
A pesquisa agropecuária de Pernambuco está sob risco
O que passou na cabeça do governador Carlos de Lima Cavalcanti?
Postado em 23/04/2026 14:40

Sempre me questionei sobre o que passou na cabeça de um aristocrata, ligado ao setor sucroenergético, em 1935, fundar o IPA, então Instituto de Pesquisa Agronômica, em Pernambuco. Também não sei como ele foi identificar o jovem pesquisador Álvaro Barcelos Fagundes, de origem gaúcha, mas que se encontrava no Rio de Janeiro após concluir seu curso de mestrado em microbiologia de solos na Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, e convidá-lo a assumir a presidência da instituição.
Uma tarefa nada fácil, embora com um arrojo inimaginável para a época, quando, além do Dr. Álvaro, o IPA iniciou com 12 pesquisadores estrangeiros, contratados para dar vida a esta entidade. Um pouco depois mudou a configuração política do estado, seu presidente foi demitido e provavelmente a maioria dos pesquisadores estrangeiros que com ele vieram fundar uma casa de ciência nos trópicos.
Durante muito tempo, o IPA se instalou na UFRPE, em uma infraestrutura minúscula, até ser transferido para a Av. San Martin, no Bongi, e a posterior negociação com a Chesf, que, em troca de uma área, construiu a sede da instituição, que persiste até hoje.
Estive por muito tempo nesta casa e hoje, como professor da UFRPE-UAST, em Serra Talhada, quanto mais ando pelo Agreste e Sertão de Pernambuco e do Nordeste, mais fico impressionado com as contribuições que o IPA, em cooperação com a UFRPE, deu à agropecuária regional. Poucos sabem que a tecnologia de produção em massa do fungo Metarhizium, responsável pelo controle da cigarrinha da cana-de-açúcar, foi desenvolvida pela pesquisadora Maria de Lourdes Aquino, uma dentista, oriunda da interação com o Departamento de Micologia da UFPE, liderado pelo Prof. Chaves Batista, também professor de fitopatologia da UFRPE. Uma tecnologia que, por si só, demonstra quão importante é o controle biológico de pragas e é usada na área de mais de oito milhões de hectares cultivada com cana-de-açúcar em todo o país.
Não menos impactante, mas de caráter regional, está a consolidação da pecuária leiteira dos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas a partir do melhoramento dos plantéis fruto da disseminação de tourinhos da raça holandesa em leilões organizados pela Estação Experimental de São Bento do Una, que perduraram por muito tempo como a única fonte de melhora genética do gado leiteiro. Ainda hoje a importância desse plantel é notável, bem como a do gado 5/8 holando/zebu, na Estação Experimental de Arcoverde, e do plantel de alta linhagem da raça Guzerá, na Estação Experimental de Serra Talhada.
Ainda em relação à produção animal, o programa de pesquisa com a palma forrageira, cujo primeiro trabalho científico foi publicado em 1957, é, provavelmente, a mais importante iniciativa técnica para o semiárido brasileiro entre tantos outros belos programas. Foi o IPA que segurou a bandeira dos pioneiros Arthur Lundgren e Delmiro Gouveia, que também, a partir de provocação do deputado Ricardo Fiúza, instalou uma série de ensaios demonstrativos sobre o plantio da palma adensada. Foi também o IPA que, após a ocorrência pandêmica da cochonilha do carmim, destruindo os plantios de palma gigante, identificou entre os acessos importados a partir da Universidade de Chapingo, no México, a cultivar Orelha de elefante mexicana, redenção da pecuária do Nordeste e plantada não apenas no Nordeste, mas no Centro-Oeste e no Sudeste.
Não menos importante foi a iniciativa ousada de estabelecer um programa de melhoramento de tomate para indústria e de cebola, atual até hoje, e a partir desses, a tecnologia de produção de sementes de cebola em ambientes tropicais, a primeira e mais bem-sucedida em todo o mundo.
As contribuições não ficam aí; segue-se o que foi obtido com as culturas do feijão-de-corda e feijão-de-arranca, com o sorgo, o milheto, as fruteiras tropicais, a mandioca, que, por incrível que pareça, ainda conta com um banco de germoplasma com aproximadamente 280 acessos na Estação Experimental de Araripina.
Tudo envelhece, inclusive as instituições
A questão que nos traz aqui hoje é o fato de que o quadro de pesquisadores e extensionistas envelheceu, como tudo na vida, e não houve a devida reposição das pessoas. O último concurso ocorreu em 2006. O IPA que já contou com 120 pesquisadores hoje não dispõe de um terço dessa força de trabalho em atividade nos programas de pesquisa. Para completar o estado de alerta, encontra-se em tramitação no STF, isto é, em última instância, uma medida que decide sobre o afastamento compulsório de todos que chegaram à idade de 75 anos. Alguém poderá dizer o que uma pessoa nessa faixa etária pode contribuir, ou não seria a oportunidade de se recolher à casa e gozar os anos que restam?
Em primeiro lugar, se esta medida for implementada no IPA, a instituição deixa de contar com o que de melhor e mais dedicado ela contou em sua história. São vários os programas e estações experimentais que ficarão acéfalos e, consequentemente à deriva. O que ocorrerá com os programas de melhoramento genético de palma forrageira, de cebola, de tomate, de feijão, de sorgo? O que restará de algumas estações experimentais cujos chefes serão sumariamente afastados, como é o caso da Estação Experimental de Araripina e de Caruaru?
E por que as pessoas não vão gozar o repouso de quem tanto trabalhou? Pela simples razão que a maioria não pode sequer arcar com o valor mensal do plano de saúde e portanto têm no vínculo institucional uma forma de continuarem contando com o apoio que deveria ser inegociável para todos aqueles que fizeram dessa instituição uma das mais respeitadas no Brasil e fora dele.
Uma medida extrema adotada pela justiça brasileira
Esta medida não é algo que está sendo decidido agora. Ela começou com o desmantelamento das instituições estaduais de pesquisa e de extensão, a partir dos anos 80, quando parte dos governadores de estado consideraram que, por medida de eficiência administrativa, não necessitava de uma entidade estadual de pesquisa, uma vez que a Embrapa poderia resolver toda a demanda. A Embrapa tem finalidades distintas e deve ser acionada na solução dos grandes problemas nacionais e não com o que ocorre em cada município do país.
Em se consolidando a medida que permite o afastamento de todos os colaboradores com a idade de 75 anos, algumas instituições perecerão, outras sofrerão consequências graves como é o caso da própria Embrapa que apesar de estar concluindo a recepção de 1050 novos servidores, entre pesquisadores, analistas e assistentes de um concurso realizado em 2025, dezesseis anos após o último concurso em que entraram na instituição 1121 colaboradores, dentre esses 700 pesquisadores, deixará de contar com uma elite intelectual e de liderança fundamental à continuidade de vários programas de pesquisa e difusão, bem como na formação doa que passam a integrar a instituição.
O IPA necessita de uma profunda reforma para trazê-lo ao século XXI
A economia de afastar aproximadamente 30 servidores a partir dessa decisão do STF e de todas as instâncias da justiça brasileira não faz sentido. O que a instituição necessita é de renovação, da abertura imediata de um concurso que possa agregar uma boa quantidade de pesquisadores para as estações experimentais e extensionistas para os escritórios locais, além de uma infraestrutura física e, principalmente, de conhecimento que remeta o IPA ao século XXI. Mas, para isto, não se pode deixar de contar com a preciosidade que é o conhecimento de suas lideranças mais velhas, que construíram a casa e sabem do valor que este instituto tem para a agropecuária estadual e do país. Em tempo, revitalizar o acordo de cooperação entre o IPA e a UFRPE é essencial à agricultura pernambucana.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST
Serra Talhada, PE, 22 de abril de 2026