
Relações Sociais e Cultura do Cancelamento Por Daniel Lima
Hoje Daniel Lima comenta sobre as Relações Sociais e Cultura do Cancelamento na Internet
Postado em 03/02/2021 13:20

Daniel Lima – Teólogo, Filósofo e Psicanalista/GBPSF/ISFN. @psicanalisedaniellima
Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.”
(José Ortega y Gasset)
O banimento ou boicote de uma pessoa da arena pública não é novidade – mas, agora, nas redes sociais, o hábito ganha força em nome da justiça social. A cultura do cancelamento ou cultura do banimento, é uma forma moderna de ostracismo, (julgamento ou exclusão), em que uma pessoa ou um grupo é expulsa de uma posição de influência ou fama, devido a atitudes consideradas questionáveis – seja online, nos meios de comunicação social, no mundo real ou em ambos. Cancelar alguém implica a ambição de apagar sua existência e converter uma pessoa em não pessoa.

Na prática, funciona assim: um usuário de mídias sociais, como Twitter e Facebook, presencia um ato que considera errado, registra em vídeo ou foto e posta em sua conta com o cuidado de marcar a empresa empregadora do denunciado e autoridades públicas ou, outros influenciadores digitais que possam amplificar o alcance da mensagem. É comum que, em questão de horas, o post tenha sido replicado milhares de vezes.
Essa intencionalidade a meu ver, é sintomática, pois é mais fácil criar muros separando quem difere de mim do que construir pontes relacionais e ter que lidar com o diferente. Um diferente que me pertence e eu nego, diga-se de passagem.
Digo que é sintomática porque diz muito de nós mesmos e da forma como estamos nos relacionando com o mundo e com o outro nesta era. Quando encontramos alguém e logo pensamos não gostei dessa pessoa, na realidade encontramos nesta pessoa algo que não gostamos em nós mesmos. Aqui encontramos a união que dar força ao cancelar. Duas coisas: 1) Quando vejo no outro algo que não gosto em mim eu tenho a possibilidade de atacar esse conteúdo, sem aquela sensação de auto aniquilamento; 2) Como o cancelar acontece nas redes sociais, então se usa uma espécie de avatar para fazer isso, sem que o outro possa ver quem fez, sem que possa precise se expor, sem olhar nos olhos, isso acaba criando a falsa sensação de segurança, um ato um tanto covarde.
Um outro sintoma do cancelar é reduzir o Outro a um objeto. Afinal, nós cancelamos passeios, eventos, planos e, isso reflete os vínculos atuais de coisificação do sujeito. Essa coisificação espelha nossa postura competitiva, narcísica e vazia. É fácil cancelar alguém, difícil é se dispor a escutar, a acessar o Outro, tentar dialogar, argumentar. Difícil é olhar para si mesmo e tentar enxergar o motivo pelo qual esse outro tanto incomoda. Não coisifiquemos o Outro. Não cancelemos, pontuemos. Não cancelemos, escutemos.
Não cancelemos, nos afastemos. Não cancelemos, argumentemos e nos auto observemos. Assim, criaremos pontes e relações respeitosas.
JS Saúde
