabou de ser espremido e iniciou o processo de fermentação, é mais doce, tem um teor alcoólico menor (no início) e ainda contém muito gás carbônico (por isso “rompe odres velhos”, que já perderam a elasticidade). Rico em açúcares naturais e vitaminas da fruta pode funcionar melhor para os efeitos de tônico e reposição de vitaminas, ou para casos de constipação intestinal, pois tende a ser mais laxante. Mas pode causar desconforto por produzir gases (aliás, por isso não se põe vinho novo em odre velho – Lucas 5.37).
A recomendação sempre foi para beber em pequenas quantidades. Uma taça ou copo era suficiente para o efeito desejado. Por isso Paulo diz a Timóteo: “Não beba somente água, beba também um pouco de vinho, por causa do seu estômago e das suas frequentes enfermidades”.
Uma Lição para os Nossos Dias
É impressionante a demonstração do cuidado de Paulo com seu “verdadeiro filho na fé”. Muitas vezes aqueles que nos amam nos dão conselhos que não seguimos. Muito frequentemente, as orientações médicas não são adotadas na totalidade pelos pacientes.
Precisamos ouvir com mais atenção e seguir as recomendações que nos são dadas.
Precisamos estar atentos para as necessidades dos que amamos e não nos furtar de orientar, quando preciso.