
O Milagre do Pão e o Fermento do Pão
Chico Buarque e Milton Nascimento compuseram em 1977 a música “O Cio da Terra”, uma ode à vida no campo que produz pão e mel. Um dos versos diz: “Forjar do trigo o milagre do pão”.
Postado em 26/04/2026 08:57

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).
O milagre do pão
Creio que a transformação do trigo em pão é um processo desenvolvido pelo homem divinamente inspirado. O milagre mesmo foi multiplicar cinco pães e dois peixes e alimentar cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças. Jesus Cristo é o autor desse milagre. Ele é o pão da vida. O maná que desceu dos céus. Deixou-se triturar em dores para forjar da própria carne a dádiva da vida eterna.
É certo que não haveria pão sem trigo. Não existiria o trigo sem a terra e a água. E não existia terra nem água antes de Deus os criar. O pão existe para lembrar ao homem que ele depende de Deus.
O alimento universal
Sim, existe pão feito com outros cereais (centeio, aveia, sorgo, milho, cevada) e receitas contemporâneas em que a massa é feita com frutas ou tubérculos. Pode-se acrescentar nozes e amêndoas à massa, enfim, a variedade é enorme. Mas a lógica é a mesma: plantar, colher, separar, triturar, misturar, assar. O pão é o alimento universal, ou quase. Poucas comunidades humanas não consomem pão, tais como os esquimós e algumas tribos indígenas. Até onde só há arroz, desenvolveram-se formas de fazer pão.
O papel do fermento
E fazer pão, com o miolo aerado, macio, e a casca crocante, implica em deixar a massa “descansar”. Deixar o fermento agir à sua maneira. No princípio, o fermento foi descoberto ao acaso. Os egípcios perceberam que a massa deixada ao ar livre por mais tempo antes de assar ficava mais macia e saborosa. E passaram a guardar um pouco dessa massa para misturar na próxima mistura, e assim, o fermento natural começou a ser “controlado”. Os gregos e romanos refinaram o processo e, hoje em dia, (opinião pessoal) os melhores pães do mundo são feitos na Itália. Se bem que o melhor pão do mundo é o que está sendo feito a poucos metros de sua casa e que você pode comprar.
O pão sem fermento
No México, Síria e Índia, é mais fácil encontrar tortilhas, “pão sírio” ou chapati na padaria da esquina do que um pão francês (que é brasileiro), uma focaccia, ou uma baguete. Isto porque, culturalmente, nestes países a preferência é pelo preparo dos pães sem fermentação. Os pães feitos assim são achatados e a massa é seca e crocante. Algumas massas de pizza também são feitas sem fermento.
Do ponto de vista do judaísmo, o pão sem fermento (matzá) lembra a urgência com que foi preparada a oferta do cordeiro na primeira Páscoa, pois não houve tempo para levedar a massa.
Algumas tradições cristãs adotam o mesmo símbolo como lembrança deste episódio, mas também com o sentido de que o pão sem fermento é puro, não contaminado pelo fermento. O fermento representaria a entrada do pecado na vida do homem. Por isso, os pães usados nas cerimônias e ritos dos católicos romanos, ortodoxos gregos e anglicanos são os pães ázimos oferecidos na forma de hóstia.
O pão e a saúde
O pão é um alimento completo. Tem carboidratos, proteína e gordura vegetal. Algumas pessoas têm intolerância ao glúten e/ou à gliadina e não se sentem bem ao consumirem produtos feitos com trigo ou outros cereais que tenham estas proteínas. Outras, mais raras, têm alergia e não podem de forma alguma consumir glúten. Em geral, consumir pão fermentado faz bem à saúde, especialmente se a farinha usada não for excessivamente modificada e se for fermentado natural e lentamente. O pão sem fermento traz menos benefícios à saúde do que o fermentado.