
PC Silva, artista serratalhadense, ecoa as raízes do Sertão em rimas e versos
O seu álbum de estreia na carreira solo como cantor e compositor, Amor, Saudade e Tempo, traduzem com maestria a poética, as tradições e as histórias do Sertão
Postado em 08/11/2020 06:00

Amor, Saudade e Tempo, primeiro álbum solo de PC Silva retrata o Sertão de cabo à rabo – Foto:(Divulgação)
Quando tudo estava cinza e as incertezas tomavam conta da cabeça de muita gente, em meio ao auge da pandemia da Covid-19, um sopro de sonoridade, poesia, dramaticidade, misturada a um turbilhão de memórias afetivas, todas ligadas ao Sertão de Pernambuco sopraram aos ouvidos do público com a chegada de Amor, Saudade e Tempo, primeiro álbum da carreira solo do cantor serratalhadense PC Silva, que segue carreira solo em Recife, capital do estado, distante cerca de 550 km. Como o próprio PC disse, neste álbum, o “Sertão pode ser visto de cabo à rabo”. Por essa razão, ele se torna um símbolo de um artista que não deixou a sua identidade cultural e musical sertaneja se corromper, pelo contrário, a transformou em um ofício que faz as lindezas do Sertão ecoarem mundo a fora.
Várias dessas músicas são importantes porque retratam um pouco de onde eu vi. Trazendo uma linguagem bruta, acesa, sobre o rimário popular, nítidas em canções como Fregells, que fala sobre saudade e amor, algo sempre presente na poesia e na música sertaneja. O Sertão é um lugar de onde muitas pessoas saem e retornam para matar saudades, encontrar a família. Esta música representa esse reencontro. Meu Amorzin é a canção mais emblemática, cujo clipe foi gravado na zona rural de Serra Talhada, e por meio da qual eu prestei uma homenagem a minha avó paterna que faleceu e que era benzedeira. Adeus, Obrigada e Disponha, que traz a cantora Mônica Salmaso em uma participação especial, tem a dramaticidade da poesia sertaneja, explica PC com a voz embargada pela emoção das lembranças dos processos de composição.
Nascido em Serra Talhada, em 1981, o cantor e compositor PC Silva teve como referências a poesia popular sertaneja de Zé Marcolino, as músicas do sertão, a cantoria, o contato com a Caatinga e a tradição familiar na sua formação pessoal e artística. Mas não foi só isso, as rádios que escutava nos anos 80 e 90 incrementaram o seu gosto musical com o som da Legião Urbana e os pops das paradas de sucesso. Em 2000, o artista desembarca em Recife para cursar Arquitetura e Urbanismo na UFPE. O novo cenário tinha tudo para corromper a sua identidade sertaneja, mas não foi o que aconteceu. Eclético, o cantor incorporou as novas referências ao seu trabalho artístico: o grupo “A Feira”, formado por colegas do curso de Arquitetura. Ainda na universidade, PC inicia um trabalho solo, aprimorando esse diálogo musical.
“Eu despertei um interesse pela poesia, cujo berço está consolidado em São José do Egito, no Sertão do Pajeú, desde muito. Não tinha pretensão do que faria com esse interesse, mas eu sentia que isso era forte. Mais tarde, no período da conclusão do curso de Arquitetura, eu fiz um projeto de conclusão de um Centro Cultural no Sertão do Pajeú, no cruzamento da BR 232 com o rio Pajeú, na altura do município de Serra Talhada. Eu projetei a modulação estrutural da construção desse centro com base nas rimas e métricas da poesia popular que eu havia conhecido,” explica o cantor.
Até à carreira solo, PC Silva, cumpriu uma jornada um pouco mais distante geograficamente do Sertão. Trabalhou em outros estados e até fora do Brasil. De volta ao Recife, dá mais um passo com a fundação da Banda Voou, que lançou dois álbuns, configurando um passo profissional importante na sua carreira. A partir deste momento, a música assume um papel mais forte na vida do cantor e compositor, que então descobriu um caminho para a poesia na sua arte. A maturidade desse ofício está consolidada em Amor, Saudade e Tempo, que além de referências sertanejas, apresenta um diálogo com outras sonoridades, incorporadas à formação musical do artista.