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Pernambuco, 21 de outubro de 2021

Bem Estar

Redes sociais: conectados com o mundo, desconectados de si.   Por Daniel Lima         

É cada vez mais comprovado o quanto o smartphone faz parte do nosso dia a dia.

Postado em 13/10/2021 2021 17:48 , Bem Estar. Atualizado em 13/10/2021 17:51

Colunista

Daniel Lima – Teólogo, Filósofo e Psicanalista/GBPSF/ISFN. @daniellima.pe

 

Pouco usado para ligações telefônicas, mas massivamente,  como instrumento de acesso às  redes sociais e aplicativos que visam facilitar o cotidiano. A relação com  o mundo virtual nesse período de pandemia,  tem sido usado de forma híbrida, tanto para estudos e trabalhos,  tornando a realidade híbrida. As pessoas estão cada vez mais conectadas e consequentemente mais ansiosas e depressivas. É um sintoma comum da depressão a ausência de mundo e do outro. Isso vem crescendo porque estamos cada vez mais desconectados  do mundo, sem aquele tempo ocioso.

 

O que parecia ser mais liberdade vem se tornando cada vez mais uma prisão

 

Aquilo que o filósofo Byung-Chul Han chamou de “a sociedade do cansaço”, está cada vez mais evidente onde vemos pessoas esgotadas e deprimidas,  pelas exigências da atual existência. Estamos cercados das mais diferentes formas de entretenimento e consumo. Hoje é cada vez mais comum escutar entre crianças e pré-adolescentes o desejo de ser um “youtuber” famoso. Por outro lado, muitas pessoas querem fazer algo único e marcante, algo que os faça diferente dos outros, porém,  dessa maneira, estão se comparando o tempo todo com os outros e não percebem. O tempo todo tendo os outros como referência do que não se quer ser. É justamente essa comparação que nos faz iguais.

REPRODUÇÃO NET

 

Inserção ao mundo digital

 

Aos poucos estamos sem tempo para coisas simples e modificando nossos rituais cotidianos coma a inserção  ao mundo digital. Enquanto tomamos café abrimos o aplicativo, então vamos lendo e respondendo. De um aplicativo passamos para outro e quando nos percebemos, terminamos o café da manhã e nem mesmo sentimos seu gosto. Vivemos num aceleramento, de modo que nem temos tempo para apreciar o nascer ou o pôr-do-sol. Aquele rito de para escutar um álbum musical foi substituído por ouvir enquanto se responde e-mail, ou compartilha a música numa rede social. O mesmo acontece com filmes, com tantas plataformas com os mais variados gêneros de séries e filmes, mesmo assim o assistir é dividido entre a tela do smartphone e a televisão. Precisamos resgatar aquele ócio e  perceber o mundo a nossa volta, não através da tela tirando uma fotografia para compartilhar no Instagram, mas viver a vida com sabor de vida, desacelerando e, nos percebendo, nos sentindo.

 

 Preste atenção a si mesmo e saiba lidar com seus limites sem precisar chegar a exaustão

Tenho escutado com certa frequência pessoas entre o público jovem interessadas em obras como: “1984” de George Orwell, “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley e “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago. Em 1984 as pessoas são controladas pela ameaça de machucá-las. Em Admirável Mundo Novo são controladas pela administração de prazer, o Estado entrega uma droga chamada “soma” para que todo mundo se sinta feliz. Porém, em “Ensaio sobre a Cegueira” parece que vemos um cenário pandêmico, uma cegueira branca como um mar de leite e jamais conhecida, alastra-se rapidamente em forma de epidemia. As pessoas precisam ficar em quarentena e neste momento os sentimentos se irão desenvolver sob diversas formas: lutas entre grupos pela pouca comida disponibilizada, compaixão pelos doentes e os mais necessitados, como idosos ou crianças. Aqui neste último romance me permita fazer uma aplicação muito pessoal do seguinte trecho: “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Sim, precisamos ter cuidado para que a dependência aprisionadora do smartphone não nos torne cegos que veem. Como já disse em um outro texto, é importante encontrar um equilíbrio, as mídias sociais não precisam ser vilãs, mas no final a escolha é sua, afinal, a conectividade também presta seu melhor serviço tornando possível trazer um pouco para perto quem está longe. Então, preste atenção a si mesmo e saiba lidar com seus limites sem precisar chegar a exaustão.

 


Quem é Daniel Lima Gonçalves: Psicanalista, Filósofo e Teólogo.
Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF; Membro da International Sándor Ferenczi Network – ISFN; Membro Emérito – Sociedade Pernambucana de Estudos Psicanalíticos – SPEP; Estudo Permanente em Psicanálise no Instituto Nebulosa Marginal – INM; Especialista em Psicanálise e Teoria Analítica – FATIN; Especialista em Filosofia e Autoconhecimento – PUCRS; Extensão em Certificação Profissional em Neurociências – PUCRS; Pós-graduando em Ciências Humanas – PUCRS;  Formado na clínica psicanalítica com adultos – CPPLRecife.
@daniellima.pe    daniellimagoncalves.pe@gmail.com