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Pernambuco, 21 de junho de 2026

Agronegócios

O El Niño e a guerra pela água no Semiárido brasileiro

O fenômeno El Niño, por sua importância, dimensão e abrangência, vem sendo um dos assuntos mais importantes nas mídias, na academia, em alguns ambientes de decisão e na boca a boca das pessoas comuns.

Postado em 21/06/2026 13:02

Colunista

Boa parte das pessoas que vivem em regiões litorâneas ou no centro e sul do país não conseguem imaginar um Nordeste sem a indústria das secas ou capaz de decidir sobre seu destino.

Entre a imprensa e alguns especialistas, os cenários desenhados parecem inspirados no filme Mad Max, mostrando uma sociedade violenta, egoísta e vingativa que, com seus tiranos, alimenta uma guerra pelas últimas fontes de água, o mais importante bem, já que o petróleo perdeu sua relevância naquele momento. O Nordeste brasileiro testemunhou alguns momentos que oscilavam entre a ficção e o mais desumano dos tratamentos. Vamos citar dois desses diretamente relacionados ao Sertão e aos sertanejos. O primeiro foi a Guerra de Canudos, entre 1896 e 1897, quando um líder de caráter messiânico, Antônio Conselheiro, com sua peregrinação e pregações, conseguiu despertar o sentimento de liberdade, independência e fé que estava escondido na alma de milhares de andarilhos e esquecidos do mundo. Belo Monte, popularmente conhecida como Canudos, no Sertão da Bahia, chegou a ter uma população de 25.000 habitantes, antes do aniquilamento total.

O segundo, não menos trágico, testemunho da história do Sertão refere-se aos campos de concentração, conhecidos como currais do governo, que, a partir dos relatos da seca de 1915, inspirou Raquel de Queiroz a escrever um dos livros mais importantes da cultura nordestina, o Quinze. O mesmo movimento, de modo ampliado, foi registrado nos anos 1932 e 1933, coincidentemente o período em que Lampião, Maria Bonita e seu bando causavam terror e alvoroço nos sertões de Alagoas, Pernambuco e do estado da Bahia.

A partir de crônicas, revisões, discussões, mesas-redondas, textos impressos e na mídia digital, a região está prestes a se defrontar com algo similar ao que ocorreu cem anos atrás. É razoável alguém considerar que essas ameaças não retornarão jamais; entretanto, é bom lembrar que, no início da década, uma pandemia de dimensões mundiais deixou um rastro de aproximadamente 750.000 mortos no Brasil, sem que nenhum culpado por omissão ou prevaricação tenha sofrido alguma punição ou danos às carreiras que mais se assemelham à folha corrida da polícia, como s falava antigamente.

Foi feito um teste, perguntando-se ao aplicativo Gemini, da Google, a seguinte questão: como se daria a guerra pela água no semiárido brasileiro a partir de um super El Niño? A resposta, transcrita a seguir, parece sair de um filme, detalhando o passo a passo da tragédia do nosso Mad Max tupiniquim, mas com uma boa dose de realismo fantástico.

“A guerra pela água no Semiárido brasileiro sob o efeito de um “Super El Niño'”não ocorreria necessariamente como um conflito armado tradicional, mas sim como uma crise humanitária, jurídica, política e socioeconômica extrema, marcada por disputas violentas localizadas e colapso do abastecimento. O fenômeno do El Niño bloqueia as frentes frias e reduz drasticamente as já escassas chuvas da região, empurrando o ecossistema e as cidades para o limite absoluto.

O cenário de conflito se desenvolveria em várias frentes estruturais:

1. Conflito por território e recursos (água vs. Produção)

* Hidronegócio contra Agricultura Familiar: Grandes polos de fruticultura irrigada (como os do Vale do São Francisco) e indústrias disputariam o volume morto dos reservatórios com os pequenos agricultores. A prioridade legal de uso da água para consumo humano e dessedentação de animais (prevista na [Lei das Águas](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9433.htm)) seria fortemente pressionada pelo poder econômico.

* Saque de Adutoras e Caminhões-Pipa: Canais de transposição, adutoras e carros-pipa se tornariam alvos de saques por comunidades desesperadas. A segurança privada e as forças policiais seriam mobilizadas para proteger a infraestrutura hídrica.

2. Colapso urbano, migração forçada e volta aos campos de concentração

* Êxodo da Seca Modernizado: Sem água para subsistência, ocorreria uma nova onda de migração em massa do campo para as periferias das grandes cidades nordestinas e para o Sudeste, superlotando serviços públicos.

* Racionamento Extremo nas Cidades: Centros urbanos do interior entrariam em colapso total de abastecimento. A dependência exclusiva de carros-pipa inflacionaria o preço da água, transformando-a em um artigo de luxo acessível apenas para as classes mais abastadas.

3. Crise de Segurança Alimentar e Sanitária

* Morte em massa do rebanho: O gado e os caprinos morreriam de sede e fome pela degradação extrema da Caatinga, destruindo a base econômica de milhares de famílias.

* Surtos de doenças: A falta de água potável forçaria o consumo de fontes contaminadas, disparando casos de diarreia, cólera, desidratação severa e proliferação de arboviroses (como a dengue) em depósitos inadequados de água.

4. Tensões Políticas e Geopolíticas Internas

* Guerra Fiscal e Federativa: Estados vizinhos disputariam o controle de bacias hidrográficas compartilhadas. Haveria forte pressão política sobre a gestão de grandes reservatórios (como Sobradinho e Castanhão), gerando crises entre governadores e o governo federal sobre quem tem direito às cotas de água. [3] 

* A Indústria da Seca: O clientelismo político ganharia força desmedida, com a distribuição de água por caminhões-pipa sendo usada como moeda de troca política e controle social.”

Felizmente, a região Nordeste, nas últimas três décadas, conheceu um processo de transformação que não a imuniza da tirania e da fome, mas torna muito mais difícil assistir ao documentário sobre a visita do presidente Collor a Serra Talhada, rodeado por líderes políticos locais, observando de cima de um caminhão a multidão de esfomeados, os flagelados da seca, que, apesar de não poderem sequer ter recebido a cota que lhes cabia de arroz, acreditavam na palavra do jovem presidente que anunciava com seu vozeirão: “Estou”Estou”Estou com vocês.” Aquela promessa vã, mas que penetrava na mente dos esquecidos de Deus, principalmente quando vinha com as bênçãos de um líder religioso usado pelos líderes de um Nordeste conservador e anacrônico. O momento é de apreensão e medo, mas, com certeza, com a aplicação de antídotos como os programas de proteção social; o aumento contínuo de produção de alimentos pela nação; a ampla malha de canais e adutoras a partir do Rio São Francisco; de mais de um milhão de cisternas; da ampliação do crédito ao pequeno agricultor, não haveremos de ver currais humanos ou a migração forçada por aqueles que não tinham a alimentação mínima requerida. Euclides da Cunha e Mario Vargas Llosa devem estar felizes onde estão, em não ter que retratar os Canudos da vida.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST