
Crédito fácil muda padrão de consumo e acende alerta para endividamento no Brasil
Cresce o uso de parcelamentos no dia a dia, enquanto especialistas apontam riscos para o orçamento das famílias e impactos na economia.
Postado em 14/05/2026 09:37
O avanço da oferta de crédito no varejo tem transformado o comportamento de consumo no Brasil. Parcelamentos antes restritos a bens de maior valor passaram a fazer parte de compras cotidianas, como supermercado, combustível e farmácia, indicando uma mudança relevante na dinâmica financeira das famílias.
Segundo a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, o crediário vem sendo utilizado não apenas como ferramenta de planejamento, mas como complemento de renda. “Estamos vendo muitas pessoas utilizando o crédito para pagar despesas do orçamento mensal”, afirma.
Esse movimento acende um alerta: o uso recorrente do crédito para despesas básicas pode comprometer a saúde financeira do consumidor e impactar diretamente o nível de endividamento no país.
O crédito continua sendo um importante impulsionador da economia, especialmente na aquisição de bens duráveis. No entanto, o uso indiscriminado pode gerar distorções no orçamento das famílias.
Para a economista Katherine Hennings, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a facilidade de acesso ao crédito está associada ao aumento da chamada “ansiedade de consumo”.
“O consumidor é constantemente estimulado a antecipar compras, seja pela publicidade tradicional ou pelas redes sociais. O crédito viabiliza esse comportamento, mas muitas vezes sem o devido planejamento”, explica.
Dados recentes mostram a dimensão do problema. Segundo o Banco Central, a inadimplência das famílias soma R$ 238,5 bilhões. Já a Serasa Experian aponta que 81,7 milhões de brasileiros estão inadimplentes, sendo a maioria de baixa renda.
De acordo com o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o consumidor ainda prioriza o valor da parcela em vez do custo total da dívida.
“O brasileiro compara preços no momento da compra, mas não faz o mesmo quando assume um financiamento. Isso aumenta o risco de comprometimento excessivo da renda”, destaca.
Outro ponto crítico é a percepção equivocada sobre limites de crédito. Para a economista Isabela Tavares, o cartão de crédito ainda é visto como extensão da renda — o que não corresponde à realidade.
“O limite disponível não representa ganho. Ele precisa ser pago com a renda mensal. Confundir isso é um dos principais fatores de endividamento”, afirma.
Especialistas convergem na necessidade de ampliar a educação financeira como estratégia para reduzir o endividamento estrutural. Iniciativas como plataformas digitais e programas de renegociação ajudam, mas são consideradas soluções de curto prazo.
Para o planejador financeiro Carlos Castro, o desafio é estrutural: “Mais do que renegociar dívidas, é preciso evitar que o consumidor volte ao mesmo ciclo de endividamento”.
O cenário atual revela um paradoxo: enquanto o crédito sustenta o consumo e movimenta a economia, seu uso desorganizado pode comprometer o crescimento sustentável. Para o setor financeiro e o varejo, o desafio está em equilibrar expansão de crédito com responsabilidade e educação do consumidor.