
Tendências para o milho e o sorgo no Brasil
Hora de plantio no Sertão
Postado em 26/02/2026 17:45

Ao instalar uma unidade demonstrativa de milho na Estação Experimental de Serra Talhada em uma parceria entre a UFRPE-UAST, o IPA e a empresa Hélix, mais uma vez veio à mente a relação clima e agricultura, daí derivando-se para as probabilidades de acerto ou insucesso. Este ano agrícola vem com nuances um tanto sombrias. Chuvas que haviam sido previstas no semiárido para novembro do ano passado não ocorreram, nem em dezembro e janeiro de 2026.
Não trato de pancadas de chuvas isoladas, mas de chuvas bem distribuídas geograficamente e em um volume suficiente que anime o produtor a iniciar seu plantio. Este fato, algo já documentado há cinquenta anos pelos estudos liderados pelo pesquisador Mohammed Faris, um cientista que veio ao Brasil e ficou mais parte de seu tempo através de uma consultoria da Fundação Ford, que, com a equipe do IPA, chegou à conclusão de que teria que haver chuvas acumuladas de ao menos 75 milímetros nos últimos cinco dias de modo que o campo pudesse ser instalado.
Seguindo a ‘lei de Faris’, foi instalada uma unidade demonstrativa que também funciona como unidade experimental, objetivando demonstrar a importância do plantio direto para o semiárido; a divulgação de novos genótipos desenvolvidos pelas empresas especializadas em melhoramento genético e produção de sementes, que os apresenta como adaptados a situações de seca e estresse hídrico, e o estabelecimento de uma base experimental de longo prazo, onde, além da produção em si, possa ser acompanhada a fertilidade e a saúde do solo. Apesar da produção e da produtividade do milho terem crescido em todo o mundo e em particular no Brasil, o mesmo não pode ser dito em relação às regiões semiáridas dependentes de chuvas, locais em que a instabilidade climática é tal que basicamente o padrão pluviométrico é único para cada registro.
Milho e sorgo na alimentação humana e animal
O fato é que, para o homem do Nordeste, o milho é um cereal do qual se extrai a matéria-prima para sua rica culinária, começando pelo sacrossanto cuscuz, o xerém e os angus de fubá de milho ou de milho verde. Atualmente, a cultura tem tido um crescente uso na produção de silagem, bem como no uso na formulação de rações para gado de corte e para a avicultura, chamando-se a atenção para o fato de que, no Brasil, a maior parte da cerveja produzida tem o grão de milho como um de seus componentes básicos.
Este cereal faz parte da base alimentar dos povos pró-europeus e é reconhecido como um produto sagrado desde as civilizações que antecederam os Incas, Maias e Astecas. Já no caso do sorgo, algo similar pode ser dito quando alguém se aprofunda na história dos países que fazem a África Subsaariana, ambiente em que, apesar dos avanços no cultivo do milho, o sorgo é usado como cereal, matéria-prima para uma bebida especial denominada cerveja de sorgo, na fabricação de pipoca e, mais do que tudo, na transformação dos grãos em uma farinha um tanto grossa, mas que pode ser usada na produção de um tipo de tortilla que recebe nomes diferentes, seja na África ou no subcontinente indiano.
Com demanda pela carne de gado e de frango, o que contribuiu para tornar o país o segundo mais importante parceiro comercial para alimentos em todo o mundo. O fato é que, em termos de milho, o Brasil é o terceiro país exportador mais importante.
O avanço do uso do milho como matéria- prima para o etanol
Nesta última década, além das crescentes exportações, o país tem visto investimentos crescentes na produção de etanol, atualmente um produto essencial na matriz energética, demandando um pouco mais de 20% de toda safra de 2025 na produção deste combustível, o que acende um alerta amarelo para as implicações de produção de etanol versus o uso na alimentação humana e animal.
Não é à toa que no último ano foram produzidos 9,8 bilhões de etanol de milho no Brasil. É neste cenário que as decisões políticas devem ser tomadas de modo a tirar o máximo proveito da produção de energia sem comprometer o bem-estar da população.
Para onde vão as duas culturas?
É sabido que, apesar dos grandes avanços apresentados na produção de milho e soja, não há elasticidade infinita no fator de produção nem tampouco se dispõe de terras no cerrado brasileiro capaz de atender ao parque industrial instalado ou em instalação. Desta feita, ao se avaliar que opções, além do milho, atenderiam aos requisitos necessários à produção de etanol, surge o sorgo como um grão que pode ofertar um amido tão puro quanto o milho e que, como coproduto, ofereça um DDG – Grãos secos de destilaria, proveniente da fermentação da amilose e da amilopectina, os carboidratos que formam o amido que, por sua vez, é armazenado nos grãos. Foi o desenvolvimento do DDG em um produto nobre para o setor pecuário que tornou a produção de etanol à base de milho viável, nos Estados Unidos, o que está sendo observado também no Brasil.
Neste sentido, é importante chamar a atenção de que, para o milho, o aumento de produtividade está intrinsicamente colado ao aumento de produtividade nas áreas em cultivo, enquanto o sorgo, apesar de ainda ser uma opção menor, já que produz ao redor de cinco milhões de toneladas comparando-se com 146 milhões de toneladas, em 2025, será amplamente usado nas áreas consideradas como franjas dos cerrados nos municípios de Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí e no semiárido brasileiro como um todo. Em áreas de relevo plano e mecanizável o sorgo granífero tenderá a crescer de importância e será um fator fundamental no equilíbrio do uso de cereais para produção de alimentos, bebidas, alimento animal e bioenergia.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST
Serra Talhada, PE, 25 de fevereiro de 2026