
O agronegócio, o crescimento das safras e o protecionismo
Cinco décadas de diversificação e crescimento
Postado em 14/05/2026 18:20

O Brasil está comemorando o fato de haver mais do que duplicado a produção de grãos e oleaginosas de 2010 a 2025. O país produzia 149,8 milhões de toneladas de grãos em 2010, colhe uma safra de 346 milhões de toneladas em 2025. Uma proeza fenomenal para um país acostumado a ter seus planos frustrados e sua economia em um eterno efeito sanfona com níveis de crescimento oscilantes e acanhados.
Não é apenas o volume que causa atenção, mas o fato de que o portfólio de produtos vendidos no exterior vai muito além do tradicional açúcar e café, e o número de países parceiros do comércio de matérias-primas e alimentares e industriais provenientes da agricultura e pecuária supera cento e trinta. A maior prova de maturidade da economia agrícola nacional se deu desde 2025, quando os Estados Unidos impuseram sanções unilaterais em níveis jamais considerados para países amigos, 50% aos produtos brasileiros. Logo que este sistema de impostos foi posto em prática, por incrível que pareça, as exportações brasileiras excederam os meses em que o comércio ainda atendia às regras e acordos fixados. Isto é, a diminuição de exportações para a América trouxe novos compradores que facilmente substituíram o mercado americano.
No momento, apesar de as sanções terem sido revogadas, problemas geopolíticos mundiais gerados pelas opções americanas, como a guerra da Ucrânia e a guerra do Irã, desestabilizaram os preços de combustíveis e derivados, levando a inflação americana a níveis quase que fora do controle para a população mais humilde. O preço da carne e do café nas gôndolas dos supermercados não retornou ao normal, e o preço da gasolina testemunha uma elevação de 45% nos postos na maioria dos estados dos Estados Unidos, desde março de 2026.
Os investimentos em pesquisa e educação
Para que o país tenha se transformado na potência em produção de alimentos, algumas condições foram fundamentais, além da coragem do povo gaúcho e paranaense em se deslocar em direção ao norte, abrindo áreas de produção de soja, milho, algodão e criação de gado. O investimento público em educação, refletido na democratização do ensino médio e superior no interior do país desde 2005, e, com isto, os cursos de pós-graduação em ciências agrárias, nos mostram um país com mão de obra qualificada capaz de responder à demanda do agronegócio e da agricultura familiar em todas as regiões.
Um segundo pilar dessa mudança se deu com os investimentos em pesquisa e inovação, notadamente desde a criação da Embrapa em 1973. A instituição se consolidou como um dos mais importantes centros de conhecimento do Sul global, com importância comparada ao ICAR – Conselho Indiano de Pesquisa Agrícola, da Índia, e à CAAS – Academia Chinesa de Ciências Agrárias. A relevância dessa instituição se reflete no fato de que, em 2026, após dezesseis anos do concurso anterior realizado em 2009, contratou 1.050 pesquisadores e técnicos para seus quadros.
Neste cenário, há uma lacuna que impediu um desenvolvimento ainda mais avançado: a quase destruição das instituições estaduais de pesquisa agropecuária. Os governos estaduais, extremamente mal assessorados, consideravam que os centros de pesquisa da Embrapa seriam suficientes para prover os estados e municípios das demandas tecnológicas locais. Além deste equívoco, a maioria investiu na redução ou sucateamento de seu sistema de extensão rural e assistência técnica. Esses dois movimentos têm reflexos diretos na pequena e média propriedade, considerada como agricultura familiar, que deixou de contar com o apoio técnico necessário para elevar seu padrão tecnológico e poder melhor aproveitar políticas públicas a elas dirigidas, como o Plano Safra, o Bolsa Família e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que se traduz diretamente em aumento do consumo de alimento pelas camadas mais vulneráveis da população.
Ainda há tempo de correção, uma vez que são aproximadamente quatro milhões de imóveis rurais com área inferior a 10 módulos fiscais que podem ser objeto de um programa massivo de investimento e capacitação.
E o comércio exterior, como tem reagido?
Uma análise rápida no preço da soja paga pelo mercado chinês, principal cliente do Brasil, indica que, entre 2020 e 2025, o valor da tonelada variou em média de 400 a 530 dólares, respectivamente, sendo que o preço da soja não transgênica é pago a 630 dólares por tonelada. Esse número é um indicativo da valorização das commodities agrícolas e, em particular, reflete o domínio do mercado chinês como principal receptor dos cereais e carnes da América do Sul, notadamente do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Recentemente, uma liderança do agronegócio brasileiro veio a público apresentando um valor de 180 bilhões de reais a serem destinados a renegociações e perdão de dívida das grandes empresas do agro. A partir dos indicadores, trata-se de uma fatura que merece melhor esclarecimento. Não dá para o agronegócio brasileiro não ser parte do sistema econômico vigente, o capitalismo. Neste modelo, um dos principais, senão o mais importante fundamento, é a honra ao crédito. Isto é, pagar os empréstimos públicos ou privados é algo inquestionável para uma economia de mercado. Aqui, durante muito tempo, esta regra deixou de ser aplicada. Nos últimos dois anos, a situação se exacerbou com o crescimento quase que exponencial de falências e recuperações judiciais de empresas do agro em estados que têm se caracterizado por números expressivos de produção, como é o caso de Goiás.
O governo, de forma atabalhoada, apresentou uma contraproposta de 80 bilhões de reais para esta demanda. Para o bem do agronegócio nacional e para a economia do país, esses números merecem ser auditados. O que se pediu provavelmente equivale ao orçamento geral da Embrapa para um período de quarenta anos. Isto é razoável, pouco ou não passa de mais uma manobra que visa a famosa máxima de se contar com duas safras ao ano. Uma a que se colhe a segunda que não se paga?
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST