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Pernambuco, 09 de abril de 2026

Agronegócios

Os sistemas convencionais de agricultura e a segurança alimentar 

O papel da agricultura familiar na segurança alimentar

Postado em 09/04/2026 14:53

Colunista

Há questionamentos constantes sobre o papel de programas sociais dirigidos ao apoio às famílias de baixa renda e, especificamente, contra o programa Bolsa Família. Este programa, que tem sua gênese no segundo mandato do governo Fernando Henrique, foi consolidado no governo Lula e volta a ser objeto de atenção especial em fazer com que o Brasil voltasse a sair do temido mapa da fome das Nações Unidas. Vale esclarecer que o valor investido neste programa, de aproximadamente 160 bilhões de reais, abrangendo ao redor de dezenove milhões de famílias brasileiras, é significativamente inferior ao que o país paga de juros da dívida pública das três esferas de governo: federal, estadual e municipal, que somam um bilhão e trinta e seis bilhões de reais, estimados para 2026.

Os recursos alocados ao programa são majoritariamente revertidos em aquisição de alimentos e bens básicos nos milhares de municípios em todo o país, com uma maior expressão no Nordeste e no Norte. Os resultados são surpreendentes e um dado importante solidifica a importância social da iniciativa. Durante a seca que abateu a região semiárida do Brasil entre 2012 e 2018, não se registrou nenhum caso de saque ou de invasões às feiras e mercados públicos, supermercados e toda sorte de comércio nos casos anteriores à implantação desse benefício.

O beneficiário principal são as famílias assistidas, mas a seguir, vem o comércio de alimentos proveniente da agricultura familiar e o pequeno comércio nas cidades do interior, ambiente em que 90% dos valores repassados são dirigidos. Priorizando-se o dueto crédito e consumo, obviamente que automaticamente se fortalece a base produtiva, e é neste cenário que o Brasil, ainda necessitando de erradicar a fome de parte de sua população, continuará operando nas próximas décadas. Também vale a pena chamar a atenção para que, mesmo no país com maior PIB do planeta, os Estados Unidos, embora não aquele que apresenta o maior poder de compra, a pressão sobre os programas de apoio aos necessitados e à saúde vem causando um aumento substancial de miséria, pessoas sem-teto e violência urbana e rural. Coisa que a grande imprensa de lá e de cá evita mostrar, insistindo em mostrar os ganhos nas bolsas de valores, mas escamoteando as perdas que, nos últimos meses, têm sido constantes, principalmente no que se refere às ações de empresas de alta tecnologia, ou hightechs.

O futuro do agronegócio está assentado na pequena e média propriedade

A segunda questão, considerando que o agronegócio comercial ou aquele associado à agricultura comercial de exportação é importante para o país e sem que o Brasil tivesse se transformado em um dos principais atores no cenário mundial de comércio de alimentos, a situação da economia seria de extrema dificuldade, de onde se espera obter os alimentos destinados à mesa de milhões de brasileiros?

Aqui também não é necessário ser um especialista em produção agrícola para se ver claramente que, pela diversidade, valor nutricional, tradição e preferência, o alimento consumido pela maioria dos brasileiros sai da pequena e média propriedade rural. Sendo assim, também fica claro que nos próximos planos-safra, o valor destinado a este segmento deve ser elevado, bem como o esforço em se ver milhões de pequenos imóveis rurais se tornarem definitivamente unidades de negócio. Chegou o momento de trazermos para o centro do debate o papel da agricultura familiar e não considerar como algo periférico e voltado ao apoio de produção de subsistência nas regiões mais deprimidas do país.

Reafirmando a caatinga como um ativo estratégico

Para o ambiente regional, um debate desta natureza não pode deixar de trazer a preservação da caatinga para o centro da questão. Nos últimos meses, tem-se testemunhado um trabalho louvável da superintendência do MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário, em Pernambuco, priorizando a ação territorial e as cadeias produtivas representativas de cada território. Muda-se a lógica de se debruçar apenas nos grandes números e passa-se a entender melhor o que é importante e faz a diferença no Sertão Central, no Sertão do Araripe ou no Sertão do Pajeú, por exemplo. Dentre as discussões das quais tive oportunidade de participar, vale chamar a atenção para três exemplos: o da cadeia produtiva do café nos brejos de altitude, destacando-se as microrregiões de Taquaritinga do Norte, Triunfo, Saloá e Garanhuns/Brejão; a caprinocultura de leite em um encontro em que estiveram presentes dezenas de lideranças do Agreste, em Alagoinha; e, recentemente, um evento sobre a cadeia da apicultura e meliponicultura em Verdejante.

Paralelamente à sistematização por onde começar em termos das cadeias produtivas eleitas, permanece a questão sobre o que fazer do patrimônio biológico da caatinga, que é sistematicamente abordado em um cenário de devastação, descaso, negligência e negacionismo. Fala-se do desmatamento, mas não se vê uma nota deixando claro quem devasta, por que devasta e como se evitar. Raras são as iniciativas que apontam para aqueles que defendem, a seu modo, a floresta do semiárido. Considera-se a apicultura e meliponicultura, por exemplo, como atividades com baixa expressão econômica, quando hoje é um dos sistemas mais eficientes de renda e preservação ambiental que se tem e, ainda mais raro, pouco se ouve falar da riqueza depositada no Semiárido, quando aos genes responsáveis pela adaptação às mudanças climáticas em curso para a produção de alimentos em todo o planeta e, menos ainda, de como este patrimônio pode se transformar em riqueza para as populações que lá habitam.

O reposicionamento da Embrapa é salutar

Recentemente, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa resolveu mudar a abordagem eminentemente tecnicista que havia sido adotada em gestões passadas e deixar claro que há uma agricultura e um agricultor diferentes, além da grande produção. Que há sistemas de produção alternativos que merecem ser levados a sério e que o aparato tecnológico da instituição, algo fenomenal em qualquer país, mudará a abordagem e passará a investir em ciência aplicada aos sistemas convencionais, mas que não fazem parte da corrente majoritária dos que veem o agronegócio apenas a partir dos milhões de toneladas de grãos produzidos, do valor exportado e de quanto isto tem impactado no desenvolvimento regional do país, embora nos últimos dois anos tenha que se lidar com uma praga de falências e recuperações judiciais fabricadas. Esta é uma oportunidade única de fortalecer o papel da agricultura familiar como protagonista de uma nova dinâmica no campo.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, PE, 08 de abril de 2026.