
Chegou a vez do Sertão virar mar. Não percam o trem
Ainda neste século, viu-se, para incredulidade de muitos, a instalação de dezenas de instituições de ensino superior e seus respectivos campi, sejam públicas ou privadas, em um número expressivo de cidades do interior
Postado em 25/08/2022 18:08

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST
O estereótipo de um Nordeste distante
Durante um longo período a visão do Nordeste e do semiárido, em particular foi vista de forma distorcida e preconceituosa. Mesmos nossos irmãos ao se migrarem em busca de oportunidade incorporavam a visão dominante de que a região era o exemplo da derrota, do desespero, do coronelismo, do aproveitador e de onde vinham os baianos, os paraíbas, os cabeças chatas, como são conhecidos aqueles que nasceram da Bahia ao Maranhão.
Foram esses homens e mulheres simples que fugiam da seca, da falta de oportunidade, do isolamento que a custa de muito esforço conseguiu se espalhar por todas as regiões brasileiras. Seja o Sudeste, o Centro-Oeste, que o diga Brasília e a Amazônia
Os casos de superação e de conquista são inúmeros, muitos prosperaram, se tornaram líderes em seus novos ambientes, dirigentes, empresários. Mas no fundo, uma das regras básicas de aceitação era a de ver o nordestino como um homem simples, quase sempre rude, faminto, submisso.
São os mitos que se enraízam e dão um trabalho hercúleo para removê-los. Principalmente por penetrarem nos cérebros dos que acusam e daqueles que sofrem dos preconceitos.
Estamos trabalhando, ouçam bem
Vamos ao que tem ocorrido. Volto a chamar a atenção para, no início da adolescência, testemunhei a primeira experiência pessoal com o fenômeno das Secas. A seca de 70, para ser mais preciso. Não me sai da memória as procissões diárias por vários bairros de Arapiraca, quando centenas de fiéis oravam, cantavam, alguns carregavam suas velas pedindo ao Senhor que não esquecesse de nós e enviasse a chuva que deveria ter sido desviada para algum outro lugar
Uma cena que ficou gravada em minha mente, na rua da Aurora, no bairro onde morava, o Alto do Cruzeiro, era ver, durante as segundas feiras, grupos de famintos que invadiam a feira e subiam desesperados e ofegantes em direção ao Caititus, à Mangabeira, à Serra do Porco, que hoje denomino pelo nome glamoroso de Pig´s Hill, carregando metade de sacos de farinha, feijão, alguma carne ou que pudesse pegar para adiar a fome que lhe consumia e à sua família.
Estruturam-se os programas sociais a partir da última década do século XX e, pasmem, durante o último ciclo de secas que em vastas áreas perdurou entre 2012 e 2018 não houve testemunho das legiões de desesperados saqueando lojas, supermercados e feiras livres em busca de comida.
Grandes mudanças em cinco décadas
Desde esse período, aqui em Pernambuco, algumas mudanças expressivas ocorreram no semiárido. Vejamos o que foi a disseminação da energia elétrica por todos os imóveis rurais do estado. É bom lembrar do congestionamento na BR 232 de caminhões carregando postes de concreto para a expansão da rede elétrica e a chegada da luz no campo. Logo a seguir, investiu-se na redução da dependência hídrica das cidades e comunidades rurais. Contou-se com o programa de cisternas e com o grande esforço de capilarizar as águas do São Francisco através dos sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Sergipe e Alagoas. Esforço que tem como marca principal a transposição do Rio São Francisco.
Ainda neste século, viu-se, para incredulidade de muitos, a instalação de dezenas de instituições de ensino superior e seus respectivos campi, sejam públicas ou privadas, em um número expressivo de cidades do interior.
Os investimentos em educação começam a mostrar a cara
A chance da região contar com milhares de profissionais qualificados a cada ano, egressos dessas escolas, foi e será o maior investimento de todos os tempos na região. O paralelo a este esforço foi a disseminação das universidades rurais, nos Estados Unidos, a partir dos anos 60 do século XIX, quando em plena Guerra da Secessão o Presidente Abraham Lincoln sancionou as leis conhecidas como Morril Acts promovendo a doação de terras da União para a instalação das conhecidas Land Grant Universities, o que permitiu o desenvolvimento do Oeste do país.
Aqui também se testemunhou algo similar e desde 2005 milhares de jovens deixaram de apenas sonhar e passaram a participar da vida acadêmica em suas cidades e comunidades. Há dez anos centenas de profissionais saem todos os anos dessas escolas e, a cada dia a região conta com profissionais qualificados que se tornam consultores, professores, técnicos de manutenção, gestores, empresários e líderes em suas comunidades.
A mão de obra qualificada está aí, resta se trabalhar por gerar oportunidades para se aproveitar o conhecimento, a inteligência, a gana e o brilho nos olhos dessa juventude. Um processo de ascensão social foi posto em marcha e ninguém que voltar ao que era, esta é a realidade.
Nem o Cerrado nem a China, mas um Semiárido próspero
Além dos ganhos individuais, que não são desprezíveis, há um fator determinante que nem sempre é considerado: a disponibilidade de mão de obra qualificada e agentes de mudança conscientes e cultos, condição indispensável ao desenvolvimento regional.
Comparando os atributos naturais, certamente o Semiárido jamais será um Cerrado, região central do Brasil, onde, em sessenta anos se testemunhou uma transformação radical, levando-a de uma terra inóspita a um dos celeiros do mundo. Não há de se comparar com a China que em pouco mais de quarenta anos conseguiu tirar da pobreza absoluta centenas de milhões de chineses e se transformou em uma potência mundial. Talvez não se necessite disto. A verdade, porém, é que o semiárido, onde se inclui de forma inequívoca o nosso Sertão, não será o mesmo em outros vinte anos a frente.
A internet vem complementando esta construção e mudando de modo rápido a forma de se fazer negócios, obter informações, acessar a serviços de tecnologia e saúde. O que implicará um cenário quase de ficção, inclusive no local em que tanto se duvidou dele, o campo. É importante que se note. Ao se contar com a água, a eletricidade, a internet e pessoas qualificadas, pouco mais resta para se apostar em uma mudança esperada desde Antônio Conselheiro e Padre Cícero. O trem tem um horário de partida. Chegou a vez do Semiárido. Isto é o que se verá. Que não se chegue atrasado à estação.
GERALDO EUGENIO
Professor Titular da UFRPE-UAST