
O Cerrado e o Semiárido
Por Geraldo Eugênio
Postado em 06/10/2022 11:56

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST
A vertente cultural passou a ser enfatizada, quer na música, na culinária e na literatura. A cidade de Goiânia se tornou uma forte concorrente de Brasília em sediar eventos empresariais, sendo um importante polo médico e de saúde, um mercado imobiliário dinâmico e um forte ambiente de inovação e tecnologia.
E Goiás, um estado com 246 municípios e uma população de 7,2 milhões de habitantes, 340 mil quilômetros quadrados se tornou um exemplo de dinamismo e um dos principais ambientes de agricultura moderna. As terras se valorizaram de tal forma que em algumas regiões, um alqueire, a medida local que equivale a 4,8 hectares, custa não menos do que seiscentos mil reais. Algo inacreditável para os padrões brasileiros e comparável ao mercado de terras no “Corn belt” americano, o celeiro dos Estados Unidos.
As transformações foram grandes
Passou-se o tempo em que o xingamento às castas mais baixas seguia a hierarquia: goiano, baiano e paraíba. O goiano, sinônimo do caipira ingênuo e do agricultor tradicional; a segunda casta, a dos baianos, englobando os nascidos na Bahia e em Sergipe e a terceira, a dos paraíbas que servia como denominação para todos os nordestinos entre Alagoas e o Ceará.
A capital política do país é Brasília e foi por sua instalação no Planalto Central que toda esta mudança foi desencadeada, mas a área metropolitana que melhor retrata a economia regional é Goiânia. Não contaminada pelo dia a dia da política e focada no desenvolvimento do estado e da região. Atualmente tem se caracterizado por ambiente de atração de jovens profissionais e até atletas.
Apesar da grandeza de Brasília, Goiânia tornou-se um contraponto à capital e assume sem reservas o papel de liderança que lhe cabe no Centro-Oeste.
O que era o Cerrado há cinquenta anos
A razão deste comentário é que há pouco mais de cinquenta anos, a região era considerada frágil como ambiente produtivo e a paisagem de arbustos retorcidos e com marcas de fogo das queimadas anuais era o que melhor expressava o grande miolo do país. A pecuária dominada pelo gado magro e com chifres grandes ainda era o retrato típico das raças europeias introduzidas quando da ocupação da região. Animais que cresciam lentamente, de limitada capacidade reprodutiva e de baixa produtividade, seja de carne ou leite.
O início da transformação se deu pela conquista tecnológica dos solos do Cerrado. De terras marginais passaram a ser consideradas entre as mais férteis do mundo e de mais alta produtividade. Contou com um aporte tecnológico de um número significativo de instituições de pesquisa, universidades, conglomerados empresariais, traçando-se uma rota que se iniciou pela solução do problema de fertilidade dos solos, pela adoção do plantio direto, usando a fixação biológica de Nitrogênio e, por último a integração lavoura x pecuária x floresta.
Semiárido, chegou sua vez
É invejável os passos que foram dados no Cerrado e, para o Semiárido um estímulo. A região seca que compreende um milhão de quilômetros quadrados não conta com o perfil de chuvas de Goiás, por exemplo, que entre os meses de outubro e abril recebe 1500 mm de chuvas e pode se dá ao luxo de colher duas safras, uma de soja seguida do cultivo do milho ou do sorgo. O Semiárido também não dispõe com solos profundos nem uma topografia plana que permita uma mecanização plena. Por outro lado, é sempre bom lembrar que uma precipitação de 650 mm de chuvas em três meses não é um volume desprezível, além de contar com duas grandes bacias hidrográficas, a do Rio São Francisco e a do Rio Parnaíba e centenas de corpos de água na forma de rios temporários, córregos, açudes, barragens, barragens subterrâneas e aquíferos que podem ser explorados de modo bem mais eficiente.

Divulgação /A capital política do país é Brasília e foi por sua instalação no Planalto Central que toda esta mudança foi desencadeada, mas a área metropolitana que melhor retrata a economia regional é Goiânia
A primeira mudança de impacto no semiárido dependente de chuvas se deu em um período curto, acelerando-se após os anos setenta do século passado, com a transformação da bacia do Submédio São Francisco em um grande polo de agricultura irrigada. Dois estados foram beneficiados diretamente com este movimento iniciado quando Nilo Coelho foi governador de Pernambuco viabilizando a expansão das rodovias asfaltadas entre Recife e Petrolina, a eletrificação das margens do São Francisco e o trabalho pioneiro da equipe técnica da Sudene quando, por exemplo, iniciou um grande programa de introdução de novas culturas, a exemplo da videira.
Em 1974 a opção por se instalar a Embrapa Semiárido em Petrolina foi um grande momento, sob todos os aspectos, uma vez que uma instituição com capacidade de solução, alta qualificação técnica fincou raízes em pleno Sertão visando atender quer as demandas da agricultura irrigada quanto da agricultura de sequeiro. A partir daí o governo se tornou ainda mais presente e Petrolina e Juazeiro, do outro lado do Rio São Francisco conta com uma constelação de instituições governamentais que atestam a presença e a preocupação do governo com a região, a tal ponto de se instalar e ampliar ao longo dos anos um aeroporto em Petrolina capaz de receber qualquer tipo de aeronave de passageiros ou de carga.
O Semiárido dependente de chuvas, aquele que não fica às margens do São Francisco, do Parnaíba ou que não contava com um aquífero como o de Mossoró, tornando o Rio Grande do Norte como o mais importante estado produtor e exportador de melão do país, avançou em vários aspectos mas nem sempre apresentando sinais de conectividade, a exemplo da democratização da energia, da ampliação da rede de distribuição e disponibilidade hídrica, da internet, mesmo ainda precária e, por último pela ousada política de levar a ciência e o ensino superior ao interior da região.
Com todos esses avanços factuais e em um momento de decisões estratégicas para o país, observar como seu deu a mudança no Cerrado, por sua amplitude, abrangência e impacto é importante para os tomadores de decisão, formuladores de políticas, para a academia e para os empresários do Semiárido. Que se enterre o tempo em que o executivo ou o parlamentar nordestino ia a Brasília apresentar a relação de demandas, sempre apresentando a região como a terra esquecida por Deus e pelos homens.
Este tipo de argumento deve ser posto de lado e quem, porventura, apresentar esta ideia, que não seja dada nenhuma atenção. O momento é de aproveitar o que temos, integrar o conjunto de avanços, aproveitar o suporte tecnológico advindo da inteligência das instituições existentes e avançar para uma outra etapa. Algumas regiões semiáridas do mundo poderiam ser citadas, é preferível avaliar o entorno, o que foi conquistado dentro do país e enterra o discurso de desvalido e miserável.
Seria oportuno que os governadores eleitos de estados que contam com algumas áreas no semiárido, do Piauí ao Espírito Santo, passando por Minas Gerais trabalhassem em conjunto uma proposta e que quiçá antes da posse que fizessem uma visita ao Cerrado, não para aprender como se anda nos gabinetes de Brasília, mas que se começasse por Goiânia e pudessem ver o que é hoje os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Mesmo os governadores do Maranhão, do Piauí, da Bahia e de Minas Gerais, cujos estados contam com áreas de Cerrado.
Não há mistério. É só seguir o que está indo bem.
P.S Agradecimentos ao CREA PE por haver patrocinado minha participação na 77ª. SOEA – Semana Oficial da Engenharia e Agronomia, Goiânia, GO, 04 a 06 de outubro de 2022
Professor Titular da UFRPE-UAST