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Pernambuco, 27 de março de 2026

Agronegócios

O momento atual do sistema cooperativo

A base das cooperativas

Postado em 22/01/2026 19:59

Colunista

As nações nem sempre foram pobres ou ricas. A história mostra que tudo é cíclico e funciona como uma grande roda gigante. Vamos à Europa, por exemplo. Depois do apogeu das descobertas, período no qual se destaca o gênio português e espanhol, esteve em uma situação de penúria até o século XIX, vivendo em constantes guerras, fome e uma busca incessante por novos portos. Assim se deu a colonização da América do Norte, da Austrália e da Nova Zelândia, por exemplo.

Já em tempos recentes, entre 1845 e 1852, uma doença que incidiu sobre a batata, o míldio causado pelo fungo Phytophthora infestans, resultou na morte de aproximadamente um milhão de irlandeses e na migração de mais de dois milhões, principalmente para os Estados Unidos. Este é um dos eventos clássicos da segurança alimentar e da necessidade de se contar com um aparato de pesquisa, desenvolvimento e inovação com capacidade de resposta imediata às ameaças às quais a produção de alimento, seja de origem animal ou vegetal, encontra-se exposta.

Foi neste cenário que surge como valor fundamental à sobrevivência da humanidade a solidariedade e a capacidade de cooperação entre pessoas e nações.  Entre os diversos métodos e sistemas de participação comunitária, surge nesta Europa conflagrada o cooperativismo. Inicialmente entre os agricultores e atividades rurais e hoje abrangendo quase todas as áreas da economia e dos serviços.

Anos de aprendizado

No caso brasileiro, são comuns as citações sobre a importância das cooperativas de pequenos e médios produtores do sul, região em que a presença de descendentes de italianos, poloneses, pomeranos, portugueses e espanhóis é destacável. Há grandes cooperativas de laticínios, de produtores de café, de soja, de suínos, de aves, de hortaliças e frutas e uma infinidade de atividades. Esta prática foi transplantada para outras regiões do país, a exemplo do Nordeste, mas no primeiro momento não encontrou o ambiente propício para o trabalho cooperativo. De modo geral, as cooperativas criadas nos anos sessenta e setenta do século passado tornaram-se feudos familiares, em que o principal dirigente se tornou dono, seus parentes, dirigentes, e a família que em algum momento geriu com profissionalismo, em algum momento falhou, endividou a cooperativa, levando seus cooperados à falência e manchando o cooperativismo por um longo período como algo a ser evitado. São dezenas de exemplos no Nordeste que podem ser citados neste padrão de anomalia institucional e de gestão de risco incontrolada.

Com isto, a representação cooperativista era considerada como oportunista e aquilo a ser evitado a qualquer custo. Chama-se a atenção para o fato de que a OCB – Organização de Cooperativas do Brasil teve um papel fundamental na reconstrução do sistema, do crédito moral e da importância da cooperação como fator fundamental à sobrevivência do pequeno e médio negócio.

A fé no trabalho integrado foi sendo retomada e o que se viu foi uma reconstrução de uma forma de negócios que jamais deveria ter sido manchada e que, caso não houvesse os contratempos ocorridos, a região Nordeste estaria em um nível bem mais avançado de organização, seja no setor primário ou na maioria das atividades produtivas e de serviços.

A comunicação foi uma arma efetiva de reconquista. Quando o cooperado percebeu que sua participação fazia dele um ator ativo e não apenas um cliente, o discurso pegou força e o convencimento foi mais efetivo. Parte das cooperativas trabalha com saldos positivos e, além das vantagens da inserção no mercado de modo coletivo, quando quem compra e quem vende faz melhor, há o fator extremamente atrativo de ver os lucros sendo compartilhados ou reinvestidos no fortalecimento de sua cooperativa e cooperados.

A bandeira manteve-se no Sul.

Mas se o sistema cooperativista foi ameaçado pela má gestão e hereditariedade das cooperativas na região, como ele sobreviveu nacionalmente? Manteve-se devido à história da Europa entre a Idade Média e a Revolução Industrial, período em que a agricultura era considerada como uma atividade de baixo reconhecimento por parte da sociedade e o agricultor normalmente tratado como um indivíduo que tinha como obrigação viver em condições de extrema dificuldade e suprir a sociedade de alimentos fartos e baratos. A inserção de tecnologias na agricultura é algo recente e foi o que demonstrou de forma convincente que, entre as várias formas de defesa, a alimentar é a que representa os mais nobres valores de uma sociedade. Em outras palavras, um povo sem o fantasma da fome a acossá-lo é um fator de relevância em qualquer período da história.

No caso do Brasil, a inserção do modo de vida, o valor familiar, a ameaça de catástrofes, sejam climáticas ou geopolíticas intrínsecas aos imigrantes, fez com que o cooperativismo não fosse questionado como modelo. Não é que não tenha havido retrocessos, inclusive entre megacooperativas que dificilmente alguém poderia imaginar irem à falência, mas foram. O mais importante é como se deu a reconstrução e o fato de que hoje se fala em cooperativa, em bem-estar, em oportunidade de negócios.

O conceito diversificou-se 

Há algo relevante a se considerar nas últimas três décadas, a diversificação das cooperativas para as áreas de serviços, notadamente da saúde. São hospitais, clínicas, laboratórios, especialidades médicas, profissionais de atividades diretas ou correlatas, planos de saúde que optaram por se tornarem cooperativas. O interessante é que este movimento não deixou de trazer uma aura de confiabilidade ao modelo. Simultaneamente surgiram os sistemas de crédito cooperativo associados ao Sistema Nacional de Crédito Cooperativo – SNCC, destacando-se o Sicoob, o Sicred, o Cresol, o Aimos e a Unicredi. Alguns desses saíram do sul e hoje alcançam o país como um todo.

Em Pernambuco, particularmente chama-se a atenção à ressurreição de algumas usinas de açúcar que foram à falência, comprometendo milhares de trabalhadores, fornecedores, o comércio de dezenas de cidades em cooperativas. Atualmente são três exemplos que conseguiram superar a desestruturação do setor e a competição com a produção de açúcar e etanol em regiões mais favoráveis e continuam competitivas. Uma cooperativa de fornecimento de insumos sob a gestão da Associação de Fornecedores de Cana de Pernambuco – AFCP é responsável pelo suprimento de metade dos insumos à cadeia produtiva da cana-de-açúcar no estado.

Importante se fazer menção a líderes que têm não apenas resistido, mas transformado o sistema cooperativo em dois estados: o Professor Malaquias Ancelmo, em Pernambuco, e o não menos abnegado João Nicédio Nogueira, no estado do Ceará.

  1. Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST