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Pernambuco, 30 de abril de 2026

Política

Trump, as tarifas e o agro brasileiro.

O xerife do mundo.

Postado em 18/07/2025 11:22

Colunista

O presidente Trump é um líder que consegue arregimentar a maioria dos eleitores americanos em torno de suas ideias, mesmo quando essas destoam completamente do que o mundo espera de alguém que comanda ainda a nação mais importante do planeta. O fato de ter conseguido intimidar a justiça de seu país, fazendo com que dezenas de processos tramitem em banho-maria e até adiado por tempo indeterminado a sentença de um em que foi julgado e condenado por abuso sexual, considerou que não havia limites para interferir nos Estados Unidos ou em qualquer outro país sem respeitar leis, tratados ou acordos.

Poucos dias antes da posse, telefonou à presidente Claudia Sheinbaum Pardo, do México, para tratar de questões de interesse comum como imigração, comércio, segurança. Ao concluir, o telefone emitiu uma nota informando que havia deixado claro que o México seria objeto de tarifas caso não contivesse os milhões que estariam entrando ilegalmente pela fronteira em ondas cada dia mais intensas. Poucas horas depois, a Presidente Scheibaum emitiu um comunicado desmentindo categoricamente o que havia sido publicado pelo presidente eleito, deixando claro que o número de imigrantes ilegais havia sido reduzido drasticamente desde o governo Biden e que ela havia lembrado ao senhor Trump que o contrabando de armas era um problema de maior relevância, uma vez que 75% das armas ilegais nas mãos dos cartéis mexicanos eram provenientes dos Estados Unidos, bem como a grande produção de anfetaminas, drogas que causam um verdadeiro assombro na juventude americana, alegadamente produzida no México, por laboratórios ‘farmacêuticos’ cujos principais acionistas eram empresas americanas.

Poucos dias depois, foi a vez do Canadá. Com este país, o resultado foi tão desastroso que mudou os resultados eleitorais de um pleito que estava às mãos do Partido Conservador, que tinha como candidato um trumpista, elegendo um político do Partido Liberal que, em claro e bom, se contrapôs a argumentos hilariantes como anexar o Canadá como 51º estado americano. A situação evoluiu, alijando aliados como a União Europeia, que sentiu que ali não contava mais com um parceiro confiável. Neste jogo de bullying, os únicos casos de comportamento indigno se deram com o Presidente da Ucrânia, humilhado em uma reunião que se assemelhava a um circo e, por incrível que pareça, com o Primeiro-Ministro da Índia, tratado como um ser inferior, que foi a Washington imaginando que ganharia a atenção do falso amigo, traindo a história de independência de seu país, algo desrespeitoso no cenário internacional. Voltou de mãos vazias e perdeu o respeito da elite indiana que o considera a reencarnação de Lorde Shiva.

Jogo bruto com quem não gosto.

Nos bastidores desse teatro, desde há alguns anos, especialmente a partir do governo de Barack Obama, a ascensão da China e posteriormente a formação dos BRICS, cujos membros, à exceção da Índia, deixavam claro que o mundo já não concordava com alguém decidindo unilateralmente as grandes questões mundiais, e que essas deveriam ser objeto de diálogo entre as nações. Após a posse do novo presidente, alguns alvos passaram a ser eleitos no sentido de desmoralizar e desconstruir a aliança que se construía em torno de uma política exterior multilateral. Já que não podia atingir diretamente a China e a Rússia, com a Índia domada, sobrariam entre os países fundadores o Brasil e a África do Sul.

No caso do Brasil, o anúncio do tarifaço não foi algo abrupto. Este fato esteve sendo planejado há meses, divulgado a partir de bizarrices. A primeira é que havia um grande déficit comercial na relação Estados Unidos e Brasil que deveria ser corrigido de imediato. Argumento desmentido de pronto, utilizando-se de fontes do governo americano. Em segundo lugar, a tentativa de interferir diretamente no sistema judicial do país, exigindo que se parassem os processos criminais, recheados de provas, testemunhas, delações, áudios, contra políticos da ultradireita brasileira em um movimento ainda mais radical do que ele conseguiu com a justiça de seu país.

Um discurso frágil que solapou o resto de confiança que o governo americano tinha no mundo, colocando contra si as centenas de empresas americanas que negociam com empresas brasileiras e as demais nações que se sentiram objeto de ameaça equivalente a qualquer momento. Na semana anterior, posição de interferência similar havia sido dirigida à Corte Suprema de Israel, deliberando que processos contra seus aliados deveriam ser sumariamente cancelados.

O Agro e a traição à pátria.

Entra em cena uma situação deliberadamente grotesca. Algumas instituições que representam o agro brasileiro. Aqui não se trata do agronegócio, mas de grandes empresas, produtores e operadores, que na eleição de 2022 se posicionaram de forma clara a favor da candidatura de ultradireita, financiaram os acampamentos na porta dos quartéis, alimentaram com vasta soma de recursos, apoio político e logístico a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, saem em defesa de uma tese derrotada em seu nascedouro, a de que a culpa pelas tarifas, isto é, pela agressão sofrida por seu país, não era da responsabilidade do agressor, mas do governo brasileiro que não se curvava perante a ameaça de um país estrangeiro.

Alguns políticos na ativa, ditos líderes da direita tradicional, correram à mídia no primeiro momento, aplaudindo o governo estrangeiro pelo prejuízo que estaria causando à sua pátria. Para não deixar os traidores sozinhos, sai a principal associação representante deste segmento, a CNA, com uma carta à nação que excede qualquer parâmetro de razoabilidade lógica e de dignidade, mostrando que de fato não está em hipótese alguma preocupada com o Brasil e sim com seus interesses. Essa gente não representa os agricultores brasileiros, aqueles que têm levado à mesa o alimento para os 210 milhões de irmãos e ajudado a alimentar pessoas em dezenas de países. É importante que se chame a atenção, mas a uma ideologia de extremismo e arrepio à lei.

Imaginem um cidadão americano posicionar-se contra seu país.

Que se veja a situação no sentido inverso. Em que um país estrangeiro ameaçasse deflagrar uma guerra tarifária contra os Estados Unidos. Garanto, como quem conhece e admira o povo americano, que se um de seus cidadãos se pronunciasse a favor da agressão, seria considerado um traidor, um pária e indigno da cidadania americana. É neste sentido que se abre um alerta para aqueles que desconhecem a história e o que representa uma nação. Por incrível que pareça, alguns, considerando que o Brasil é um antro de idiotas, ainda tentam se passar por patriotas quando deveriam ser remetidos ao lixo, como gente indigna e inservível e que não merece o mínimo de atenção e respeito. Patriotas não traem sua pátria.

  1. Professor titular da UFRPE-UAST.