
O pioneirismo da produção de cebola em Pernambuco
Por Geraldo Eugênio
Postado em 20/10/2022 18:34

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST
O início da agricultura irrigada
São sete décadas da introdução do cultivo da cebola no Vale do São Francisco. Cabrobó, ao que consta foi o município por onde esta atividade se iniciou, dando o pontapé inicial ao início da agricultura irrigada em Pernambuco e na Bahia.
Os plantios eram pouco tecnificados e o sistema era o de quadro, ou uma área em formato de quadrado que variava de três a cinco metros de lado, limitada por um camalhão com a água alimentada em cada uma dessas pequenas “bacias”. Tratava-se de um modelo de irrigação por inundação, semelhante ao plantio do arroz, sendo a principal diferença a dimensão da área inundada.
Como era de se esperar o excesso de umidades dentro dos quadros criava o ambiente propício à ocorrência de fungos e bactérias. As perdas eram enormes, muito embora ainda suportáveis uma vez que a produção de cebola no Brasil era limitada. A produtividade era baixa. Em alguns anos pouco se produzia, mesmo assim o sistema perdurou por ao menos duas décadas. Seguindo-se do plantio em canteiros, com basicamente duas filas de plantas, modelo que avançou ao longo de quatro décadas, finalizando no cultivo em canteiros com largura de aproximadamente 1,20 m, com oito a dez fileiras de plantas irrigadas por gotejamento.
A dependência das sementes importadas
No início os produtores do vale utilizavam sementes produzidas fora da região, como as Creoulas, do Rio Grande do Sul; a Amarela Chata das Canárias, das ilhas espanholas que lhe atribui o nome; e a Texas Grano, vindas do sul dos Estados Unidos. Na segunda metade dos anos setenta do século passado, um jovem Agrônomo, Luiz Jorge da Gama Wanderley, liderando um conjunto de recém-formados talentosos colocou como objetivo principal a solução deste problema e de como viabilizar a produção de sementes adaptadas à região. Esta equipe do IPA contou com o pleno apoio da instituição e suporte financeiro de duas instituições: um banco (BRASCAN – Banco Brasil-Canadense) e a SUDENE ( Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). De um início basicamente artesanal, o grupo notou que não havia como se produzir cebola nos trópicos em contar com umas boas horas de frio, chave para a indução de floração da planta proveniente do plantio de bulbos.

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Em outras palavras, caso em seu jardim ou terração alguém planta bulbos de cebola, desses resultarão plantas verdes, vigorosas, mas não produzirão sementes. Ao submeter os bulbos a temperaturas baixas, entre 4 e 8 graus centígrados, as plantas são capazes de produzir as folhas e as flores em uma estrutura conhecida tecnicamente como umbela.
O melhoramento genético local e a produção de sementes de cebola
Atentando para a solução do problema, com o auxílio do Prof. Ciro Paulino da Costa, da ESALQ-USP, foi iniciado um programa de seleção de bulbos das cultivares plantadas que melhor se adaptavam ao clima quente e seco do Vale do São Francisco. Em seguida, para se provar que a hipótese de que a vernalização artificial, como é conhecida, transportava-se os bulbos ao Rio Grande do Sul para serem submetidas à baixas temperaturas e induzir a floração. Verificou-se que este era o caminho. Um dos problemas havia sido resolvido, o outro era a distância até o Rio Grande do Sul e o custo de transporte dos bulbos para lá e, depois de três meses, trazê-los de volta para serem plantados.
A equipe, inicialmente começou a fazer testes simples em caixas plásticas ou de papel em um refrigerador comum. É aí que entra o apoio do BRASCAN e da Sudene, financiando a construção de uma pequena câmara fria na Estação Experimental do Cedro, em Vitória do Santo Antão, seguindo-se de uma estrutura comercial na Estação Experimental do Saco, em Serra Talhada, capaz de armazenar 310 toneladas de bulbos. Seguindo-se, já na década de noventa da doação ⁸de uma câmara moderna por parte da Codevasf (Companhia do Desenvolvimento do São Francisco) , então dirigida pelo Agrônomo Cantalício Cabral, ao IPA, localizada no distrito indústria de Petrolina capaz de armazenar 200 toneladas de bulbo.
O conjunto de tecnologias acumuladas na viabilização da produção de sementes de cebola em ambientes tropicais foi tanto que, sem dúvida, é o maior programa dessa natureza, em todo mundo, muito embora o suporte não tenha sido o suficiente, as câmaras do IPA já não funcionam em sua total capacidade, mas houve a expansão da produção com produtores credenciados que se encarregaram dos investimentos e continuam produzindo as sementes dessa hortaliça.
Variedades tropicais, uma tecnologia que perdura
O surgimento de sementes de híbridos de cebola, há cerca de duas décadas, ofuscou por algum tempo o uso de variedades tradicionais e quase levou à descontinuidade do programa. As sementes híbridas são dirigidas a um mercado tecnológico mais refinado que suporta custos de produção mais elevados e recompensa com uma maior produtividade. Nem todos os produtores são capazes de atender a uma prática cujo custo de produção chega a setenta mil reais por hectare. Além disso, em áreas como o Vale do São Francisco ou Irecê, na Bahia, chuvas intensas ocorridas com frequência nos últimos três anos demonstraram que as cultivares desenvolvidas pelo IPA e pela Embrapa resistem melhor aos patógenos do que grande parte dos híbridos. Chegando ao ponto de mostrar que em alguns anos foi extremamente lucrativo se manter uma área cultivada com variedades.
Durante esta semana, com o Agrônomo Judas Tadeu de Menezes, do IPA de Serra Talhada, acompanhados de alunos do mestrado em Produção Vegetal, da UFRPE-UAST foi realizada uma visita a campos de produção de sementes de cebola, às margens do Rio Pajeú, em Serra Talhada. Primeiro se nota a expressão de perplexidade dos estudantes ao saber que há um programa com este histórico ligado à sua universidade e, em segundo lugar, o fato de que cultivares liberadas há duas décadas, a exemplo das cultivares IPA 10 e IPA 11 continuarem na agenda de materiais de cebola cultivados em toda a região.
Parabéns ao IPA por seu caráter premonitório e inovador, à Embrapa Semiárido por também haver estabelecido um programa de melhoramento genético de cebola, à empresa Hortivale, parceira desses programas, e à UFRPE-UAST por integrar-se ao programa e procurar manter a formação de profissionais que possam dar continuidade a uma conquista ímpar para a agricultura irrigada do Semiárido.