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Pernambuco, 02 de maio de 2026

Cidades

No ano sem carnaval, foliões do sertão recorrem ao passado para reverenciar a tradição da festa

Vamos visitar a folia de momo em duas cidades pelas memórias de foliões que fizeram história; Jeneci Veras de Salgueiro e Marlindo Pires em Belém do São Francisco.

Postado em 12/02/2021 07:00

Colunista
Jornalista ,

Nada de ruas cheias, nem o chão coberto de confetes e serpentinas. No lugar da alegria, o silêncio. Em vez de festa, as lembranças de tantos fevereiros efervescentes. Assim será em todo o Brasil em 2021. No Sertão, mais precisamente em duas cidades, Salgueiro e Belém do São Francisco, a tradição carnavalesca de décadas abriu espaço para a saudade, por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus.

Primeiro trio elétrico de Salgueiro

Em Salgueiro, no finalzinho da década de 1970, a festa que antecede a quaresma ganhou gás através do entusiasmo de um jovem, Jeneci Veras de Queiroz. Ele criou, no município do Sertão Central, um bloco de rua que levou o nome de Máquinas & Motores. 

“Eram 12 homens e 12 mulheres. Nós fomos os primeiros a colocar na rua uma espécie de tiro elétrico. Era uma F400, eu botei quatro bocas de alto-falantes, a popular difusora e coloquei um cara no cavaquinho, uma percussão. Uns oito anos depois, nós colocamos o primeiro trio elétrico no depósito de cimento. Eu, juntamente com Ailton Souza e o Bloco Apache. Era o mini trio elétrico com gerador e tudo. E foi um sucesso estrondoso”, lembrou o folião que hoje é corretor de imóveis.

Memórias de um folião

Jeneci curtiu cada momento carnavalesco de Salgueiro. Viu várias passagens do Bloco Mela Mela, cujo o branco da mistura de farinha de trigo e maisena multiplicava a alegria de celebrar o carnaval. E também acompanhou vários carnavais da Bicharada de Mestre Jaime, que de 1946 a 2020 representou a tradição na folia de momo salgueirense. 

Pandemia leva alegria e o Mestre Jaime

Além de acabar com o carnaval 2021, a pandemia causada pela Covid-19 levou um Patrimônio Cultural de Pernambuco: Jaime Alves Conserva, o Mestre Jaime. Ele tinha 98 anos e faleceu por complicações causadas pela doença. 

Antes dessa tristeza, Mestre Jaime viveu quase um século de muita alegria. Para fazer a festa na sua cidade, ele produzia máscaras de bichos. As máscaras viraram bonecos, mais de 100 deles, que ganhavam as ruas de Salgueiro todo mês de fevereiro.

Por isso, este ano, será mesmo o carnaval da saudade, ou melhor, um carnaval sem festa e sem povo na rua. “Foi uma perda irreparável. Mestre Jaime era um folião que passava o ano todinho se programando para brincar. Foi mesmo uma perda insubstituível”, resumiu Janeci.

Primeiros bonecos de Belém

Se Mestre Jaime precisou sair de Salgueiro ainda na adolescência para se apaixonar pelos bonecos gigantes em Olinda, bem antes disso, em Belém do São Francisco um casal de bonecos inspirou a folia da capital pernambucana. Quem lembra dessa história com detalhes é o professor aposentado e eterno folião, Marlindo Pires Montesanto.

“Aqui é a terra dos primeiros bonecos gigantes do Brasil, os ícones do carnaval de Pernambuco. Eles foram criados em 1919 e 1929. Eles são inspirados na Europa Medieval. No Século 20 veio morar em Belém um padre de origem Belga e ele viu que Belém já tinha carnaval no início do século 1920 com banda, aquela coisa toda, mas sem uma alegoria. E o Padre Norberto, que foi em construiu a Igreja Menino Deus, deu a ideia dos bonecos para desfilarem”, contou Marlindo sobre a origem de Zé Pereira e Vitalina, destacando que Olinda só criou os bonecos em 1932, mais uma década depois do casal de bonecos belemita.

Carnaval de família

O professor Marlindo tem mais de 40 anos de história com a folia de momo. Foi, por 30 anos, diretor e secretário de Cultura e Turismo da prefeitura de Belém do São Francisco, hoje também é escritor. Mas a festa entrou no seu coração ainda menino. 

O criador dos primeiros bonecos, Gumercindo Pires de Carvalho, era primo da mãe de Marlindo. E foi uma tia-avó do professor quem criou as roupas que vestiram aqueles bonecos que se tornaram os grandes símbolos da folia pernambucana. Além disso, mãe de Marlindo foi criada pelo pai do criador dos bonecos. Ou seja, não tinha como o folião não se envolver com a festa. 

“Desde criança eu adorava ouvir aquelas histórias, ver aquele pessoal fantasiado. Por isso, me dediquei. Já participei de bailes de fantasias, confeccionei vários bonecos e idealizei vários deles”, afirmou o folião, que foi homenageado em 2020 na sua festa preferida.  

Nada de tristeza

Para quem lamenta a ausência do Carnaval, Marlindo deixa um recado de cuidado e esperança. “Vamos curtir o carnaval de máscara. Cada um na sua, sem aglomeração. Eu mesmo vou colocar minha fantasia, uma cadeira na porta de casa, com o som de frevo tocando. Mas, no ano que vem, se Deus quiser, vai voltar tudo ao normal”, profetizou o folião.