
O gado Nelore pintado, uma novidade positiva
Obviamente uma mutação recessiva da pelagem branca com manchas pretas menores e uniformemente distribuídas por todo o corpo.
Postado em 17/11/2022 20:00
Nossos agradecimentos à Índia e ao Paquistão
A pecuária brasileira é reconhecida como o símbolo da produção animal em ambientes tropicais. Não é ao acaso que o Brasil passou a ser o segundo maior exportador de carne bovina e está prestes a assumir uma posição de exportador de leite e derivados.
Quase todos ouvimos falar no gado Nelore, uma boa parte dos brasileiros também escutaram algo como Guzerá, Gir, Kankrej, Sindi, Indubrasil, Girolando ou Holandozebu, mas poucos associam as raças de bovinos criadas no Brasil com o continente Indiano, neste caso específico, tratando da Índia e do Paquistão.

Geraldo Eugênio
O gado Sindi, por exemplo, vem da província de Sindi, no atual Paquistão, e tem se tornado recentemente como uma das opções para pecuaristas em vários estados do Nordeste e Minas Gerais. O gado Nelore, por outro lado, é proveniente do Sul da Índia, da região de Madras, atual Chennai, capital do estado de Tamil Nadu.
As demais raças, inclusive a Brahma, muito apreciada no sul dos Estados Unidos ganham o nome a partir de regiões ou localidades espalhadas por toda a Índia. É neste sentido que me refiro ao fato de que a Índia e o Paquistão merecem reconhecidos como os países que deram origem à pecuária de carne no Brasil.
A saga do Nelore no Brasil
O gado Nelore foi primeiramente introduzido pela região Nordeste, ao redor de 1860, em Salvador, Bahia. Daí foi se disseminando e atualmente esta raça é encontrada na grande maioria, senão em todos os estados brasileiros. Se constitui 85% do rebanho de corte e se estima que 95% da carne consumida no Brasil é de gado Nelore ou de um cruzamento interracial envolvendo esta raça.
Os animais, por sua tolerância à climas secos e temperaturas elevadas, além da facilidade de manejo e boa conversão alimentar se adaptou de modo especial à região do Cerrado e ao se falar em abate e exportação de carne, normalmente vem à mente aquele animal esguio, branco, bem conformado ativo. Tornou-se a marca registrada da pecuária nacional e influenciou de modo positivo a pecuária em todas as regiões tropicais das Américas e da África. Nos últimos anos, há de se convir, com a valorização do preço da carne bovina há uma conversão forte de fazendas que antes produziam leite para o gado de corte e, predominantemente buscando-se formar bons plantéis de gado Nelore.
Nelore pintado, uma genética diferente
Aqui na região do Pajeú se encontra alguns bons produtores de nelore, embora na maioria dos casos a produção é de gado mestiço, extremamente adaptado, mas de baixo valor zootécnico. A busca por bezerros e novilhas Nelore tem sido intensa e a valorização dos animais não poderia deixar de ocorrer. Um bom bezerro, por exemplo, não é adquirido por menos de quatro mil reais aqui no Sertão.
Hoje tive a oportunidade de visitar a Fazenda Cajá, no município de Flores. Uma propriedade que representa muito bem a civilização sertaneja, a criação de gado e os desafios do clima semiárido. Além de um pasto, cercas, estruturas cochos, disponibilidade de água e imóveis muito bem conservados, o visitante se depara com um animal com uma pelagem diferenciada, o Nelore pintado.
Obviamente uma mutação recessiva da pelagem branca com manchas pretas menores e uniformemente distribuídas por todo o corpo. Pelo fato de ser diferente do que representa a monotonia da cor branca nos pastos, tem sido procurada por dezenas de produtores regionais, como uma opção comercial, seja pela valorização da genética ou pelo fato de se contar com um animal diferente do padrão normal.
A fazenda Cajá explora o gado por mais de cem anos e o Beto, seu proprietário que a maneja com os filhos tem conseguido manter a tradição que vem de seus avós. De fato, tanto o nome da fazenda, Cajá; como o Nelore Pintado tornaram-se grife, o que é importante.
Um núcleo de genética e disseminação da raça
Uma outra situação a ser levada em consideração é que de modo planejado, a fazenda Cajá se tornou um centro de disseminação de boas práticas e de uma raça específica de bovinos. Conseguiu alterar o status da produção de um gado meramente de carne para um tipo especial, como isto agregando valor ao produto e tornando-se uma unidade de referência para a pecuária regional.
Gostaria de aproveitar a oportunidade e destacar a importância do ponto de vista de mercado de uma mudança tal qual a implementada pela gestão da fazenda em um período muito curto. Algo em torno de seis anos. A recuperação da unidade produtiva que não estava em boa situação se deu no último período de secas que se estendeu em quase todas as áreas do Semiárido entre 2012 e 2018, voltando a colocar nome da unidade produtiva entre as fazendas de referência na região Setentrional do Pajeú.
Aí vem Lili
Além do gado bovino a fazenda ainda conta com criações esportivas de avestruz, lhamas, ovelhas, cabras, galinhas e uma cabra especial chamada Lili que aprendeu a abrir os ferrolhos da cancela e, se não se cuidar, ganha o mundo como se diz por aqui. Lili passou a ser a mascote da Fazenda. Que outras iniciativas como a do Beto Cajá possam ser postas em prática e, com isto que se difunda os aspectos positivos e as oportunidades da região sertaneja.
Professor Titular da UFRPE-UAST
Recife 15 novembro de 2022