
Meliponas, espécies extraordinárias
A apicultura no Semiárido
Postado em 26/03/2026 15:35

Ao se falar sobre os Agrestes e Sertões, sempre se remete à caatinga, esta mata constituída por milhares de espécies de plantas adaptadas ao semiárido, que forma uma verdadeira colcha de retalhos na cobertura vegetal desta região. A diversidade é intensa e, ao se falar em caatinga, é importante chamar a atenção para que ela representa a revelação de uma foto em cores e tonalidades típicas para cada microambiente.
A maior parte dos relatos, sejam da academia ou de mídia comercial e corporativa, ao falar do semiárido, faz referência ao desmatamento crescente, seguindo-se de políticas de reflorestamento, manejo florestal, uso não madeireiro das espécies da caatinga, produção de carvão, lenha, emprego na farmacologia e na cosmética e na produção de mel, mesmo sem que esta atividade mereça o destaque que as demais têm merecido.
O fato é que não há política ambiental mais conectada à defesa da caatinga do que a apicultura. Começando pelo fato de que, diferente da rapadura, um doce tipicamente regional e que faz parte da memória do sertanejo, hoje produzido mais de açúcar do que do caldo da cana-de-açúcar, o mel ainda não pode ser produzido sem se contar com flores de onde as abelhas coletam laboriosamente o néctar e o pólen como principais matérias-primas para a produção de mel, cera, própolis e de uma série de produtos encontrados nos apiários.
Desta feita, parece lógico que a apicultura é, do ponto de vista de negócios, uma cadeia produtiva que, ao se procurar apoiar o produtor, o que processa, o mercado interno e externo, todos têm a ganhar. Não se faz necessário inventar políticas de reflorestamento quando se sabe que a maioria delas, até o presente, foi fadada ao completo insucesso por uma lógica clara. Dificilmente, sem contar com a irrigação, uma espécie consegue sobreviver a um período seco que dura entre oito e nove meses, a estação sem chuvas da região na maioria dos anos.
As abelhas sem ferrão
Dentro do encantador universo das abelhas, existem dois grupos distintos: as que possuem ferrão e as que não contam com este membro anatômico, conhecidas como melíponas ou abelhas nativas. Até por não serem agressivas na defesa de suas colmeias, as melíponas merecem um tratamento especial e deveriam ser objeto de programas específicos de manejo, crédito, investimento, capacitação, uso de seus produtos e educação ambiental. Destacam-se no Semiárido, entre dezenas de espécies, a uruçu, a mandaçaia, a jandaíra, a manduri e a abelha-canudo. O mel desse conjunto de abelhas é conhecido por suas propriedades medicinais e cosméticas, não sendo à toa que seu preço de mercado varia entre cinco e dez vezes mais caro do que o mel das abelhas com ferrão, que já é um produto ímpar e intensamente empregado na culinária regional e um produto de exportação extremamente valorizado, destacando-se o estado do Ceará como principal exportador.
Apesar da importância das melíponas ser posta em qualquer fórum ou ambiente de discussão, a produção científica, que representa o esforço destinado ao conhecimento, à tecnologia e à inovação das espécies e seus produtos, é escassa Ao se tentar minerar informações sobre as melíponas, há de se destacar que a maioria da literatura disponível foi gerada nos estados do Sudeste e Sul do Brasil.
Política ambiental e agregação social
Recentemente tive a oportunidade de acompanhar alguns eventos relacionados a arranjos produtivos locais, destacando-se a apicultura e a meliponicultura, o último deles, ontem, no município de Verdejante, Sertão Central de Pernambuco. É de causar admiração ver a dedicação de um grupo de abnegados que investem o tempo em colaborar com as associações de apicultores, organizar eventos, agregar esforços. No caso deste encontro, em uma das apresentações foram listadas nove instituições federais e estaduais que têm uma agenda voltada à apicultura, mas ainda mais relevante é ver no semblante das mulheres e dos homens que se dedicam à atividade a certeza de que estão fazendo algo correto, em benefício do meio ambiente e da sociedade, e que, na maioria dos casos, o fator financeiro vem a seguir. Não é em hipótese alguma a força que faz manter este exército de apicultores do sertão de Araripina, no Sertão do Araripe, à Tamandaré, na Mata Sul.
O interessante é que, entre as principais cadeias produtivas que fazem o agronegócio do Agreste e Sertão, poucas são as pessoas que conseguem identificar a apicultura e a meliponicultura como algo diferenciado. Em termos de organização, não se discute. É comovente ver o caráter solidário dos produtores de mel. Sem pieguice, há de se crer que, lidando com espécies que se caracterizam pelo trabalho cooperativo, eles também tenham aprendido a estarem juntos nos desafios e nas oportunidades.
Uma iniciativa em ascensão.
O altruísmo é característico de pessoas boas e sãs, mas é importante deixar claro que milhares de mulheres e homens que se dedicam a esta causa nobre, a produção de mel e, como principal derivação, a defesa da caatinga, merecem uma vida digna e que seus esforços sejam reconhecidos e devidamente remunerados. Neste evento de Verdejante, que contou com um grupo de colegas do Banco do Nordeste que tiveram a oportunidade de mostrar o que é um programa específico de apoio creditício ao pequeno e médio produtor, o Agroamigo, com mecanismos de juros negativos, saldando-se o empréstimo no tempo negociado, o esforço de educação ao crédito e o aproveitamento de oportunidades de algumas políticas públicas ainda não foram devidamente assimilados, merecendo um esforço especial dos governos estaduais, municipais, cooperativas e associações para o fato de que há uma linha de apoio em que não se fala em Selic ou em juros de cartão de crédito ou de agiotas, mas em uma modalidade em que um empréstimo de vinte mil reais pode ser saldado com o pagamento de doze mil.
Como alguém diretamente ligado à agricultura, devo admitir que o papel das abelhas na produção agrícola é de fundamental importância, mas o papel que exercem na construção de uma sociedade mais saudável, bem alimentada e preservando a natureza é irretocável. Voltei de Verdejante contente com o que presenciei e otimista pelo que, passo a passo, está sendo construído no Nordeste profundo.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST