
Produção de grãos na Chapada do Araripe, uma realidade
Um pouco sobre a Chapada e sua agricultura
Postado em 06/05/2026 12:00

A Chapada do Araripe é um planalto que confronta os estados do Ceará, de Pernambuco e do Piauí. Abrange ao redor de um milhão e trinta mil hectares, dos quais 62% da área fazem parte do Ceará, 34% de Pernambuco e 4% do Piauí. A região se caracteriza por latossolos, de textura arenosa ou franco-arenosa, elevada acidez, altitude que varia entre 800 e 980 metros e uma vegetação que, apesar de ser caracterizada como caatinga, denominada carrasco, mais se assemelha à cobertura vegetal do cerrado.
Tradicionalmente, a cultura da mandioca é a mais cultivada, principalmente visando à produção de farinha. Hoje já são várias as fecularias que têm como principal objetivo a produção de amido de mandioca. Nos últimos anos, a parte aérea da mandioca e os demais co-produtos têm se tornado parte de formulação de ração animal e, em alguns anos, têm obtido valores superiores à própria farinha. Coexiste a produção de feijão-de-corda e do milho, mas com pouca expressão econômica. Este platô de solos profundos funciona como uma esponja e as águas que percolam por dezenas de anos são as principais fontes de abastecimento das nascentes que pendem para a região do Cariri, no estado do Ceará.
Para o sul, no estado de Pernambuco, estão jazidas de gipsita e gesso. Da gipsita, até pouco tempo atrás, tinha-se como principal produto o gesso empregado na construção civil e na fabricação de placas. Este processo demanda a calcinação da pedra a temperaturas acima de trezentos graus centígrados, tendo como principal fonte de energia a vegetação nativa. Como é bem sabido, a principal fonte do desmatamento da caatinga do sertão do Araripe, do sul do Piauí e do Ceará é da responsabilidade das indústrias do polo gesseiro, que até o momento não conseguiram desenvolver um modelo de negócios menos agressivo ao uso da lenha proveniente, em primeiro lugar, do desmatamento ilegal.
As sementes foram plantadas há trinta anos
A avicultura de Pernambuco é uma das principais cadeias produtivas de seu agronegócio. Lembro bem que, em 1995, como secretário de Agricultura de Pernambuco na gestão do governador Miguel Arraes, fui procurado por alguns empresários e dirigentes da Associação de Avicultores de Pernambuco – AVIPE, dentre esses seu presidente à época, o empresário Edgar Navais, o empresário Lula Malta e o amigo Nilo Santiago, então secretário-executivo da instituição, para discutir duas pautas: a inserção da carne de frango e de ovos na merenda escolar e a produção de grãos de soja, milho e sorgo em Pernambuco, de modo que diminuísse a dependência da aquisição em outros estados ou no exterior. O governador Arraes recebeu a diretoria da Avipe e dali saiu com a incumbência de, junto à Ceasa, empresa parte da Secretaria de Agricultura, viabilizar a inclusão dos produtos da avicultura na merenda escolar e nas compras governamentais do estado. Algo inédito para a época e que durante muito tempo foi lembrado pelos avicultores do estado.
Em relação ao segundo item, devido à minha familiaridade com a Chapada, onde estagiei ainda como estudante de agronomia, sugeri a instalação na Estação Experimental do IPA de duas unidades demonstrativas, uma com sorgo granífero e outra com soja. Essas unidades foram instaladas em 1996 com esforço da equipe do IPA, liderada pelo presidente Júlio Zoé, seu diretor de produção, José Peroba Santos, o coordenador do programa de Cereais, José Nildo Tabosa, e pelo incansável chefe da Estação do IPA em Araripina, o engenheiro agrônomo José Alves Tavares. Próximo à colheita, organizou-se uma visita dos empresários da Avipe à Chapada. Não havia voo comercial entre Recife e Juazeiro do Norte; o trajeto de Recife a Araripina foi feito em um ônibus fretado. A experiência foi um sucesso, como demonstração do potencial produtivo da chapada. Chegou-se a produzir ao redor de 3,6 toneladas de sorgo e 3,0 toneladas de soja por hectare. As iniciativas nem sempre são continuadas, mesmo dentro do mesmo governo; imagine-se em gestões subsequentes que, em boa parte dos casos, tentam provar o fracasso das administrações anteriores. Os trabalhos não foram à frente, porém a ideia foi semeada.
Revisitando a região
No primeiro semestre de 2021, em plena pandemia da Covid, os empresários Giuliano Malta e Josimário Florêncio, então presidente e vice-presidente da Avipe, me convidaram para acompanhá-los em uma visita à região. Os preços do milho ameaçavam a competitividade da avicultura pernambucana e algo deveria ser feito em termos de produção. Havia iniciado a expansão da produção de milho no Agreste Meridional e Zona da Mata de Pernambuco, mas procuravam alguma região onde uma agricultura de escala pudesse ser desenvolvida. Josimário, da empresa Ovo Novo, sediada em Caruaru, adquiriu um imóvel no segundo semestre de 2021 entre Exu, Pernambuco, e Santana do Cariri, Ceará, e começou a plantar milho a partir do ano agrícola de 2022. Teve, como todo pioneiro que quebra tabus, preconceitos, um status quo que tinha como dogma a falsa intocabilidade da caatinga, quando há muito havia sido alterada, e o fato de que as produtividades da mandioca, do feijão e do milho eram muito baixas, mesmo para o padrão local. Para se ter uma ideia, até muito pouco tempo atrás, o uso do calcário e do gesso era algo desconhecido na agricultura da Chapada, mesmo que suas fontes estivessem a distâncias inferiores a cinquenta quilômetros. Algo quase inconcebível.
A prova dos nove
A persistência do grupo, enfrentando anos de seca e agregando valor, buscando tecnologia e abraçando o conceito de uma agricultura moderna baseada na construção do solo, por meio de sua correção, no uso de microrganismos benéficos que promovem a solubilização de nutrientes, outros que agem como controladores de pragas e doenças ou como promotores de crescimento, fez com que, ao longo dos últimos seis anos, fosse desenvolvido um sistema de produção baseado naquilo que existe de mais sustentável, que chegou ao ponto de estarem apostando na produtividade superior a 100 sacas de 60 kg por hectare, em 2026.
Na próxima quinta-feira, dia 7 de maio de 2026, haverá um Dia de Campo na Fazenda Ovo Novo em Exu-Santana do Cariri. A iniciativa fortalece a agricultura comercial e familiar da região quando demonstra a importância de se prover tecnologia aos pequenos e médios produtores, até então reféns de práticas não apenas antiquadas, mas que freavam o aumento de produtividade da mandioca e das demais culturas plantadas na Chapada. Conecta de forma definitiva os estados do Ceará e de Pernambuco ao sistema produtivo de grãos do Brasil; robustece a avicultura e a indústria de bebidas e rações de Pernambuco e do Ceará, uma vez que passa a ter um fornecedor além do estado de Sergipe, do cerrado do Piauí e do que produz o Agreste de Pernambuco, além de demonstrar que há como se realizar uma agricultura moderna em pleno atendimento à legislação ambiental do país e dos estados.
Não são poucos os atores envolvidos neste roteiro, mas gostaria de expressar minha admiração e respeito pelo caráter empreendedor e visionário do Sr. Josimário Florêncio e seu filho, Sr. Marinho Florêncio. Eles têm feito o dever de casa e cabe a todos que vivem da agricultura deixar claro que há tecnologia disponível, além do que pode ser aprimorado no âmbito de uma agricultura menos dependente de insumos industriais, mas com padrões de produtividade e sustentabilidade social e ambiental que redesenharão o mundo rural do Semiárido.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST