Facebook jornal do sertão Instagram jornal do sertão Whatsapp jornal do sertao

Pernambuco, 30 de abril de 2026

Agropecuária

Manejo da palma forrageira, nossa Maria bonita

Resistência e adaptação ao semiárido

Postado em 02/04/2026 13:47

Colunista

Costumo dizer que o programa de melhoramento genético da palma forrageira, liderado pelo engenheiro agrônomo Djalma Cordeiro dos Santos, um pesquisador da Estação Experimental de Arcoverde, é a mais importante iniciativa técnica para o Nordeste semiárido dependente de chuvas. O grande teste se deu durante o ciclo de seca entre 2012 e 2018, coincidindo com a identificação da cultivar Orelha de Elefante Mexicana como resistente à cochonilha do carmim, no banco de germoplasma instalado em Arcoverde, doado pela Universidade de Chapingo, México, em um gesto magnânimo do Prof. Claudio Flores, a partir da interação mantida com o então presidente do IPA, Dr. Júlio Zoé de Brito.

A negociação da chegada de uma coleção contendo quase trezentos acessos se deu entre 1995 e 1996. Lembro bem que a chegada de um contêiner de raquetes de palma provenientes do México chegou em Recife ao final de 1996. O IPA contou com o expedito trabalho da equipe técnica da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, localizada em Brasília e responsável pela autorização de entrada de material biológico no país. A recepção se deu no início de 1997, uma das coleções e a única que persistiu, instalada na Estação Experimental de Arcoverde.

Logo após ocorreu a disseminação incontrolada do inseto cochonilha do carmim, responsável pela devastação da cultivar Palma Gigante, até então a mais importante em cultivo em todo o Nordeste. A partir deste episódio, deu-se uma corrida louca para se descobrir como controlar e eliminar as cochonilhas que literalmente destruíram as plantações, deixando os produtores sem a única opção estratégica de convivência com as secas.

Foi o trabalho persistente de pesquisadores do IPA, da UFRPE, da Embrapa Semiárido, em Pernambuco, que levou, a partir da avaliação do banco, a haver sido detectado um material que seria a redenção da pecuária do Agreste Sertão. Hoje, coincidindo com a introdução há cem anos por duas exportações de palma a partir da Califórnia pelos empresários Hermann Lundgren, em Pernambuco, e Delmiro Gouveia, é que podemos comemorar a vitória da palma sobre descrenças iniciais e esta contribuição épica de um IPA cujo primeiro trabalho técnico sobre a cultura foi publicado em 1957.

Até o México tem aprendido com o Brasil

Em 1995, o então deputado Ricardo Fiuza esteve com o governador Miguel Arraes, repassando-lhe o que viu em uma recente viagem ao México, informando que lá o plantio destes cactos era feito de modo diferente, extremamente adensado, e notando que a palma era um forte componente da alimentação humana. Fiúza instou o governador a incentivar o IPA a iniciar um projeto de pesquisa e difusão sobre o tema. Algo tão bem-sucedido que, em muito pouco tempo, o termo “palma adensada” passou a fazer parte do dia a dia dos produtores sertanejos.

Em tempos de mudanças climáticas, por incrível que pareça, o México não deu continuidade ao trabalho do Dr. Flores e há pouco tempo estava construindo a alternativa de repatriar o germoplasma, o que seria atitude digna das instituições brasileiras em atender prontamente o pedido de quem tão gentilmente ajudou. O fato é que, em terras astecas, foi observado o valor estratégico da palma como forragem, o que não era há bem pouco tempo.

A palma como produto de mercado

A seca a qual nos referimos deixou sacrifícios, mas ensinou muito ao nordestino. A grande lição é que não se deve pensar em criar animais ruminantes sem que se conte com  uma área de palma forrageira tratada como uma cultura comercial e não como uma reserva para os anos mais difíceis. O binômio palma adensada e a cultivar orelha de elefante mexicana permitiram a retomada do plantio da palma forrageira no Nordeste, mas também no Centro-Oeste e Sudeste, tornando-se uma espécie conhecida nacionalmente. A EPAMIG – Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, por exemplo, organiza há quatro anos um seminário denominado Palmatec, que se tornou um evento indispensável para quem lida com a palma, seja como professor, pesquisador, produtor ou agente de fomento.

No Agreste de Alagoas, a palma miúda, do gênero Nopalea, se tornou uma commodity Ao trafegar pelo eixo Oeste-Leste de Alagoas ou entre Garanhuns e Palmeira dos Índios, não raro se encontram caminhões de palma sendo transportados para produtores das bacias leiteiras dos dois estados.

Como prevenção, é melhor plantá-la

Ressalte-se que a palma é uma cultura considerada semiperene. Ela é plantada para que se possa explorar ao menos por dez anos. O principal sistema de venda de palma em por área, ou em pé, como se diz, permite ao comprador arrancá-la pela base, eliminando o palmal. Este é uma prática que deve ser evitada uma vez que uma das principais vantagens da cultura é vê-la colhida a cada dezoito meses ou em período menor, dependendo do manejo. Nos últimos meses, antes das chuvas que estão ocorrendo bem no Sertão, o comércio de palma se intensificou e com ele a erradicação das áreas de cultivo.

Considerando que há alerta da intensificação do aquecimento das águas do Oceano Pacífico e a instalação do fenômeno El Niño poderá ocorrer a partir de julho um período seco de maior magnitude resultando na demanda acelerada por opções de alimentos para os rebanhos e correndo-se o risco de encontrar vastas áreas cultivadas sem esta opção. Fica o alerta para que a colheita da palma deve parar nos cladódios primários, deixando a planta com reserva e seu sistema radicular intacto o que propicia a rápida brotação de novas raquetes e uma colheita tão boa quanto a anterior desde que os tratos culturais envolvendo adubação, aplicação de matéria orgânica e, irrigação. A palma é um ser extraordinário para o agreste e sertão, mas deve ser tratada como tal para retribuir aquilo que nela se investe.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, PE, 25 de março de 2026